O que é a arte informal?
A Arte Informal, também chamada de Informalismo, foi uma tendência artística desenvolvida principalmente na Europa após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), especialmente entre o fim da década de 1940 e os anos 1950. Seu nome indica uma arte que rejeitava formas rígidas, composições planejadas de maneira racional e representações figurativas tradicionais. Em vez de buscar a reprodução fiel da realidade, os artistas informais valorizavam o gesto, a matéria, a textura, o acaso, a espontaneidade e a expressão direta das emoções.
Essa tendência surgiu em diálogo com a arte abstrata, mas apresentou características próprias. Enquanto algumas correntes abstratas, como o Abstracionismo Geométrico, valorizavam a ordem, a simetria e a construção racional da imagem, a Arte Informal preferia a irregularidade, a liberdade gestual e a valorização da superfície da obra. A pintura deixava de ser apenas uma imagem organizada sobre a tela e passava a ser também um campo de ação, onde marcas, camadas, manchas e materiais revelavam o processo de criação.
A Arte Informal não foi um movimento único e fechado, com manifesto rígido ou grupo homogêneo. Ela reuniu artistas de diferentes países e estilos, especialmente na França, Espanha, Itália, Alemanha e outros centros europeus. Em muitos casos, suas obras expressavam a crise cultural e existencial vivida pela Europa no período posterior à guerra, marcado por destruição material, trauma psicológico, perda de confiança na razão e questionamento dos valores tradicionais da civilização ocidental.
Contexto histórico da origem
A origem da Arte Informal está diretamente relacionada ao contexto europeu do pós-Segunda Guerra Mundial. Entre 1939 e 1945, o conflito provocou destruição em larga escala, genocídios, bombardeios, deslocamentos populacionais e profunda instabilidade política e social. Após 1945, muitos artistas passaram a desconfiar das promessas de progresso, ordem e racionalidade que haviam marcado parte da cultura moderna desde o século XIX. A experiência da guerra mostrou que a razão técnica e científica também poderia ser usada para a destruição.
Nesse ambiente, a arte europeia buscou novas formas de expressão. A representação figurativa tradicional parecia insuficiente para traduzir o trauma coletivo, enquanto a arte geométrica e racional parecia distante da angústia vivida naquele momento. A Arte Informal apareceu, então, como uma resposta estética marcada pela liberdade, pela ruptura e pela valorização da subjetividade. A tela tornou-se um espaço de conflito, tensão e experimentação, refletindo sentimentos de instabilidade, sofrimento, desorientação e busca por reconstrução.
A França teve papel importante nesse processo, especialmente Paris, que ainda era um centro artístico relevante no período imediatamente posterior à guerra. O crítico francês Michel Tapié foi um dos responsáveis por divulgar e teorizar essa tendência. Em 1952, ele publicou o livro "Un Art Autre", no qual defendia uma “outra arte”, afastada das regras acadêmicas, da figuração tradicional e da composição geométrica. Essa expressão passou a ser associada a diferentes experiências artísticas baseadas no gesto, na matéria e na liberdade formal.
A Arte Informal também se relaciona com outras tendências internacionais do mesmo período, como o Expressionismo Abstrato nos Estados Unidos, desenvolvido sobretudo nos anos 1940 e 1950, com artistas como Jackson Pollock, Willem de Kooning e Mark Rothko. Embora existam diferenças entre essas correntes, ambas expressaram a valorização do gesto, da subjetividade e da pintura como campo de ação. Na Europa, porém, o Informalismo teve uma carga histórica fortemente ligada à devastação da guerra e à crise da cultura europeia.
Características:
Ausência de forma definida: a Arte Informal rejeita formas rígidas, contornos precisos e composições organizadas de maneira tradicional. As imagens costumam apresentar manchas, massas cromáticas, linhas irregulares e estruturas abertas. Essa ausência de forma definida não significa falta de intenção artística, mas uma escolha estética voltada para a liberdade e para a expressão subjetiva.
Valorização do gesto: o gesto do artista ganha papel central na obra. Pinceladas rápidas, movimentos amplos, marcas impulsivas e traços espontâneos tornam visível o processo de criação. A obra passa a registrar fisicamente a ação do artista, como se a tela preservasse os movimentos do corpo e os estados emocionais envolvidos na produção.
Uso expressivo da matéria: muitos artistas informais exploraram a materialidade da pintura, utilizando camadas espessas de tinta, areia, gesso, cola, pó de mármore, tecidos, raspagens e relevos. A superfície da obra deixa de ser lisa e passa a ter presença física intensa. A matéria não funciona apenas como suporte da imagem, mas como elemento principal da linguagem artística.
Importância do acaso: o acaso participa da construção da obra por meio de manchas, respingos, escorrimentos, texturas imprevisíveis e reações dos materiais. O artista não controla totalmente o resultado final, permitindo que a obra se desenvolva em diálogo com acidentes visuais. Essa característica rompe com a ideia de arte como planejamento racional absoluto.
Rejeição da figuração tradicional: a Arte Informal, em geral, não procura representar pessoas, paisagens, objetos ou cenas reconhecíveis. Quando aparecem referências ao mundo real, elas surgem de maneira fragmentada, ambígua ou deformada. O objetivo não é narrar uma cena, mas criar uma experiência visual e emocional.
Expressão da crise existencial: muitas obras informais transmitem sensações de angústia, tensão, ruína, silêncio, violência ou instabilidade. Esse aspecto está ligado ao contexto do pós-guerra e ao sentimento de desconfiança em relação aos valores tradicionais. A arte torna-se uma forma de manifestar inquietações humanas profundas, sem recorrer necessariamente a imagens figurativas.
Liberdade compositiva: a composição informal não segue regras fixas de equilíbrio, perspectiva ou simetria. A tela pode ser organizada por manchas irregulares, contrastes de textura, zonas densas, espaços vazios e marcas dispersas. Essa liberdade reforça a ideia de uma arte aberta, experimental e contrária aos modelos acadêmicos.
Relação com a abstração: a Arte Informal faz parte do amplo campo da arte abstrata do século XX, mas se diferencia da abstração geométrica. Enquanto a abstração geométrica valoriza linhas, planos, ordem e cálculo visual, o Informalismo privilegia instabilidade, matéria, gesto e intensidade emocional.
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| Painting by Laurent Jiménez-Balaguer: exemplo de pintura da arte informal. |
Principais artistas da Arte Informal e suas principais obras:
Jean Fautrier: foi um dos artistas mais importantes para a formação da Arte Informal na França. Nascido em 1898 e falecido em 1964, Fautrier desenvolveu uma pintura marcada por superfícies densas, texturas espessas e imagens ambíguas. Sua série "Otages", realizada a partir de 1943 e exposta em 1945, é considerada uma das obras fundamentais do pós-guerra europeu. Embora não represente diretamente os corpos das vítimas, a série sugere sofrimento, violência e desumanização, dialogando com a experiência da ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial.
Jean Dubuffet: nascido em 1901 e falecido em 1985, Dubuffet teve grande importância para a renovação da arte europeia no pós-guerra. Ele defendia uma arte fora dos padrões acadêmicos e valorizava produções espontâneas, associadas ao que chamou de Art Brut. Suas obras apresentam texturas densas, aparência áspera, figuras deformadas e materiais não convencionais. Entre suas obras importantes estão "Corps de Dame" (1950), "Dhôtel Nuancé d’Abricot" (1947) e séries como "Texturologies", desenvolvidas nos anos 1950. Sua produção dialoga com a Arte Informal por rejeitar a beleza clássica e valorizar a matéria bruta da pintura.
Antoni Tàpies: foi um dos principais nomes do Informalismo espanhol. Nascido em 1923 e falecido em 2012, Tàpies criou obras marcadas por superfícies rugosas, relevos, rachaduras, sinais, cruzes, letras e marcas que lembram muros deteriorados. Sua arte refletiu tanto questões existenciais quanto o contexto político da Espanha no século XX, especialmente durante o franquismo (1939-1975). Entre suas obras destacam-se "Gran Pintura Gris" (1955), "Pintura con Cruz Roja" (1954) e "Blanco con Signo Rojizo" (1963). Tàpies transformou a superfície pictórica em espaço de memória, desgaste e resistência simbólica.
Wols: nome artístico de Alfred Otto Wolfgang Schulze, nascido em 1913 e falecido em 1951, foi um artista alemão associado à Arte Informal e ao Tachismo. Suas obras apresentam linhas nervosas, manchas, formas orgânicas e composições carregadas de tensão. Wols trabalhou com pintura, desenho e fotografia, criando imagens que sugerem mundos interiores, fragilidade e instabilidade. Entre suas obras importantes estão "It’s All Over the City" (1947) e várias composições abstratas realizadas no final dos anos 1940. Sua produção expressa uma sensibilidade intensa, muitas vezes relacionada ao clima existencial do pós-guerra.
Georges Mathieu: nascido em 1921 e falecido em 2012, foi um artista francês ligado ao Informalismo e à abstração lírica. Sua pintura valorizava o gesto rápido, a improvisação e a energia visual. Mathieu realizava obras com linhas dinâmicas, manchas e sinais que lembram uma escrita explosiva. Entre suas obras destacam-se "La Bataille de Bouvines" (1954), "Hommage au Connétable de Bourbon" (1959) e "Capétiens Partout" (1954). Sua produção aproximou a pintura de uma performance, pois o ato de pintar passou a ser tão importante quanto o resultado final.
Hans Hartung: nascido em 1904 e falecido em 1989, foi um artista de origem alemã naturalizado francês. Sua obra é marcada por linhas incisivas, grafismos, manchas e composições abstratas de forte intensidade visual. Hartung desenvolveu uma pintura gestual que explorava o movimento, a tensão e a energia do traço. Entre suas obras estão "T1946-16" (1946), "T1956-13" (1956) e várias séries identificadas por códigos, muito comuns em sua produção. Sua arte foi importante para consolidar a abstração gestual europeia no contexto do pós-guerra.
Emilio Vedova: nascido em 1919 e falecido em 2006, foi um artista italiano associado ao Informalismo e à abstração gestual. Sua obra apresenta composições intensas, contrastes fortes, gestos violentos e sensação de conflito visual. Vedova viveu o contexto do fascismo italiano, da Segunda Guerra Mundial e da reconstrução do país, elementos que influenciaram sua linguagem artística. Entre suas obras importantes estão as séries "Plurimi" e "Ciclo della Protesta". Sua pintura expressa tensão política, inquietação histórica e energia dramática.
Alberto Burri: nascido em 1915 e falecido em 1995, foi um artista italiano fundamental para a valorização da matéria na arte do pós-guerra. Burri utilizou materiais como sacos de juta, madeira, plástico queimado, ferro e superfícies rachadas. Sua obra transformou elementos pobres e danificados em linguagem artística. Entre suas principais obras estão as séries "Sacchi", iniciada no fim dos anos 1940, "Combustioni", desenvolvida a partir dos anos 1950, e "Cretti", realizada posteriormente. Burri aproximou a pintura de uma experiência física, marcada por cortes, queimaduras, costuras e cicatrizes visuais.
Lucio Fontana: nascido em 1899 e falecido em 1968, foi um artista argentino-italiano ligado ao Espacialismo, mas sua obra dialoga com o ambiente experimental da Arte Informal. Fontana tornou-se conhecido por cortar ou perfurar telas, rompendo a ideia tradicional de pintura como superfície intacta. Suas obras da série "Concetto Spaziale", iniciadas no fim da década de 1940 e desenvolvidas nas décadas seguintes, abriram a pintura para o espaço real. Embora não seja apenas um artista informal, sua ruptura com a forma tradicional e sua valorização do gesto aproximam sua produção das experiências do pós-guerra.
Pierre Soulages: nascido em 1919 e falecido em 2022, foi um importante artista francês associado à abstração gestual e ao uso expressivo da matéria pictórica. Sua obra ficou conhecida pelo uso intenso do preto, explorado não apenas como cor, mas como superfície capaz de refletir luz. Entre suas obras destacam-se pinturas da série "Outrenoir", iniciada em 1979, além de composições abstratas produzidas desde os anos 1940. Soulages não se limitou estritamente ao Informalismo, mas sua pintura dialogou com a liberdade gestual, a matéria e a abstração europeia do pós-guerra.
Importância
A Arte Informal teve grande importância para a arte do século XX porque ampliou os limites da pintura e questionou a necessidade de forma, figuração e composição racional. Ao valorizar o gesto, a matéria e o acaso, essa tendência contribuiu para transformar a obra de arte em registro de experiência, conflito e presença física. Seu desenvolvimento entre os anos 1940 e 1950 expressou de maneira intensa o clima cultural do pós-guerra, mostrando que a arte poderia responder à crise histórica não apenas por imagens reconhecíveis, mas também por marcas, texturas e ações visuais.
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| Infográfico didático com síntes sobre a Arte Informal |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 21/05/2026
Fontes do artigo:
https://es.wikipedia.org/wiki/Informalismo
https://www.tate.org.uk/art/art-terms/a/art-informel
GOMBRICH, E. H. A História da Arte. São Paulo: Editora LTC, 2013.
Vídeo indicado no YouTube:
ARTE INFORMAL | INFORMALISMO – REVISANDO - Centro Educacional Vieira Santos