História da Constituição de 1988


 

O que é a Constituição de 1988?


A Constituição de 1988 é o atual texto constitucional do Brasil e representa um marco fundamental no processo de redemocratização do país após o período da Ditadura Militar (1964–1985). Promulgada em 5 de outubro de 1988, ela estabeleceu as bases jurídicas do Estado democrático brasileiro contemporâneo, ampliando direitos civis, políticos e sociais e reorganizando as instituições do país.

Conhecida como “Constituição Cidadã”, expressão utilizada pelo então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, a Carta de 1988 procurou responder às demandas da sociedade brasileira após duas décadas de regime autoritário. Sua elaboração foi marcada por ampla participação política e social, refletindo debates intensos sobre democracia, cidadania, direitos sociais e organização do Estado.


Contexto histórico


Para compreender a Constituição de 1988, é necessário analisar o contexto histórico que antecedeu sua elaboração. Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar que restringiu liberdades políticas, limitou direitos civis e concentrou o poder nas mãos das Forças Armadas.

Durante esse período, o país foi governado por uma série de constituições e atos institucionais que reforçavam o caráter autoritário do regime. A Constituição de 1967 e a Emenda Constitucional nº 1 de 1969 consolidaram um sistema político centralizado, com forte controle do Executivo sobre os demais poderes e com limitações à atuação do Congresso Nacional.

A partir da segunda metade da década de 1970, iniciou-se um processo gradual de abertura política. Esse processo ficou conhecido como “distensão” ou “abertura”, conduzido principalmente durante os governos dos generais Ernesto Geisel (1974–1979) e João Figueiredo (1979–1985).

Nesse contexto, medidas importantes foram tomadas para reduzir o caráter autoritário do regime. Entre elas destacam-se o fim do Ato Institucional nº 5 em 1978, a anistia política em 1979 e a reorganização do sistema partidário com o fim do bipartidarismo.

Mesmo com essas mudanças, a sociedade brasileira continuou pressionando por transformações mais profundas. Movimentos sociais, sindicatos, organizações estudantis e setores da imprensa passaram a exigir eleições diretas e maior participação democrática.



O movimento Diretas Já


Um dos momentos mais marcantes desse processo foi o movimento Diretas Já, que ocorreu entre 1983 e 1984. Esse movimento mobilizou milhões de brasileiros em diversas cidades do país, exigindo a aprovação de uma emenda constitucional que permitisse eleições diretas para presidente da República.

A proposta ficou conhecida como Emenda Dante de Oliveira, apresentada pelo deputado Dante de Oliveira. Embora tenha recebido grande apoio popular e político, a emenda não alcançou o número necessário de votos no Congresso Nacional para ser aprovada.

Mesmo sem a conquista imediata das eleições diretas, o movimento Diretas Já teve grande importância histórica. Ele demonstrou a força da mobilização popular e evidenciou que a sociedade brasileira desejava o fim do regime militar e a reconstrução das instituições democráticas.

Em 1985, a eleição presidencial ainda ocorreu de forma indireta por meio do Colégio Eleitoral. O vencedor foi Tancredo Neves, candidato da oposição, que simbolizava a transição para um novo período político.



A transição democrática e o governo Sarney


Tancredo Neves, contudo, não chegou a assumir o cargo. Ele adoeceu antes da posse e faleceu em abril de 1985. Dessa forma, o vice-presidente eleito, José Sarney, assumiu a presidência da República.

O governo Sarney (1985–1990) foi marcado pela consolidação da transição democrática. Uma das principais medidas desse período foi a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para elaborar uma nova Constituição para o país.

A proposta de uma nova Constituição era amplamente defendida por diferentes setores da sociedade. Muitos consideravam que as estruturas jurídicas herdadas do regime militar não eram adequadas para uma democracia plena.

Assim, a elaboração de um novo texto constitucional era vista como um passo essencial para reorganizar o sistema político brasileiro, ampliar direitos e estabelecer garantias institucionais para o funcionamento do Estado democrático.



A convocação da Assembleia Nacional Constituinte


A Assembleia Nacional Constituinte foi convocada em 1987. Ela foi formada pelos deputados e senadores eleitos nas eleições de 1986, que receberam a missão de elaborar uma nova Constituição.

Os trabalhos da Constituinte ocorreram entre fevereiro de 1987 e outubro de 1988. Durante esse período, foram realizados debates intensos sobre diferentes temas, como direitos sociais, organização do Estado, sistema político, reforma agrária, educação, saúde e direitos das minorias.

A Constituinte contou com significativa participação da sociedade civil. Movimentos sociais, organizações populares, sindicatos, associações profissionais e grupos representativos de diferentes setores enviaram propostas e participaram de audiências públicas.

Esse processo ampliou a legitimidade do texto constitucional e contribuiu para que diversas demandas sociais fossem incorporadas à nova Constituição.

A participação popular foi uma das características mais marcantes da Constituinte. Milhares de emendas populares foram apresentadas, muitas delas com grande número de assinaturas.

Esse ambiente de debate refletia a expectativa da sociedade brasileira em relação à construção de um novo modelo político, mais democrático e mais comprometido com a cidadania.



A elaboração do texto constitucional


O processo de elaboração da Constituição foi conduzido por diferentes comissões e subcomissões temáticas, responsáveis por discutir áreas específicas.

Entre os principais temas debatidos estavam os direitos fundamentais, a organização dos poderes da República, o papel das Forças Armadas, o sistema federativo, as políticas sociais e o papel do Estado na economia.

O texto final da Constituição refletiu um esforço de conciliação entre diferentes correntes políticas e ideológicas. Parlamentares de orientações diversas participaram das negociações, buscando construir um consenso mínimo para a aprovação do documento.

Um dos elementos centrais da Constituição de 1988 foi a ampliação do catálogo de direitos e garantias fundamentais. O texto estabeleceu uma série de direitos civis, políticos, sociais e culturais que passaram a ter proteção constitucional.

Entre esses direitos destacam-se a liberdade de expressão, o direito de organização política, o direito de greve, a proteção aos trabalhadores, o direito à saúde, à educação e à assistência social.

A Constituição também estabeleceu instrumentos jurídicos para a defesa desses direitos, como o mandado de segurança, o habeas data e o mandado de injunção.



A estrutura da Constituição de 1988


A Constituição de 1988 é um documento extenso e detalhado. Ela está dividida em nove títulos, que tratam de diferentes aspectos da organização do Estado brasileiro.


Entre esses títulos destacam-se:


Direitos e garantias fundamentais: estabelece os direitos individuais, coletivos, sociais e políticos dos cidadãos.

Organização do Estado: define a estrutura federativa do Brasil, composta pela União, estados, municípios e Distrito Federal.

Organização dos poderes: determina as competências e funções dos três poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Ordem econômica e financeira: regula os princípios que orientam a economia nacional.

Ordem social: trata de políticas públicas relacionadas à saúde, educação, previdência social, cultura e meio ambiente.


A Constituição também estabeleceu mecanismos de controle institucional, como o fortalecimento do Ministério Público e a ampliação das funções do Supremo Tribunal Federal.



Direitos sociais e cidadania


Um dos aspectos mais importantes da Constituição de 1988 foi a valorização dos direitos sociais.

O texto constitucional reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado, o que levou à criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Também garantiu a educação pública como um direito fundamental e estabeleceu princípios para a organização do sistema educacional brasileiro.

Além disso, a Constituição ampliou direitos trabalhistas, reconheceu a importância da seguridade social e estabeleceu políticas de proteção para diferentes grupos sociais, como indígenas, idosos, crianças e pessoas com deficiência.

No caso dos povos indígenas, por exemplo, a Constituição reconheceu seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, representando uma mudança significativa em relação às políticas anteriores.



A Constituição Cidadã


A expressão “Constituição Cidadã” tornou-se amplamente associada ao texto de 1988. Ela reflete a preocupação dos constituintes em garantir direitos e fortalecer a participação democrática.

Essa característica pode ser observada na criação de mecanismos de participação popular, como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de leis.

Além disso, a Constituição buscou fortalecer instituições responsáveis pela defesa da legalidade democrática, como o Ministério Público e o Poder Judiciário.

Essas mudanças contribuíram para criar um sistema político mais equilibrado e com maior capacidade de proteger os direitos dos cidadãos.



Importância histórica da Constituição de 1988


A Constituição de 1988 representa um marco decisivo na história política do Brasil. Ela consolidou o processo de redemocratização iniciado na década de 1980 e estabeleceu as bases institucionais do Estado democrático de direito.

Desde sua promulgação, a Constituição tem desempenhado papel fundamental na garantia das liberdades políticas, na proteção dos direitos fundamentais e na organização das instituições públicas.

Seu impacto pode ser observado na ampliação da participação política, no fortalecimento das instituições democráticas e na construção de políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades sociais.

Assim, a Constituição de 1988 permanece como um dos documentos mais importantes da história brasileira, simbolizando a busca pela democracia, pela cidadania e pela consolidação de um Estado comprometido com os direitos de sua população.

 

Infográfico com síntese sobre a História da Constituição de 1988
Infográfico com síntese didática sobre a História da Constituição de 1988

 

 


 

RESUMO

 

Contexto histórico da Constituição de 1988 (1964–1985)

Ditadura Militar no Brasil (1964–1985): regime autoritário caracterizado pela centralização do poder, restrição de direitos políticos e censura à oposição.
• Processo de abertura política (1974–1985): início da redemocratização durante os governos de Ernesto Geisel e João Figueiredo.
• Movimento Diretas Já (1983–1984): mobilização popular que exigia eleições diretas para presidente da República.

Transição para a democracia (1985)

• Eleição indireta de Tancredo Neves (1985): vitória da oposição no Colégio Eleitoral, simbolizando o fim do regime militar.
• Governo José Sarney (1985–1990): condução da transição democrática e convocação da Assembleia Nacional Constituinte.


Assembleia Nacional Constituinte (1987–1988)

• Instalação da Constituinte (1987): deputados e senadores eleitos em 1986 receberam a missão de elaborar uma nova Constituição.
• Participação da sociedade civil: movimentos sociais, sindicatos e organizações apresentaram propostas e emendas populares.
• Debates sobre direitos e organização do Estado: discussões sobre cidadania, direitos sociais, sistema político e estrutura institucional.


Promulgação da Constituição de 1988

• Promulgação em 5 de outubro de 1988: marco da consolidação da democracia brasileira.
• Constituição Cidadã: denominação associada à ampliação de direitos civis, políticos e sociais.


Principais características da Constituição

• Ampliação dos direitos fundamentais: garantia de liberdades individuais, direitos políticos e direitos sociais.
• Reconhecimento de direitos sociais: saúde, educação, previdência social, assistência social e direitos trabalhistas.
• Fortalecimento das instituições democráticas: consolidação dos três poderes e ampliação das funções do Judiciário e do Ministério Público.


Organização do Estado brasileiro

• Sistema federativo: divisão política entre União, estados, municípios e Distrito Federal.
• Separação dos poderes: organização institucional entre Executivo, Legislativo e Judiciário.


Direitos e cidadania

• Criação do Sistema Único de Saúde (SUS): saúde reconhecida como direito de todos e dever do Estado.
• Proteção de grupos sociais: reconhecimento de direitos de indígenas, crianças, idosos e pessoas com deficiência.
• Mecanismos de participação popular: plebiscito, referendo e iniciativa popular de leis.


Importância histórica

• Consolidação da redemocratização do Brasil após o período autoritário (1964–1985).
• Base jurídica do Estado Democrático de Direito brasileiro contemporâneo.
• Referência para a garantia de direitos e funcionamento das instituições democráticas no país.

 

 


 

Dicas do professor: Como esse tema pode ser cobrado em Vestibulares e ENEM?



1. Contexto histórico da redemocratização

As provas costumam relacionar a Constituição de 1988 ao processo de redemocratização do Brasil após o fim da Ditadura Militar (1964–1985). As questões podem apresentar textos ou trechos de documentos históricos para que o estudante identifique o contexto político da década de 1980, marcado pelo movimento Diretas Já (1983–1984), pela eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 e pela necessidade de reorganização institucional do país após o regime autoritário.


2. Assembleia Nacional Constituinte (1987–1988)

É comum que as provas cobrem a criação e o funcionamento da Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da nova Constituição. As questões podem abordar o processo de participação popular, a atuação dos parlamentares eleitos em 1986 e os debates políticos que ocorreram durante a elaboração do texto constitucional entre 1987 e 1988.


3. Constituição Cidadã

O apelido “Constituição Cidadã”, associado à Carta de 1988, aparece frequentemente em vestibulares e no ENEM. As questões podem exigir que o estudante identifique o motivo dessa denominação, geralmente relacionando-a à ampliação de direitos sociais, civis e políticos garantidos pelo novo texto constitucional após décadas de autoritarismo.


4. Direitos sociais garantidos pela Constituição

Outro tipo de cobrança envolve os direitos sociais estabelecidos pela Constituição de 1988. As provas podem apresentar exemplos de políticas públicas, como o direito universal à saúde com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a garantia da educação pública e a ampliação dos direitos trabalhistas, pedindo que o estudante relacione essas conquistas ao novo texto constitucional.


5. Organização do Estado e separação dos poderes

Questões também podem abordar a estrutura política definida pela Constituição, especialmente o sistema federativo brasileiro e a divisão de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Nesse tipo de questão, é comum que se peça a identificação das funções de cada poder dentro do Estado Democrático de Direito.


6. Direitos das minorias e grupos sociais

Vestibulares e o ENEM frequentemente exploram a ampliação de direitos de grupos historicamente marginalizados. Podem aparecer questões sobre o reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas, a proteção às crianças e adolescentes, os direitos das pessoas idosas e a valorização da diversidade cultural presentes na Constituição de 1988.


7. Comparação com constituições anteriores

Algumas questões exigem comparação entre a Constituição de 1988 e constituições anteriores do Brasil, especialmente a Constituição de 1967 e a Emenda Constitucional de 1969, elaboradas durante a Ditadura Militar. O objetivo é identificar diferenças entre um regime autoritário e um sistema democrático baseado na ampliação de direitos e na participação política da sociedade.

 

 

 

 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 11/03/2026




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