Quem foi
Alexander Fyodorovich Kerensky foi um advogado e político russo. Porém, ganhou notoriedade como líder revolucionário ao participar do processo da Revolução Russa de 1917 que derrubou o regime czarista no país e implantou o socialismo. Foi presidente do Governo Provisório Russo entre 21 de julho e 8 de novembro de 1917.
Um socialista moderado
Alexander Kerensky foi uma figura política chave durante a Revolução Russa, servindo como o segundo primeiro-ministro do Governo Provisório Russo até ser derrubado pelos bolcheviques. Kerensky era um socialista moderado e acreditava em um sistema político que pudesse acomodar vários partidos e interesses políticos.
Biografia
Alexandre Kerensky nasceu na cidade russa de Simbirsk, em 04 de maio de 1881.
Formou-se em Direito, em 1904, pela Universidade de São Petersburgo.
Após o “Domingo Sangrento”, passou a militar no movimento revolucionário russo, que defendia o fim do regime czarista de Nicolau II.
Foi preso e libertado em 1906, momento em que decidiu fazer oposição legal ao regime do czar, ao invés de militar em grupos subversivos.
Foi eleito deputado para a Duma em 1912, atuando no grupo moderado dos trudoviques. Agiu denunciando os abusos de poder do czar Nicolau II e fazendo propaganda das ideias revolucionárias.
Em 1916, liderou a Duma nos ataques ao regime czarista.
Em 1917, quando estourou a Revolução Russa, Kerensky foi um dos líderes de maior destaque. Foi eleito vice-presidente dos Sovietes (concelhos operários) de Petrogrado. Dirigiu tropas aliadas à Duma e ordenou o afastamento de ministros do regime czarista. No mesmo ano, participou da composição do novo governo.
Ainda em 1917, foi ministro da justiça e depois ministro da guerra. Finalmente, foi escolhido como presidente do Governo Provisório em julho de 1917.
Na conhecida Segunda Revolução Russa de Outubro de 1917, o governo de Kerensky foi derrubado pelos bolcheviques, liderados por Lênin.
Perseguido pelos bolcheviques, Kerensky viveu exilado em Paris até 1940. Logo em seguida, foi viver em Nova York, dedicando-se a escrever sobre política e História da Rússia. Participou neste período de vários programas de rádio como comentarista.
Faleceu aos 89 anos, em 11 de junho de 1970, na cidade de Nova York (EUA).
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Alexander Kerensky numa foto de 1917, ano da Revolução Russa. |
Ideias e atuações de Kerensky sobre a Revolução Russa:
• Adoção do Socialismo Democrático: Kerensky era membro do Partido Socialista Revolucionário e acreditava no socialismo democrático. Ele apoiou a reforma agrária e os direitos dos trabalhadores, mas também acreditava na necessidade de liberdades políticas, como a liberdade de expressão e de reunião.
• Continuação na guerra: uma das decisões mais controversas de Kerensky durante seu mandato como primeiro-ministro foi seu compromisso de continuar a participação russa na Primeira Guerra Mundial. Ele acreditava que a Rússia deveria honrar seus compromissos com seus aliados, apesar do significativo oposição interna à guerra. Esta decisão minou muito sua popularidade e apoio.
• Oposição aos bolcheviques: Kerensky se opôs fortemente aos bolcheviques e seu líder, Vladimir Lenin. Ele via sua abordagem radical e rejeição do pluralismo político como perigosa. Quando os bolcheviques tentaram tomar o poder em julho de 1917, o governo de Kerensky prendeu muitos líderes bolcheviques. No entanto, seu fracasso em abordar questões importantes, como a guerra, a reforma agrária e a escassez de alimentos, levou ao declínio do apoio de seu governo e à eventual derrubada pelos bolcheviques na Revolução de Outubro.
• Democracia Constitucional: Kerensky tentou estabelecer um sistema político que fosse uma democracia constitucional. Ele queria um sistema que pudesse representar a ampla gama de crenças políticas na Rússia, de conservadores a socialistas. No entanto, seus esforços foram frustrados pela contínua agitação social, guerra e oposição política.
Principais obras (livros) de Kerensky:
"The Prelude to Bolshevism: The Kornilov Rising" (1919)
Nesta obra, Kerensky analisa o chamado Caso Kornilov, ocorrido em 1917, quando o general Lavr Kornilov tentou avançar contra Petrogrado em meio à instabilidade da Revolução Russa. Kerensky apresenta sua versão dos acontecimentos e procura demonstrar que a crise entre o Governo Provisório e setores militares conservadores enfraqueceu a jovem experiência democrática russa. O livro também funciona como uma defesa política de sua atuação, pois Kerensky tenta explicar por que sua posição ficou isolada entre a ameaça da direita militar e o avanço dos bolcheviques.
"The Catastrophe: Kerensky’s Own Story of the Russian Revolution" (1927)
Publicada no exílio, esta obra é uma das mais conhecidas de Kerensky. Nela, ele narra a Revolução Russa de 1917 a partir de sua própria experiência como dirigente do Governo Provisório. O título indica sua interpretação dos fatos: para Kerensky, a tomada do poder pelos bolcheviques representou uma catástrofe política, pois interrompeu a possibilidade de construção de uma república democrática na Rússia. A obra é importante por apresentar uma memória crítica dos acontecimentos, ainda que marcada pela tentativa de justificar suas decisões.
"The Crucifixion of Liberty" (1934)
Neste livro, Kerensky aprofunda sua crítica ao bolchevismo e à destruição das liberdades políticas após 1917. A ideia central da obra é que a Revolução Russa abriu uma possibilidade de transformação democrática, mas essa possibilidade teria sido anulada pela ditadura bolchevique. O texto tem forte caráter político e memorialístico, pois Kerensky se apresenta como defensor da liberdade constitucional contra os autoritarismos de direita e de esquerda. A obra também revela o esforço do autor para manter viva, no exílio, a legitimidade do Governo Provisório.
"Russia and History’s Turning Point" (1965)
Escrita já no fim de sua vida, esta obra tem caráter mais amplo e reflexivo. Kerensky revisita a história russa desde o período czarista, trata da crise do Império Russo, da Revolução de 1905, da Primeira Guerra Mundial e dos acontecimentos de 1917. O livro combina memória pessoal, análise política e interpretação histórica. Kerensky procura sustentar a ideia de que a Rússia não estava condenada inevitavelmente ao bolchevismo, defendendo que havia condições para uma transição democrática caso o processo revolucionário não tivesse sido radicalizado pela guerra, pela crise social e pela ação dos bolcheviques.
"The Kerensky Memoirs: Russia and History’s Turning Point" (1966)
Esta obra corresponde à edição memorialística publicada no Reino Unido, reunindo a interpretação de Kerensky sobre sua vida política e sobre o papel da Rússia nos acontecimentos do século XX. O livro apresenta sua trajetória desde a juventude, sua atuação como advogado, sua entrada na política, sua participação na Revolução de Fevereiro de 1917 e sua liderança no Governo Provisório. Como fonte histórica, deve ser lida com cautela, pois é uma narrativa de defesa pessoal; ainda assim, tem grande valor por registrar a visão de um dos principais protagonistas da Revolução Russa.
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Alexander Kerensky fazendo um discurso em Washington D.C. (EUA) (foto de 1938). |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fontes:
https://www.marxists.org/reference/archive/kerensky/1919/prelude/index.htm
https://www.britannica.com/biography/Aleksandr-Kerensky