Assembleia Nacional Constituinte na Revolução Francesa


 

Contexto político e social que levou à convocação da Constituinte


A França do final da década de 1780 enfrentava uma grave crise financeira resultante dos altos gastos da monarquia absolutista e do impacto das guerras, como a participação na Independência dos Estados Unidos (1776–1783). O sistema fiscal desigual, no qual apenas o Terceiro Estado arcava com a maior parte dos impostos, aprofundava tensões sociais cada vez mais visíveis. Nesse cenário, aumentavam a pobreza urbana, as revoltas camponesas e a crítica ao absolutismo, impulsionada pelo Iluminismo do século XVIII. A monarquia de Luís XVI, pressionada, convocou os Estados Gerais em 1789, tentando buscar uma saída política para a crise.



Formação da Assembleia e ruptura com os Estados Gerais


Os Estados Gerais, reunidos em maio de 1789 em Versalhes, seguiam a estrutura tradicional dos três Estados (Clero, Nobreza e Terceiro Estado). A forma de votação por ordem, que beneficiava o Clero e a Nobreza, gerou grande descontentamento no Terceiro Estado, que representava a maioria da população francesa. Após intensos debates, os representantes do Terceiro Estado, apoiados por parte dos outros dois grupos, declararam-se Assembleia Nacional em 17 de junho de 1789. Essa decisão simbolizava a ruptura com a lógica corporativa do Antigo Regime e inaugurava a ideia de soberania nacional. A partir daí, as decisões passariam a representar a vontade geral, não os privilégios de ordens sociais específicas.



O Juramento do Jogo da Péla e o início da ordem constitucional


Em 20 de junho de 1789, os deputados encontraram a sala de reuniões fechada e transferiram-se para o salão do Jogo da Péla, onde realizaram o juramento de não se dispersarem até redigir uma Constituição para a França. Esse ato marcou o início de uma nova legitimidade política, colocando o poder constituinte nas mãos dos representantes eleitos. A monarquia, inicialmente resistente, viu-se obrigada a reconhecer a Assembleia, embora continuasse tentando preservar sua autoridade. O juramento tornou-se um dos símbolos do processo revolucionário e da luta pela institucionalização de uma ordem política baseada em direitos e participação.



Principais debates e disputas internas


A Assembleia Nacional Constituinte reuniu diferentes grupos políticos. Os moderados defendiam a manutenção da monarquia com limites constitucionais, inspirados também em ideias fisiocratas e na experiência britânica do século XVIII. Os mais radicais, influenciados por pensadores iluministas como Rousseau, buscavam ampliar a participação política e transformar as estruturas sociais. Surgiram intensas discussões sobre cidadania, propriedade, liberdade, organização dos poderes e reformas econômicas. Essas divergências refletiam os interesses sociais variados representados na Assembleia e contribuíam para a complexidade dos debates, tendo como pano de fundo o agravamento das tensões populares e o medo das elites diante das mobilizações de massas.



A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789)


Em agosto de 1789, a Assembleia aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento essencial que estabelecia princípios universais como liberdade, igualdade jurídica, direito à propriedade, presunção de inocência e soberania nacional. Inspirada no Iluminismo do século XVIII, na Revolução Americana e na tradição do pensamento liberal, a Declaração constituiu a base filosófica da nova ordem revolucionária. Suas formulações buscaram romper com o sistema de privilégios do Antigo Regime e forneceram um horizonte normativo para as reformas que se seguiriam entre 1789 e 1791, influenciando constituições de diversos países nos séculos XIX e XX.



Reformas políticas e administrativas implementadas


Entre 1789 e 1791, a Assembleia aprovou reformas profundas. Em agosto de 1789, decretou a abolição dos privilégios feudais, eliminando obrigações senhoriais que pesavam sobre os camponeses. Em seguida, reorganizou o território francês em departamentos, modernizando a administração estatal. Criou normas uniformes de justiça baseadas na lei escrita e extinguiu antigas cortes ligadas aos privilégios nobiliárquicos. No campo religioso, aprovou medidas de secularização, como a nacionalização dos bens da Igreja e a Constituição Civil do Clero (1790), que subordinava o clero ao Estado. Essas ações transformaram profundamente as bases políticas e sociais da França pós-1789.



A Constituição de 1791


Promulgada em setembro de 1791, a Constituição marcou oficialmente o fim do Antigo Regime. Ela estabeleceu uma monarquia constitucional, com separação dos poderes em Legislativo, Executivo e Judiciário. A autoridade real foi significativamente reduzida, embora o rei mantivesse o poder de veto suspensivo. O sufrágio tornou-se censitário, restringindo a participação política aos chamados cidadãos ativos, aqueles com renda suficiente para votar. Essa limitação refletia o predomínio da burguesia moderada na Assembleia. Mesmo com suas restrições, a Constituição representou um marco de modernização institucional ao substituir o absolutismo por um modelo político baseado na lei e na representação.



Crises, tensões e o fim da Constituinte


A Assembleia enfrentou grandes dificuldades ao longo de 1790 e 1791. A Constituição Civil do Clero dividiu profundamente a sociedade, pois muitos religiosos recusaram-se a jurar fidelidade ao Estado. A fuga do rei em Varennes, em junho de 1791, enfraqueceu ainda mais a monarquia e aumentou a radicalização popular. Setores urbanos exigiam medidas mais profundas, enquanto a nobreza emigrava em massa. A combinação de tensões internas, crise econômica e instabilidade política acelerou o fim da Assembleia Nacional Constituinte, que encerrou seus trabalhos em setembro de 1791, dando lugar à Assembleia Legislativa.



Legado histórico da Assembleia Nacional Constituinte


A experiência da Constituinte deixou um legado fundamental. Ela consolidou valores liberais modernos, como direitos individuais, igualdade perante a lei e soberania popular. As reformas administrativas criaram bases para o Estado moderno, eliminando estruturas feudais seculares. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão tornou-se referência mundial. Mesmo com suas limitações, a Constituinte influenciou movimentos revolucionários e processos constitucionais na Europa e nas Américas ao longo dos séculos XIX e XX. A transição conduzida entre 1789 e 1791 alterou de maneira definitiva as estruturas políticas francesas e abriu caminho para novas fases da Revolução Francesa, marcadas por crescente radicalização e transformação social.

 

Infográfico com síntese da Assembleia Nacional Constituinte na Revolução Francesa (1789–1791)

Síntese da Assembleia Nacional Constituinte na Revolução Francesa (1789–1791)

 


 

RESUMO

 

Assembleia Nacional Constituinte na Revolução Francesa (1789–1791)


Contexto político e social

- Crise financeira profunda decorrente de gastos militares e do sistema fiscal desigual.
- Difusão das ideias iluministas e aumento das tensões sociais entre os três Estados.



Formação da Assembleia

- Ruptura com o sistema de votação dos Estados Gerais após maio de 1789.
- Proclamação do Terceiro Estado como Assembleia Nacional, baseada na soberania popular.



Juramento do Jogo da Péla

- Ato de 20 de junho de 1789 com compromisso de redigir uma Constituição.
- Reconhecimento forçado da legitimidade parlamentar pela monarquia.



Debates internos

- Moderados defendendo monarquia constitucional.
- Radicais apoiando maior participação política e reformas amplas.
- Discussões sobre cidadania, direitos, propriedade e limites do poder real.



Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

- Documento de agosto de 1789 baseado em liberdade, igualdade jurídica e soberania nacional.
- Influência do Iluminismo e da Revolução Americana na formulação dos direitos.



Reformas políticas e administrativas

- Abolição dos privilégios feudais.
- Reorganização territorial em departamentos.
- Secularização do Estado com a nacionalização dos bens da Igreja.
- Criação de uma justiça baseada na lei escrita e unificação administrativa.



Constituição de 1791

- Estabelecimento da monarquia constitucional com separação dos poderes.
- Implantação do voto censitário e limitação do poder real por meio do veto suspensivo.



Crises e tensões

- Divisão causada pela Constituição Civil do Clero em 1790.
- Fuga do rei em Varennes e perda de confiança na monarquia durante 1791.
- Crescente radicalização social e política, encerrando a Constituinte em setembro de 1791.



Legado histórico

- Consolidação dos direitos individuais e da igualdade jurídica.
- Influência em movimentos constitucionais do século XIX.
- Transformação definitiva das estruturas políticas do Antigo Regime.

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 05/02/2026




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fonte de referência:

 

https://en.wikipedia.org/wiki/French_Revolution

 

https://www.britannica.com/event/French-Revolution


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