Acalantos



O que são os acalantos?


Os acalantos, também conhecidos como cantigas de ninar ou cantigas de berço, são canções entoadas com o objetivo de acalmar bebês e crianças pequenas, ajudando-os a adormecer. Geralmente, são cantados em voz baixa, com ritmo lento e melodia suave, criando uma atmosfera de tranquilidade, proteção e proximidade afetiva entre a criança e a pessoa que canta.

Essas canções fazem parte das práticas culturais relacionadas ao cuidado infantil. O ato de cantar um acalanto não serve apenas para favorecer o sono, mas também para transmitir segurança emocional. A repetição da voz, o balanço do corpo e a regularidade do ritmo podem contribuir para diminuir a agitação da criança e fortalecer os vínculos familiares.



Principais características dos acalantos


As letras dos acalantos costumam ser curtas, simples e repetitivas. A repetição de palavras, versos e sons produz um efeito monótono e tranquilizador, que pode facilitar o relaxamento e a chegada do sono. Muitas cantigas apresentam rimas fáceis, refrões e expressões sonoras que tornam a melodia agradável e fácil de memorizar.

O ritmo geralmente é lento e regular, acompanhando, em muitos casos, o movimento de embalar a criança no colo, no berço ou na rede. A interpretação é mais importante do que a complexidade musical, pois a suavidade da voz e a continuidade da melodia ajudam a criar uma sensação de acolhimento.




Temas presentes nas letras


Os temas dos acalantos estão ligados ao universo infantil, à vida familiar, à natureza, aos animais, às brincadeiras e ao cotidiano das comunidades. Algumas cantigas mencionam elementos rurais, como bois, aves, árvores, rios e estrelas, enquanto outras apresentam personagens imaginários ou seres do folclore.

Certas letras também recorrem a figuras que poderiam assustar a criança, como o boi da cara preta, a cuca ou outros seres fantásticos. Esses personagens eram utilizados tradicionalmente como forma de convencer a criança a dormir. Embora essa característica seja comum em acalantos antigos, muitas famílias atualmente preferem versões mais tranquilas, sem referências ameaçadoras.



Origem e autoria


Grande parte dos acalantos tradicionais possui autoria desconhecida. Essas canções foram criadas e modificadas ao longo do tempo pelas próprias comunidades, passando a integrar a cultura popular. Sua origem pode estar relacionada a diferentes períodos históricos e a influências culturais indígenas, africanas e europeias.

Como foram transmitidos principalmente pela tradição oral, os acalantos não apresentam uma versão única e definitiva. As palavras, os nomes dos personagens e até mesmo as melodias podem sofrer alterações de uma família para outra ou entre diferentes regiões do país.




Os acalantos no folclore brasileiro


Os acalantos são considerados manifestações do folclore brasileiro porque representam conhecimentos, costumes e formas de expressão transmitidos de geração em geração. Eles integram o patrimônio cultural imaterial e revelam aspectos da vida cotidiana, das crenças, dos medos, dos valores e da imaginação popular.

No Brasil, muitas cantigas de ninar receberam contribuições de diferentes grupos formadores da sociedade. As tradições portuguesas introduziram melodias e estruturas poéticas, enquanto as culturas africanas e indígenas influenciaram os ritmos, as palavras, os personagens e as formas de embalar as crianças.



Transmissão oral e variações regionais


A transmissão oral é uma das principais características dos acalantos. Antes da popularização dos livros, das gravações e dos meios digitais, essas canções eram aprendidas pela convivência familiar. Pais, avós, irmãos mais velhos, amas e outros cuidadores ensinavam as cantigas às novas gerações.

Esse processo fez com que as letras variassem de acordo com a região e com a memória de quem cantava. Uma mesma cantiga pode apresentar palavras diferentes, versos acrescentados ou retirados e pequenas alterações na melodia. Essas variações não são consideradas erros, mas exemplos da riqueza e da diversidade da cultura popular.



Importância afetiva e educativa


Os acalantos possuem grande importância afetiva, pois aproximam a criança de seus familiares e cuidadores. A voz conhecida transmite confiança e conforto, contribuindo para a formação dos primeiros vínculos emocionais. Muitas pessoas conservam na memória as cantigas ouvidas durante a infância e, mais tarde, passam a cantá-las para seus filhos e netos.

Também apresentam valor educativo. Por meio das cantigas de ninar, a criança entra em contato com palavras, sons, rimas, ritmos e repetições, elementos importantes para o desenvolvimento da linguagem e da percepção auditiva. Mesmo antes de compreender o significado das letras, ela pode reconhecer a entonação, a musicalidade e a cadência da voz.



Preservação e transformações


Os acalantos continuam presentes na vida familiar, embora tenham passado por transformações. Atualmente, podem ser encontrados em livros infantis, discos, vídeos, aplicativos e plataformas digitais. Também existem novas composições produzidas especialmente para o público infantil, muitas vezes inspiradas nas características das antigas cantigas de berço.

Apesar das mudanças nos costumes e nas formas de transmissão, os acalantos mantêm sua função principal: acalmar, acolher e favorecer o sono das crianças. Sua permanência demonstra a importância da música na infância e na preservação das tradições culturais brasileiras.




Exemplos de letras de acalantos

 

Bicho-papão

 

Bicho-papão,

Dai de cima do telhado,

Deixa o meu menino (a),

Dormir sossegado (a).



Nana, nenê

 

Nana nenê, que a Cuca vem pegar.

Se não dormir depressa, ela vai te assustar.

Nana, nenê, que a Cuca vem pegar.

Papai foi na roça, mamãe foi trabalhar.



Boi da cara preta

 

Boi, boi, boi.

Boi da cara preta.

Pega esse menino.

Que tem medo de careta!



Dorme, dorme

 

Dorme, dorme, meu filhinho,

É noite e papai já veio.

Teu irmãozinho também dorme,

Embalado no meu seio.

Dorme, dorme, meu filhinho,

Que os passarinhos já estão dormindo,

E as estrelas cintilantes,

Lá no seu estão luzindo.



Embala José

 

Embala, José,

Que a senhora logo vem.

Foi lavar seu cueirinho,

No riacho de Belém.



Durma pequenino


Durma pequenino
Durma lindo sol
Durma pedacinho
Do meu coração

Meu menino lindo
Ele quer dormir
E o sonho travesso
Ele não quer vir

Durma pequenino
Durma lindo sol
Durma pedacinho
Do meu coração

Durma pequenino
Durma lindo sol
Durma pedacinho
Do meu coração

Meu menino lindo
Ele quer dormir
Fecha seus olhinhos
E ele volta a abrir

Durma meu menino
Durma o meu sol
Durma pedacinho
Do meu coração

 

 

Estrelas do Céu Tranquilo


No céu, estrelas a brilhar,
Doces sonhos vêm te embalar.
Na noite, o luar a sorrir,
Na canção, te vejo dormir.

No balanço das ondas do mar,
O sono vem, vem te acariciar.
Com a brisa suave a soprar,
Em sonhos, você vai voar.

No céu, estrelas a brilhar,
Doces sonhos vêm te embalar.
Na noite, o luar a sorrir,
Na canção, te vejo dormir.

Na floresta, o grilo a cantar,
E a lua, a nos iluminar.
Nas nuvens, um castelo a flutuar,
Em sonhos, você vai morar.

E enquanto as estrelas vão girar,
Em meus braços, você a descansar.
No céu, a lua a nos guiar,
Nos sonhos, sempre a te amar.



Tutu Marambá

Tutu Marambá,
Não venha mais cá,
Que o pai do menino
Te manda matar.

Dorme, menino,
Que eu tenho o que fazer.
Vou lavar os paninhos
Para você vestir.



Se esta rua fosse minha

Se esta rua,
Se esta rua fosse minha,
Eu mandava,
Eu mandava ladrilhar.

Com pedrinhas,
Com pedrinhas de brilhante,
Para o meu,
Para o meu amor passar.

Nesta rua,
Nesta rua tem um bosque,
Que se chama,
Que se chama solidão.

Dentro dele,
Dentro dele mora um anjo,
Que roubou,
Que roubou meu coração.



João Curutu

João Curutu
Está no telhado,
Cantando baixinho
Para o menino acordado.

Dorme, menino,
Que a noite já vem.
João Curutu
Não faz mal a ninguém.

Fecha os olhinhos,
Descansa também.
A lua está alta
E a noite vai bem.

 

Mãe com bebê no colo

Acalantos: também conhecidos como cantigas de ninar.

 

 


 

Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Atualizado em 13/07/2026




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fontes:


Acalantos do Folclore Brasileiro - artigo

MACHADO, Ana Maria. O tesouro das cantigas para crianças. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

 


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