Introdução
Na Idade Média (século X ao XV), a música esteve ligada, principalmente, à religião (cristianismo) e a Igreja Católica. Os principais temas musicais desse período estiveram relacionados a passagens bíblicas, vida de santos, rezas e orientações religiosas. Geralmente, essas músicas eram tocadas em igrejas (durante as missas) e nos mosteiros (cantadas pelos monges), como no caso do canto gregoriano.
Nesse período histórico também havia a música laica (não religiosa), que era tocada nas festas dos castelos, nas ruas e também em tavernas (espécie de bares).
Funções da música na Europa Medieval:
• Função religiosa: uma das principais funções da música medieval era acompanhar as cerimônias cristãs. Cantos litúrgicos, como o canto gregoriano, eram utilizados em missas, orações, celebrações de santos e outras práticas da Igreja Católica. A música contribuía para criar um ambiente de solenidade e devoção.
• Função educativa: em mosteiros, igrejas e escolas ligadas ao clero, o canto auxiliava na memorização de orações, textos religiosos e partes da liturgia. Como boa parte da cultura escrita medieval estava concentrada em instituições religiosas, a música também participou da transmissão de conhecimentos.
• Entretenimento nas cortes: reis, nobres e membros da aristocracia mantinham músicos em seus cortes. Trovadores, menestréis e outros artistas apresentavam canções que tratavam do amor cortês, das guerras, das virtudes dos cavaleiros e de acontecimentos importantes.
• Festas e celebrações populares: músicas acompanhavam danças, casamentos, feiras, festividades locais e comemorações comunitárias. Instrumentos de sopro, cordas e percussão eram frequentemente utilizados nessas ocasiões, especialmente em ambientes externos.
• Transmissão de histórias e notícias: numa sociedade em que grande parte da população não sabia ler, canções e apresentações musicais ajudavam a divulgar narrativas, acontecimentos, lendas e feitos de personagens importantes. Artistas itinerantes podiam levar essas histórias de uma região para outra.
• Função política e de prestígio: a música também servia para reforçar o poder e a imagem de reis, nobres e outras autoridades. Cerimônias, recepções, banquetes e eventos cortesãos utilizavam músicos para demonstrar riqueza, importância social e prestígio.
• Função militar: trombetas, tambores e outros instrumentos podiam ser empregados para transmitir sinais, organizar deslocamentos e marcar momentos de cerimônias militares. Também estavam presentes em torneios, entradas solenes e celebrações de vitórias.
• Acompanhamento de danças: muitas composições medievais tinham como finalidade acompanhar movimentos coreográficos. As danças faziam parte tanto das festas populares quanto das celebrações realizadas nas cortes e podiam apresentar ritmos e estilos diferentes conforme a região.
• Expressão amorosa e satírica: por meio das canções trovadorescas, a música tornou-se um importante veículo para expressar sentimentos amorosos, críticas sociais, ironias e sátiras. Na Península Ibérica, por exemplo, as cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer exerceram essa função entre os séculos XII e XIV.
• Integração social: festas religiosas, procissões, celebrações públicas e encontros comunitários utilizavam a música como elemento de participação coletiva. Cantar e dançar em grupo ajudava a reforçar vínculos entre os membros de uma comunidade e a preservar costumes transmitidos entre gerações.
Principais gêneros e formas musicais medievais:
• Canções trovadorescas: difundidas principalmente entre os séculos XII e XIV, eram composições poéticas acompanhadas por música e interpretadas por trovadores, troveiros e outros músicos das cortes. Tratavam de temas como amor cortês, acontecimentos políticos, sátiras e costumes sociais. Na Península Ibérica destacaram-se as cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer.
• Moteto: forma musical polifônica surgida no século XIII a partir de práticas desenvolvidas na Escola de Notre-Dame, em Paris. Caracterizava-se pela combinação simultânea de diferentes linhas melódicas e, em muitos casos, de textos distintos. Inicialmente esteve relacionado à música religiosa, mas posteriormente também passou a apresentar temas profanos e textos em línguas vernáculas.
• Missa: composição religiosa destinada à celebração da missa católica. Durante a Idade Média, algumas de suas partes começaram a receber tratamentos musicais mais elaborados, principalmente Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. A partir do século XIV surgiram missas polifônicas concebidas como conjuntos musicalmente relacionados, como a célebre "Messe de Notre Dame", de Guillaume de Machaut.
• Conductus: composição vocal desenvolvida principalmente entre os séculos XII e XIII. Geralmente apresentava texto em latim e podia possuir conteúdo religioso, moral ou até profano. Diferentemente do canto gregoriano, suas melodias eram normalmente compostas especialmente para o texto. Embora seu nome esteja associado à ideia de condução, não é correto defini-lo exclusivamente como música cantada em procissões.
• Hoqueto: mais do que propriamente um gênero musical independente, o hoqueto foi uma técnica de composição muito utilizada na polifonia dos séculos XIII e XIV. Consistia na alternância rápida de notas e pausas entre duas ou mais vozes, fazendo com que uma linha musical parecesse ser dividida entre os intérpretes. Esse recurso produzia um efeito rítmico fragmentado e bastante característico.
• Canto gregoriano: uma das formas mais importantes da música religiosa medieval. Consistia, em geral, em canto monofônico, sem acompanhamento instrumental e executado em latim durante celebrações da Igreja Católica. Sua organização foi desenvolvida ao longo da Alta Idade Média e recebeu o nome de gregoriano por tradição associada ao papa Gregório I, embora sua formação histórica tenha ocorrido ao longo de vários séculos.
• Organum: uma das primeiras formas importantes de música polifônica da Europa medieval. Desenvolvido a partir aproximadamente do século IX, surgiu quando uma segunda voz passou a acompanhar uma melodia originalmente monofônica, muitas vezes proveniente do canto litúrgico. Entre os séculos XII e XIII, compositores ligados à Escola de Notre-Dame, como Léonin e Pérotin, aperfeiçoaram essa técnica e criaram obras com duas, três ou até quatro linhas vocais simultâneas.
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Canto Gregoriano: música religiosa cantada por monges em missas ou cerimônias religiosas. |
Principais compositores da música medieval:
Pérotin (1160-1236): compositor francês da Escola de Notre-Dame. Foi, provavelmente, o criador do gênero Moteto. Uma de suas principais composições foi “Magnus Líber Organi”.
Léonin (1135–1201): compositor de organum francês do século XII. Também fez parte da Escola de Notre-Dame.
Guillaume de Machaut (1300-1377): compositor e poeta francês. Se destacou pelo uso de várias novidades harmônicas, rítmicas e melódicas. É um dos principais representantes da Ars Nova (novo método de notação musical). Sua principal obra foi a “Missa de Notre-Dame”.
John Dunstable (1390-1453): um dos principais músicos e compositores medievais da Inglaterra. É considerado um dos responsáveis pela inovação musical na Idade Média. Foi o criador da técnica do falso bordão inglês (tipo de harmonização musical), que teve grande influência na fase inicial da música renascentista.
Guillaume Dufay (1397-1474): foi um compositor flamengo da transição da Idade Média para o Renascimento. Obteve destaque pelo seu modelo musical de missa polifônica.
Francesco Landini (1325-1397): foi um cantor, poeta e compositor italiano.
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| O Tocador de Alaúde (1623): obra de Frans Hals. Instrumento musical foi muito usado na música medieval. |
Principais instrumentos musicais usados na Idade Média
Durante a Idade Média, eram utilizados instrumentos de cordas, sopro, percussão e teclas. Muitos acompanhavam cantores, danças, festas, cerimônias religiosas e apresentações nas cortes. Alguns desses instrumentos deram origem ou influenciaram diretamente instrumentos utilizados na música europeia dos séculos seguintes.
• Rebeca: instrumento de cordas friccionadas, geralmente tocado com arco. Possuía corpo estreito e podia apresentar duas, três ou mais cordas, dependendo da região e do período. Era muito empregada no acompanhamento de canções, danças e apresentações de músicos itinerantes.
• Cítola: instrumento medieval de cordas dedilhadas bastante difundido entre os séculos XIII e XIV. Apresentava corpo de madeira com formato variável e normalmente era tocado com os dedos ou com um plectro. Foi utilizada sobretudo na música profana e no acompanhamento de cantores.
• Harpa: instrumento de cordas muito antigo, facilmente reconhecido por seu formato aproximadamente triangular. Durante a Idade Média, existiram harpas de diferentes tamanhos e quantidades de cordas. Era empregada tanto por músicos das cortes quanto por artistas itinerantes e tornou-se particularmente importante em algumas regiões das Ilhas Britânicas.
• Charamela: instrumento de sopro de palheta dupla, considerado um dos antecessores do oboé moderno. Produzia um som forte e penetrante, adequado para apresentações em ambientes abertos, festas, cerimônias e danças. Tornou-se bastante difundida na Europa durante os últimos séculos da Idade Média.
• Flauta: produzida principalmente em madeira, podia assumir diferentes formatos. Entre os modelos utilizados estavam flautas semelhantes à flauta doce, com furos para controlar a altura das notas, e flautas transversais. Seu som era empregado tanto na música popular quanto em apresentações cortesãs.
• Alaúde: instrumento de cordas dedilhadas caracterizado pelo corpo arredondado, semelhante a uma meia pera, braço relativamente curto e cordas organizadas em ordens. Introduzido e difundido na Europa medieval sob forte influência de instrumentos do mundo islâmico, tornou-se especialmente importante no acompanhamento de canções e na música das cortes.
• Órgão: instrumento de teclas no qual o som é produzido pela passagem de ar através de tubos. Durante a Idade Média existiram modelos de diferentes dimensões, desde grandes órgãos instalados em igrejas até instrumentos menores e portáteis, como o órgão portativo. Seu uso esteve particularmente associado à música religiosa.
• Saltério: instrumento de cordas formado geralmente por uma caixa de madeira plana, sobre a qual eram estendidas várias cordas. Podia ser tocado com os dedos ou com pequenos plectros. Foi bastante utilizado durante a Idade Média e aparece com frequência em manuscritos e representações artísticas do período.
• Viela medieval: instrumento de cordas friccionadas com arco e um dos ancestrais dos instrumentos da família do violino. Podia apresentar diferentes formatos e número variável de cordas. Era utilizada por trovadores, menestréis e outros músicos no acompanhamento de canções e danças.
• Viela de roda: também conhecida posteriormente como hurdy-gurdy, produzia som por meio de uma roda acionada por uma manivela que friccionava continuamente as cordas. As notas eram modificadas por teclas. Surgida durante a Idade Média, foi utilizada inicialmente em contextos religiosos e, posteriormente, tornou-se comum entre músicos populares e itinerantes.
• Trombeta medieval: fabricada principalmente em metal, possuía formato relativamente simples e inicialmente não apresentava válvulas. Era empregada sobretudo em cerimônias, eventos militares, torneios, procissões e ocasiões solenes, servindo também para anunciar a presença de autoridades.
• Tambor: diferentes tipos de tambores faziam parte da música medieval, especialmente nas festas, danças, procissões e atividades militares. Tocadas com as mãos ou com baquetas, essas peças de percussão forneciam a marcação rítmica e frequentemente acompanhavam instrumentos de sopro.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 25/08/2026
Fontes de referência:
Medieval Era Music Guide: A Brief History of Medieval Music
LEPPERT, Richard. Medieval Music. New York: W.W. Norton & Company, 1998.
Vídeo indicado no YouTube:
História da Música - PERÍODO MEDIEVAL | Diego Palada