Quem foi
Thomas More, também conhecido como Thomas Morus, foi um importante filósofo humanista inglês do Renascimento. Também foi diplomata, advogado, escritor e político. É considerado uma das pessoas mais influentes da Inglaterra, na primeira metade do século XVI.
Biografia
Thomas More nasceu em Londres, em 7 de fevereiro de 1478, em uma família ligada ao meio jurídico inglês. Filho de John More, juiz respeitado da cidade, recebeu desde cedo uma formação voltada para o estudo do direito, da retórica e das letras clássicas. Ainda jovem, frequentou o ambiente intelectual da corte e conviveu com estudiosos ligados ao humanismo renascentista, corrente cultural que valorizava o estudo dos autores da Antiguidade, a formação moral do indivíduo e a reflexão crítica sobre a sociedade.
Sua educação foi marcada pelo equilíbrio entre vida intelectual, espiritualidade cristã e atuação pública. Estudou em Oxford, onde teve contato direto com o humanismo, especialmente com o estudo do grego e do latim, línguas fundamentais para o acesso às obras clássicas. Posteriormente, formou-se em direito em Londres, ingressando na carreira jurídica, na qual rapidamente se destacou por sua competência técnica, rigor moral e reputação de integridade.
Paralelamente à carreira profissional, Thomas More manteve intensa produção intelectual. Tornou-se próximo de importantes humanistas europeus, como Erasmo de Roterdã, com quem manteve longa amizade e troca de ideias. Esse círculo intelectual influenciou decisivamente sua visão de mundo, marcada pela crítica às desigualdades sociais, à corrupção política e aos abusos de poder, sem romper com sua profunda fidelidade à fé cristã e à Igreja Católica.
Em 1516, publicou sua obra mais conhecida, “Utopia”, escrita em latim. Nesse livro, More descreveu uma sociedade imaginária organizada segundo princípios de justiça, igualdade social, tolerância religiosa relativa, educação universal e rejeição à acumulação excessiva de riquezas. A obra não deve ser entendida apenas como um projeto político concreto, mas como uma reflexão crítica sobre a Europa de seu tempo, marcada por pobreza, guerras, exploração dos camponeses e concentração de poder. “Utopia” consolidou Thomas More como uma das figuras centrais do humanismo renascentista inglês e exerceu influência duradoura no pensamento político e social do Ocidente.
No campo político, sua trajetória foi igualmente relevante. Thomas More serviu ao Estado inglês em diversos cargos, atuando como diplomata, conselheiro real e membro do Parlamento. Sua ascensão culminou na nomeação como Lord Chancellor da Inglaterra, em 1529, tornando-se o principal responsável pelo sistema judicial do reino. Nesse cargo, destacou-se por combater abusos administrativos e defender a aplicação rigorosa da lei, sempre guiado por princípios morais e religiosos.
Entretanto, sua carreira política entrou em conflito direto com as transformações religiosas promovidas pelo rei Henrique VIII. Quando o monarca rompeu com a Igreja Católica para criar a Igreja Anglicana e assumir o controle religioso do reino, Thomas More recusou-se a reconhecer a supremacia do rei sobre a Igreja. Sua posição baseava-se na convicção de que a autoridade espiritual não poderia ser submetida ao poder político. Essa recusa, silenciosa mas firme, colocou-o em rota de colisão com o Estado.
Em 1534, foi preso e encarcerado na Torre de Londres, acusado de traição. Durante o período de prisão, manteve-se fiel às suas convicções, recusando-se a jurar lealdade religiosa ao rei, mesmo diante da possibilidade de morte. Julgado em um processo amplamente considerado injusto, foi condenado e executado em 6 de julho de 1535. Sua morte foi interpretada por contemporâneos e por gerações posteriores como o testemunho extremo de fidelidade à consciência e aos princípios morais.
Após sua morte, Thomas More tornou-se símbolo de resistência ética frente ao poder absoluto do Estado. Em 1935, foi canonizado pela Igreja Católica, sendo reconhecido como mártir da fé. Séculos depois, sua figura continuou a ser evocada em debates sobre consciência individual, ética política, direitos humanos e limites da autoridade governamental.
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| Thomas More: o filósofo que pensou uma sociedade ideal em sua obra "Utopia". |
Principais ideias:
• Crítica a organização social: ele era crítico da estrutura social europeia de seu tempo. Na primeira parte de "Utopia", ele critica os governos, sociedades e economias contemporâneas da Europa, destacando as desigualdades e a corrupção.
• Sociedade Ideal (Utopia): a segunda parte do livro descreve uma sociedade ideal chamada Utopia, organizada de acordo com as linhas que More acreditava que trariam maior igualdade, justiça e felicidade. Essa sociedade é caracterizada pela propriedade comum, tolerância religiosa, educação para todos, líderes eleitos e pouca necessidade de leis.
• Propriedade Comum: na obra "Utopia" More propõe uma sociedade onde todas as propriedades são mantidas em comum, com as pessoas trabalhando para o bem coletivo ao invés do ganho individual. Essa propriedade comum visa erradicar a pobreza e reduzir o crime, pois a raiz da maioria dos crimes, na visão de More, era a disparidade entre ricos e pobres.
• Educação e trabalho: a sociedade ideal de More inclui trabalho obrigatório para todos, mas também garante tempo para educação. Para ele a educação deveria ser universal, com homens e mulheres sendo educados. Ele acreditava que a educação ajuda os indivíduos a serem membros mais produtivos da sociedade.
• Tolerância Religiosa: More defendia uma ampla tolerância religiosa, bem diferente da Europa de seu tempo. Para ele, as pessoas podem praticar qualquer religião que quiserem, desde que acreditem em um poder divino e na imortalidade da alma.
• Relações pacíficas e não-agressão: acreditava nas relações pacíficas entre seus cidadãos e com outras nações. A guerra é considerada um último recurso, a ser empreendido apenas quando todas as vias diplomáticas forem esgotadas.
Canonização
A Igreja Católica canonizou Thomas More em maio de 1935. Ele foi considerado um homem leal aos princípios cristãos e que morreu em defesa dos valores corretos baseados na fé católica. Portanto, na Igreja Católica ele é São Thomas More, cuja festa litúrgica é 22 de junho. Na Inglaterra, é o santo padroeiro dos advogados e políticos.
Período ou movimento histórico que pertenceu:
- Renascimento Cultural na Inglaterra
Principais obras de Thomas More:
“Utopia” (1516): obra na qual Thomas More apresenta uma sociedade imaginária organizada segundo princípios de igualdade social, justiça, trabalho coletivo e crítica à propriedade privada, funcionando como uma reflexão moral e política sobre os problemas estruturais da Europa do início do século XVI.
“A História do Rei Ricardo III” (c. 1513–1518): texto histórico e literário que oferece uma visão crítica do reinado de Ricardo III, enfatizando a tirania, a ambição política e a corrupção do poder, além de revelar a influência do humanismo renascentista na historiografia inglesa.
“Diálogo do Conforto contra a Tribulação” (1534): obra escrita durante o período de prisão na Torre de Londres, estruturada como um diálogo filosófico e religioso que discute o sofrimento, a fé cristã e a perseverança moral diante da perseguição e da injustiça.
“Apologia” (1533): texto de caráter defensivo em que Thomas More responde às acusações relacionadas às suas posições religiosas, reafirmando sua fidelidade à Igreja Católica e justificando sua postura frente às transformações religiosas promovidas pelo Estado inglês.
“Resposta a Lutero” (1523): obra de natureza polêmica na qual Thomas More critica as ideias de Martinho Lutero, defendendo a doutrina católica, a tradição e a autoridade da Igreja como fundamentos do cristianismo.
“Tratado sobre a Paixão de Cristo” (1534): texto de caráter espiritual e meditativo que reflete sobre o sofrimento de Cristo, destacando a importância da fé, da humildade e da aceitação do sacrifício como elementos centrais da vida cristã.
“Cartas da Prisão” (1534–1535): conjunto de escritos produzidos durante seu encarceramento, nos quais Thomas More expõe reflexões sobre consciência, lealdade, fé e os limites morais da obediência ao poder político.
Publicado em 27/02/2020
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
PEREIRA, Marcos A.Thomas More: estadista e filósofo da Utopia. São Paulo: Escala, 2014.
Vídeo indicado no YouTube:
A Utopia de Thomas Morus (Thomas More) | PROF CRISTIANO - Canal Saber em Foco