O que foi
O Movimento Antropofágico foi um movimento artístico e cultural, que surgiu no Brasil no começo da década de 1920. Ele se desenvolveu, principalmente, nos campos das Artes Plásticas e da Literatura. Foi um movimento de vanguarda e esteve ligado ao contexto da Semana de Arte Moderna de 1922.
Foi dado esse nome ao movimento (antropofagia = canibalismo), pois seus integrantes (escritores e artistas plásticos) defendiam a ideia de que a cultura europeia (dominante e com grande influência no Brasil daquela época) deveria ser “devorada e digerida” no Brasil, antes de ser transformada em expressão artística nacional e original.
Os criadores desse movimento foram a pintora Tarsila do Amaral e o escritor e poeta Oswald de Andrade.
Revista de Antropofagia
Entre maio de 1928 e fevereiro de 1929, foi produzida e publicada a Revista de Antropofagia, dirigida pelo escritor Alcântara Machado e pelo poeta Raul Bopp.
Embora tenha durado pouco tempo, ela foi um dos principais meios de divulgação do pensamento modernista brasileiro no final da década de 1920. Colaboraram para a revista diversos escritores do Modernismo: Plínio Salgado, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Menotti del Picchia, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Pedro Nava.
Manifesto Antropofágico
Inspirado nas ideias de André Breton (escritor e poeta francês surrealista) foi um documento, de caráter literário, escrito por Oswald de Andrade em 1928. Esse manifesto apresenta os princípios básicos do movimento, “Contra todos os importadores de consciência enlatada”.
Contexto histórico do Movimento Antropofágico (década de 1920)
O Movimento Antropofágico surgiu no Brasil na década de 1920, especialmente a partir de 1928, em um período marcado por intensas transformações políticas, sociais e culturais. A Primeira República (1889–1930) vivia uma fase de crise, com o predomínio das oligarquias agrárias, sobretudo café-com-leite (São Paulo e Minas Gerais), e com crescente insatisfação de setores urbanos, intelectuais e militares. Ao mesmo tempo, o país passava por um processo de urbanização e início de industrialização, sobretudo em São Paulo, o que ampliava o contato com ideias modernas vindas da Europa.
No plano cultural, o movimento está diretamente ligado às mudanças iniciadas pela Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo. Esse evento representou uma ruptura com os padrões acadêmicos tradicionais e abriu espaço para uma arte inovadora, experimental e voltada para a realidade brasileira. Após 1922, os artistas modernistas passaram a buscar uma identidade cultural própria, questionando a dependência estética em relação à Europa e defendendo a valorização de elementos nacionais, como a cultura indígena, africana e popular.
O cenário internacional também influenciou o surgimento do Movimento Antropofágico. No período do pós-Primeira Guerra Mundial (1914–1918), a Europa vivia um ambiente de crise de valores, o que favoreceu o surgimento das vanguardas artísticas, como o Surrealismo, o Dadaísmo e o Cubismo. Muitos artistas brasileiros tiveram contato direto com essas correntes durante viagens à Europa, especialmente em Paris, e trouxeram essas influências para o Brasil. Contudo, ao invés de simplesmente reproduzi-las, os antropofágicos propuseram reinterpretá-las a partir da realidade brasileira.
Nesse contexto, o Movimento Antropofágico, articulado principalmente por Oswald de Andrade, propôs uma metáfora inspirada nos rituais indígenas de antropofagia: devorar simbolicamente a cultura estrangeira para transformá-la em algo novo e nacional. Essa ideia foi sistematizada no “Manifesto Antropófago” (1928), que defendia a autonomia cultural brasileira e criticava a submissão intelectual ao modelo europeu. O movimento, portanto, refletiu tanto as tensões internas da sociedade brasileira quanto o diálogo crítico com as transformações culturais do cenário internacional.
Principais características estéticas e culturais:
• Movimento modernista de vanguarda: integrou a fase mais radical do Modernismo brasileiro, especialmente a partir de 1928, com a publicação do “Manifesto Antropófago”, propondo uma ruptura com padrões artísticos tradicionais e acadêmicos.
• Crítica à imitação cultural: posicionou-se contra a simples reprodução de modelos europeus, defendendo a superação do colonialismo cultural e a construção de uma identidade artística própria.
• Antropofagia cultural: propôs a ideia de “devorar” simbolicamente a cultura estrangeira, assimilando seus elementos e transformando-os em algo novo, adaptado à realidade brasileira.
• Valorização das culturas originárias e afro-brasileiras: incorporou elementos das culturas indígenas e africanas, reconhecendo sua importância na formação cultural do Brasil e rompendo com a visão eurocêntrica dominante.
• Primitivismo: valorizou formas de expressão consideradas “primitivas”, entendidas como mais autênticas, espontâneas e ligadas à natureza, em oposição ao racionalismo excessivo da cultura europeia.
• Linguagem inovadora: utilizou uma linguagem experimental, com rupturas sintáticas, humor, ironia e uso de coloquialismos, aproximando a arte da oralidade e do cotidiano brasileiro.
• Espírito crítico e irreverente: adotou uma postura provocadora, satírica e questionadora, criticando instituições, valores burgueses e padrões culturais estabelecidos.
• Influência de correntes filosóficas e psicanalíticas: recebeu influências de pensadores como Karl Marx, Friedrich Engels, Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Jean-Jacques Rousseau, cujas ideias contribuíram para a crítica à sociedade, à moral e à cultura ocidental.
• Nacionalismo crítico: desenvolveu uma forma de nacionalismo não tradicional, que não idealizava o passado, mas reinterpretava a identidade brasileira de forma dinâmica e crítica.
• Integração entre arte e identidade: buscou unir literatura, artes plásticas e pensamento social na construção de uma cultura autenticamente brasileira.
• Influência das vanguardas europeias: dialogou com movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo e o Futurismo, apropriando-se de suas técnicas e propostas de ruptura estética.
• Centralidade do “Manifesto Antropófago”: texto fundamental escrito por Oswald de Andrade em 1928, que sistematizou os princípios do movimento e se tornou uma das bases do Modernismo no Brasil.
• Valorização do hibridismo cultural: compreendeu a cultura brasileira como resultado da mistura de diferentes matrizes culturais, defendendo essa diversidade como elemento constitutivo da identidade nacional.
• Ruptura com o academicismo: rejeitou normas rígidas das academias de arte e literatura, incentivando a liberdade criativa e a experimentação estética.
• Dimensão política e cultural: articulou uma crítica ao colonialismo, ao imperialismo cultural e às hierarquias culturais impostas pela Europa, propondo uma inversão simbólica dessas relações.
Principais escritores relacionados ao Movimento Antropofágico:
Oswald de Andrade: foi o principal formulador do Movimento Antropofágico. Em 1928, publicou o “Manifesto Antropófago”, no qual apresentou a ideia central de devorar simbolicamente a cultura europeia para recriá-la em bases brasileiras. Sua atuação foi decisiva na definição dos princípios estéticos e ideológicos do movimento, defendendo uma arte crítica, irreverente e profundamente ligada à identidade nacional.
Mário de Andrade: embora não tenha sido um participante direto do Movimento Antropofágico, manteve forte diálogo com suas ideias. Sua obra valorizou a cultura popular brasileira, o folclore e a diversidade cultural, aspectos que convergem com a proposta antropofágica. No entanto, sua abordagem foi mais sistemática e menos provocadora que a de Oswald.
Raul Bopp: integrou diretamente o movimento e contribuiu com a difusão de suas ideias. Sua obra “Cobra Norato” (1931) expressa elementos da cultura amazônica e do imaginário indígena, alinhando-se à valorização do primitivismo e da identidade nacional proposta pela Antropofagia.
Antônio de Alcântara Machado: participou do ambiente modernista que deu origem ao Movimento Antropofágico e colaborou com seus integrantes. Seus textos exploram a linguagem coloquial e o cotidiano urbano, dialogando com a proposta de renovação estética e de valorização da realidade brasileira.
Manuel Bandeira: não integrou formalmente o movimento, mas sua produção literária contribuiu para a ruptura com o academicismo e a valorização da linguagem simples e nacional. Sua obra apresenta afinidades com o espírito modernista que fundamenta a Antropofagia, ainda que com menor radicalidade.
Tarsila do Amaral: embora seja mais conhecida nas artes plásticas, teve relação direta com o Movimento Antropofágico e influenciou seu desenvolvimento. Sua obra “Abaporu” (1928) inspirou Oswald de Andrade na formulação do manifesto. Sua produção visual expressa a síntese entre elementos europeus e brasileiros, princípio central da Antropofagia.
Patrícia Galvão: participou do movimento em sua fase posterior e esteve ligada ao grupo antropofágico. Sua atuação foi marcada pelo engajamento político e pela experimentação estética, ampliando o alcance das ideias modernistas e antropofágicas no campo cultural e social.
Menotti del Picchia: fez parte do Modernismo brasileiro e teve contato com o ambiente intelectual que originou o Movimento Antropofágico. Embora não tenha sido um de seus principais teóricos, colaborou para a renovação literária e para a valorização de temas nacionais, em sintonia com os objetivos do movimento.
Principais artistas plásticos relacionados ao Movimento Antropofágico:
Tarsila do Amaral
Tarsila do Amaral foi a principal artista plástica associada ao Movimento Antropofágico, especialmente a partir de 1928, quando produziu a obra “Abaporu”, que se tornou o símbolo do movimento. Sua pintura incorporava elementos da cultura brasileira, como paisagens tropicais, cores intensas e figuras deformadas, combinando influências europeias com temas nacionais. Sua contribuição foi decisiva para consolidar a proposta antropofágica de “devorar” a cultura estrangeira e transformá-la em uma expressão artística autenticamente brasileira.
Anita Malfatti
Anita Malfatti, embora não tenha sido uma integrante direta do núcleo antropofágico, exerceu grande influência sobre o movimento. Sua produção artística, marcada pelo Expressionismo e pela ruptura com os padrões acadêmicos, abriu caminho para as experiências modernistas no Brasil desde a década de 1910. Suas obras contribuíram para a valorização da subjetividade, da liberdade formal e da incorporação de influências estrangeiras reinterpretadas, princípios que seriam aprofundados pelos antropofágicos.
Di Cavalcanti
Di Cavalcanti participou do ambiente modernista que deu origem ao Movimento Antropofágico e dialogou com suas ideias. Sua obra destacou-se pela representação de temas urbanos, populares e nacionais, como o samba, o cotidiano das camadas populares e a cultura afro-brasileira. Embora não tenha sido um teórico do movimento, sua pintura contribuiu para a construção de uma identidade artística brasileira, alinhada ao princípio antropofágico de valorização das raízes culturais locais combinadas com influências externas.
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| Infográfico didático e resumido sobre o Movimento Antropofágico |
Curiosidades:
- Uma das obras de arte mais representativas do Movimento Antropofágico, no campo das artes plásticas, foi Abaporu (1928) de Tarsila do Amaral.
- Além do Movimento Antropofágico, outro movimento se destacou no contexto do Modernismo brasileiro. Foi o Movimento Verde-amarelismo. Porém, esse era extremamente nacionalista e com tendências nativistas.
Trecho do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade
" Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitos postos em
drama. Freud acabou com o enigma mulher e com os sustos da psicologia impressa".
(Revista de Antropofagia, Ano I, No. I, maio de 1928.)
Artigo publicado em 29/10/2019 e atualizado em 22/04/2026
Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_antropof%C3%A1gico
- CEREJA, William; COCHAR, Teresa. Literatura Brasileira. São Paulo: Atual Editora, 2013.
- FRANCHETTI, Paulo. Estudos da Literatura Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.