Quem foi
Afrodite foi uma das divindades mais importantes da Mitologia Grega e ocupou um lugar central no imaginário religioso e cultural da Grécia Antiga. Reconhecida como a deusa do amor, da beleza, do desejo, da sedução e da fertilidade, ela representava forças consideradas essenciais para a vida humana e para a própria ordem do mundo. Sua presença nos mitos gregos não se limitava ao romance ou à atração física, pois Afrodite também simbolizava a potência do encanto, da união, da fecundidade e da influência emocional sobre deuses e mortais.
No universo religioso grego, Afrodite era uma divindade de grande alcance. Seu poder atingia homens, mulheres, heróis, reis e até os próprios deuses do Olimpo. Em muitas narrativas, ela aparece como uma força capaz de alterar decisões, provocar conflitos, estimular paixões e mover acontecimentos históricos e míticos. Isso demonstra que, para os gregos, o amor e o desejo não eram vistos apenas como sentimentos individuais, mas como energias profundas, capazes de interferir na vida coletiva, na guerra, na família e na política.
A imagem de Afrodite também estava ligada ao ideal de beleza. No entanto, essa beleza não deve ser entendida apenas em sentido físico. Na mentalidade grega, a beleza estava frequentemente associada à harmonia, ao equilíbrio, ao fascínio e à atração. Assim, Afrodite representava uma forma de poder que se manifestava tanto pela aparência quanto pela capacidade de seduzir, unir e transformar relações. Sua figura reunia graça, sensualidade e autoridade simbólica.
A importância de Afrodite pode ser percebida ainda pelo número de poemas, esculturas, templos, festas e mitos dedicados a ela ao longo da Antiguidade. Ela não era uma deusa secundária, mas uma presença constante nas práticas religiosas e na produção cultural do mundo helênico. Seu culto se espalhou por diversas regiões do Mediterrâneo e sua imagem continuou a exercer forte influência mesmo depois da Grécia Antiga, alcançando a cultura romana, a arte europeia e o pensamento ocidental.
Origem e nascimento
A origem de Afrodite aparece de forma distinta nas tradições míticas gregas, o que mostra como a religião e a literatura antigas eram marcadas por múltiplas versões. A narrativa mais famosa sobre seu nascimento foi registrada por Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C., na obra “Teogonia”. Nessa tradição, Afrodite teria surgido da espuma do mar após os órgãos genitais de Urano, o céu, serem lançados às águas por Cronos. A partir desse episódio violento e cósmico, a deusa emergiria já plenamente formada, ligada desde sua origem às forças primordiais da natureza, da sexualidade e da fecundidade.
Essa versão é uma das mais simbólicas da mitologia grega. O nascimento de Afrodite a partir do mar e da espuma reforça sua conexão com a beleza que surge do caos, com o poder gerador da natureza e com a dimensão irresistível do desejo. A própria etimologia tradicional de seu nome foi associada pelos antigos à palavra grega “aphros”, que significa espuma. Embora a linguística moderna questione essa derivação como explicação histórica definitiva, ela foi amplamente aceita na Antiguidade e ajudou a consolidar a imagem poética da deusa.
Outra tradição importante aparece nos poemas atribuídos a Homero, também do século VIII a.C. Nessa versão, Afrodite é apresentada como filha de Zeus, o principal deus do Olimpo, e de Dione, uma divindade feminina associada à fertilidade e ao princípio divino feminino. Essa genealogia a integra de modo mais claro à família olímpica e a coloca em relação direta com a hierarquia dos deuses.
A existência dessas duas versões revela um aspecto importante da religião grega: os mitos não formavam um sistema rígido e uniforme. Em vez disso, podiam variar conforme a região, o poeta, a tradição oral ou a finalidade religiosa e literária. No caso de Afrodite, essas diferenças também indicam a antiguidade de seu culto e a possibilidade de que sua figura tenha incorporado elementos de tradições orientais e mediterrâneas anteriores à consolidação da religião grega clássica.
Seu vínculo com o mar também permaneceu muito forte ao longo do tempo. Em muitas representações artísticas e narrativas, Afrodite aparece associada às águas, às conchas e à paisagem marítima. Essa ligação ajudou a transformá-la em uma das imagens mais duradouras da Antiguidade, sobretudo porque unia nascimento, beleza, erotismo e natureza em uma única figura divina.
Biografia mítica e lugar no Olimpo
Embora os deuses gregos não possuam uma biografia no sentido histórico do termo, é possível reconstruir a trajetória mítica de Afrodite a partir dos relatos literários, religiosos e artísticos da Antiguidade. Após seu nascimento, Afrodite foi integrada ao universo divino do Olimpo, onde passou a ocupar uma posição de destaque entre as principais divindades veneradas pelos gregos. Sua função ultrapassava a simples personificação da beleza, pois ela exercia influência direta sobre casamentos, uniões, paixões, fecundidade e relações entre os sexos.
No Olimpo, Afrodite era uma deusa temida e respeitada por seu poder de despertar amor e desejo. Mesmo Zeus, o soberano dos deuses, em algumas narrativas não escapava completamente de sua influência. Esse aspecto mostra como sua autoridade era singular: ao contrário de divindades ligadas à guerra ou à sabedoria, Afrodite dominava o campo das emoções, dos impulsos e das relações afetivas, áreas fundamentais para a experiência humana e divina.
Sua presença no Olimpo também era marcada por tensões. Em vários mitos, Afrodite se envolve em rivalidades, disputas e episódios de humilhação ou vingança. Isso revela que sua figura não se limitava a uma imagem pacífica ou idealizada. O amor, para os gregos, podia gerar prazer e harmonia, mas também ciúme, sofrimento, rivalidade e destruição. Por isso, Afrodite é uma deusa ambivalente: bela e encantadora, mas também poderosa, imprevisível e capaz de provocar grandes tragédias.
Sua atuação mítica se estende por diferentes gerações de heróis e personagens lendários. Ela interfere em casamentos, inspira paixões, protege amantes, favorece certos heróis e castiga aqueles que a desrespeitam. Sua influência atravessa mitos ligados a Troia, à ilha de Chipre, aos deuses olímpicos e a figuras mortais que se tornaram célebres na tradição grega.
Ao longo da Antiguidade, seu lugar no Olimpo permaneceu estável e prestigioso. Ela era invocada tanto em contextos religiosos quanto literários, e sua imagem foi reelaborada por poetas, escultores e filósofos. Assim, sua “biografia” mítica pode ser entendida como a história de uma deusa cuja presença nunca se restringiu a um único domínio, mas se espalhou por todas as esferas da vida simbólica grega.
Afrodite na genealogia dos deuses gregos
A posição de Afrodite na genealogia divina varia conforme a tradição considerada, mas em todas elas sua presença é central. Quando é apresentada como filha de Urano em sentido simbólico, por ter nascido da espuma formada após a mutilação do deus celeste, Afrodite se aproxima das forças primordiais do cosmos. Nessa perspectiva, ela não é apenas uma deusa olímpica, mas uma entidade de origem arcaica, ligada aos fundamentos do universo e às energias criadoras da existência.
Quando aparece como filha de Zeus e Dione, Afrodite é integrada de maneira mais direta ao sistema genealógico do Olimpo. Zeus, como soberano dos deuses, era o eixo em torno do qual se organizava boa parte da família divina. Dione, por sua vez, era uma figura feminina antiga, associada em alguns contextos a cultos pré-olímpicos e à dimensão maternal do sagrado. Essa genealogia reforça a legitimidade de Afrodite entre os deuses e destaca seu pertencimento à ordem olímpica.
Afrodite também se relacionava com diversas divindades por meio de alianças, rivalidades e descendências. Seu casamento com Hefesto, deus do fogo e da metalurgia, é uma das uniões mais conhecidas da mitologia grega. Apesar disso, essa relação era marcada por tensão e infidelidade, sobretudo em razão de seu vínculo amoroso com Ares, deus da guerra. Essa associação entre Afrodite e Ares é particularmente reveladora, pois une dois princípios aparentemente opostos: o amor e a violência.
Entre os filhos atribuídos a Afrodite, o mais famoso é Eros, frequentemente associado ao amor e à atração. Em algumas tradições, Eros aparece como uma força primordial; em outras, como filho da própria Afrodite. Também lhe são atribuídos outros descendentes, como Harmonia, fruto de sua união com Ares, e figuras ligadas à fertilidade, ao desejo e à beleza. Essas relações reforçam sua função como matriz de vínculos, afetos e impulsos vitais.
A genealogia de Afrodite, portanto, não é apenas uma questão de parentesco entre deuses. Ela ajuda a compreender como os gregos pensavam as relações entre beleza, desejo, fecundidade, conflito, ordem e criação. Sua posição no panteão revela uma divindade profundamente conectada aos aspectos mais intensos e contraditórios da experiência humana.
Atributos, símbolos e representações
Afrodite foi identificada por uma série de atributos e símbolos que ajudaram a construir sua imagem na arte, na literatura e na religiosidade grega. Esses elementos não eram meramente decorativos, mas carregavam significados profundos relacionados ao amor, à beleza, à fertilidade e à sedução. Entre os mais conhecidos estão a concha, a pomba, o espelho, as rosas, o mar, o cisne e o cinturão mágico.
A concha tornou-se um dos símbolos mais famosos de Afrodite por causa de sua associação com o nascimento marinho da deusa. Ela remete à ideia de origem, feminilidade, fecundidade e beleza emergente. O mar, por sua vez, era um elemento recorrente em seu culto e em sua iconografia, reforçando sua ligação com a natureza, o nascimento e o mistério da criação. Em muitas imagens, Afrodite aparece próxima às águas ou sendo conduzida por criaturas marinhas.
A pomba e o cisne estavam ligados à suavidade, ao amor e à elegância. Esses animais simbolizavam delicadeza, graça e atração, características frequentemente atribuídas à deusa. As rosas, por sua vez, passaram a representar a beleza, o erotismo e a efemeridade do prazer. Já o espelho se tornou um objeto associado à contemplação da beleza, à sedução e à autoimagem, aspectos que dialogavam com o universo simbólico de Afrodite.
Outro elemento importante era o chamado cinturão de Afrodite, mencionado em textos antigos como um objeto mágico capaz de inspirar amor e desejo em quem estivesse sob sua influência. Esse atributo reforça a ideia de que a deusa não agia apenas por meio da aparência, mas por uma força invisível e irresistível que afetava emoções e comportamentos.
Na arte grega, Afrodite foi representada de diferentes maneiras ao longo do tempo. Em períodos mais antigos, podia aparecer vestida e com postura solene. Já em épocas posteriores, especialmente a partir do século IV a.C., tornou-se uma das primeiras grandes divindades femininas a ser representada nua em esculturas de destaque. Essa mudança não deve ser entendida apenas como erotização, mas também como expressão de um ideal estético de beleza e perfeição corporal cultivado pelos gregos.
Afrodite e o amor na cultura grega
Afrodite ocupava um lugar decisivo na maneira como os gregos pensavam o amor. Sua figura concentrava diferentes dimensões da experiência amorosa, desde o desejo físico e a atração sensual até o vínculo afetivo, a fecundidade e a união entre casais. Isso mostra que o amor, no mundo grego, não era tratado apenas como um sentimento íntimo, mas como uma força social, religiosa e até política.
Na cultura grega, o amor podia ser entendido de várias formas. Havia o amor erótico, ligado ao desejo e à atração corporal; o amor conjugal, relacionado ao casamento e à continuidade da família; e outras formas de afeto que apareciam na filosofia e na poesia. Afrodite estava mais diretamente associada ao campo da atração, da paixão e da fecundidade, embora seu alcance simbólico fosse mais amplo. Ela não apenas despertava sentimentos, mas também podia desestabilizar ordens estabelecidas, gerar conflitos e alterar destinos.
Os gregos reconheciam no amor uma força ambígua. Ele podia trazer prazer, união, beleza e vida, mas também sofrimento, obsessão, ciúme e tragédia. Afrodite personificava exatamente essa dualidade. Seus dons eram desejados, mas também temidos, pois ninguém estava completamente protegido contra a força do desejo. Em muitos mitos, a paixão provocada por sua intervenção leva personagens a tomar decisões irracionais ou desastrosas.
A literatura grega, especialmente a poesia lírica, explorou intensamente essa dimensão. Poetas como Safo, que viveu entre os séculos VII e VI a.C., invocavam Afrodite em versos que tratavam do amor como experiência arrebatadora, dolorosa e transformadora. Nesses contextos, a deusa não era apenas uma personagem mitológica, mas uma presença espiritual e emocional invocada para explicar a intensidade dos sentimentos humanos.
Afrodite também tinha importância no campo do casamento e da fertilidade. Em uma sociedade que valorizava a continuidade da família e a legitimidade das uniões, sua atuação religiosa se estendia à proteção da vida conjugal, da fecundidade feminina e das relações afetivas. Assim, sua presença na cultura grega era profunda e multifacetada, abrangendo tanto o prazer quanto a responsabilidade, tanto a beleza quanto o conflito.
Relação com Ares, Hefesto e Eros
As relações de Afrodite com Ares, Hefesto e Eros estão entre os aspectos mais conhecidos e simbólicos de sua trajetória mítica. Cada uma dessas ligações revela dimensões específicas do papel da deusa na mitologia grega e ajuda a compreender como os gregos articulavam amor, guerra, desejo, técnica e ordem social por meio das narrativas divinas.
Seu casamento com Hefesto é um dos episódios mais significativos. Hefesto era o deus do fogo, da metalurgia, da forja e do trabalho artesanal. Em muitas versões, ele aparece como um deus habilidoso, mas fisicamente marcado por deformidade ou claudicação. A união entre Hefesto e Afrodite, portanto, parece reunir dois princípios contrastantes: de um lado, a beleza e a sedução; de outro, o trabalho técnico, o esforço e a fabricação. Esse casamento, contudo, raramente é descrito como harmonioso.
Afrodite é frequentemente associada a Ares, deus da guerra, com quem teria mantido uma relação amorosa. Essa ligação é profundamente simbólica, pois aproxima amor e violência, desejo e destruição, paixão e conflito. Em muitos mitos, a união entre Afrodite e Ares sugere que o amor não é apenas doçura e encantamento, mas também impulso, força e instabilidade. Desse relacionamento, em algumas tradições, nasce Harmonia, o que revela um simbolismo interessante: da tensão entre opostos pode surgir equilíbrio.
Eros, por sua vez, é uma figura essencial na esfera de Afrodite. Em várias tradições, ele aparece como seu filho e companheiro simbólico. Representado como a personificação do desejo e da atração, Eros atua como extensão do poder materno de Afrodite. Se ela encarna o princípio do amor e da sedução, Eros é a força imediata que atinge deuses e humanos, levando-os a amar, desejar ou sofrer.
Essas relações não devem ser vistas apenas como histórias familiares entre divindades. Elas expressam valores, tensões e percepções da sociedade grega sobre os afetos, os papéis sociais, a sexualidade e os vínculos humanos. Afrodite, ao se ligar a Hefesto, Ares e Eros, torna-se um ponto de convergência entre campos aparentemente distintos da experiência: o belo, o bélico, o erótico e o social.
Afrodite nos principais mitos gregos
Afrodite participa de alguns dos mitos mais conhecidos da tradição grega, quase sempre como uma figura capaz de interferir em decisões, paixões e destinos. Sua presença nas narrativas não costuma ser periférica. Pelo contrário, ela frequentemente desencadeia eventos de grande alcance, o que demonstra a centralidade simbólica do amor e do desejo no imaginário mítico grego.
Um dos episódios mais célebres é o Julgamento de Páris. Nesse mito, Páris, príncipe troiano, foi encarregado de decidir qual deusa era a mais bela entre Hera, Atena e Afrodite. Cada uma tentou conquistá-lo com promessas. Afrodite ofereceu a ele o amor da mulher mais bela do mundo, Helena. Ao escolhê-la, Páris desencadeou uma cadeia de acontecimentos que culminaria na Guerra de Troia. Esse mito mostra como a beleza e o desejo, sob a influência de Afrodite, podiam provocar consequências políticas e militares de enormes proporções.
Afrodite também aparece em narrativas ligadas a Adônis, jovem de grande beleza por quem a deusa se apaixonou. O mito de Adônis relaciona amor, juventude, perda e renovação, aproximando Afrodite de temas ligados ao ciclo da vida e da natureza. Em algumas interpretações, esse mito possui conexões com antigas tradições de fertilidade do Mediterrâneo oriental.
Outro conjunto importante de narrativas envolve Eros e Psiquê, embora essa história tenha se desenvolvido de maneira mais sistemática em tradição posterior, especialmente no mundo romano. Ainda assim, ela preserva elementos fundamentais do universo de Afrodite, como ciúme, rivalidade, provas amorosas e transformação espiritual. Nesse relato, a deusa aparece como figura poderosa e exigente, capaz de testar e punir.
Há também diversos mitos em que Afrodite castiga aqueles que rejeitam o amor, a beleza ou o culto a ela. Esses episódios reforçam a ideia de que ignorar ou desafiar as forças representadas pela deusa podia trazer sofrimento e desordem. Para os gregos, o amor era uma dimensão inevitável da vida, e Afrodite simbolizava exatamente essa inevitabilidade.
O culto na Grécia Antiga
Afrodite não foi apenas uma personagem da mitologia, mas uma divindade efetivamente cultuada em diferentes regiões do mundo grego. Seu culto esteve presente em várias cidades e ilhas do Mediterrâneo, especialmente em áreas costeiras e portuárias, o que reforça sua antiga associação com o mar, a fertilidade e as trocas culturais entre povos.
Entre os centros mais importantes de veneração de Afrodite estavam Chipre e Citera, locais frequentemente associados ao seu nascimento e à difusão de seu culto. Chipre, em particular, tornou-se um dos principais espaços de devoção à deusa na Antiguidade. Ali, Afrodite era cultuada sob formas que possivelmente incorporavam elementos de tradições orientais anteriores ou paralelas à religião grega clássica.
Corinto também foi um centro relevante de culto à deusa. A cidade, importante do ponto de vista comercial e marítimo, desenvolveu formas específicas de veneração ligadas à prosperidade, à sensualidade e à dimensão pública do amor e da fertilidade. Ao longo do tempo, surgiram interpretações diversas sobre as práticas religiosas associadas a seus templos, e parte dessas leituras foi influenciada por autores antigos e por debates modernos sobre sexualidade e religiosidade no mundo antigo.
O culto de Afrodite incluía oferendas, festivais, orações, procissões e rituais ligados à vida afetiva, à fecundidade e à proteção das uniões. Mulheres, homens, casais e comunidades podiam invocá-la em diferentes contextos. Sua atuação religiosa não se limitava ao amor romântico, mas abrangia casamento, fertilidade, harmonia social e até proteção marítima em certos contextos.
A existência de diversos epítetos de Afrodite também revela a amplitude de seu culto. Em diferentes cidades e santuários, ela podia receber títulos que destacavam funções específicas, como Afrodite Urania (mais associada a um amor elevado ou celestial) e Afrodite Pandemos (relacionada ao amor comum, social ou coletivo). Essas variações mostram como os gregos concebiam a deusa de maneira plural, adaptando seu culto às necessidades e valores de cada comunidade.
Afrodite na arte grega
A imagem de Afrodite exerceu enorme influência sobre a arte grega, tornando-se uma das representações femininas mais recorrentes da Antiguidade. Sua figura permitia aos artistas explorar temas como beleza, proporção, sensualidade, delicadeza, equilíbrio corporal e idealização estética. Por isso, Afrodite foi representada em esculturas, vasos pintados, relevos, poemas e composições visuais de diferentes épocas.
Nas fases mais antigas da arte grega, suas representações podiam ser mais solenes e menos naturalistas. Com o tempo, sobretudo entre os séculos V e IV a.C., a arte grega passou a desenvolver um tratamento mais refinado do corpo humano, e Afrodite tornou-se uma das principais figuras para esse processo. A deusa passou a encarnar o ideal de beleza feminina elaborado pela cultura clássica.
Uma das mudanças mais importantes ocorreu quando escultores começaram a representá-la nua ou semidespida. Esse processo teve grande impacto na história da arte ocidental. A nudez de Afrodite não deve ser entendida apenas como sensualidade, mas como expressão de um ideal de perfeição formal, equilíbrio anatômico e contemplação estética. Seu corpo era visto como objeto de harmonia visual e não apenas de desejo.
Modelos escultóricos inspirados em Afrodite continuaram a circular durante o período helenístico e foram amplamente retomados pelos romanos, que a identificaram com Vênus. A partir daí, sua imagem atravessou séculos e influenciou diretamente a arte renascentista, neoclássica e moderna. Assim, a representação de Afrodite na arte grega ultrapassou seu contexto original e se tornou um dos grandes legados visuais da Antiguidade.
Na literatura, sua presença também foi marcante. Poetas e dramaturgos recorreram à deusa para tratar do amor, do desejo, da beleza e da vulnerabilidade humana. Isso mostra que Afrodite não foi apenas uma imagem visual poderosa, mas também uma figura literária central na construção da sensibilidade estética do mundo antigo.
Afrodite e sua influência na cultura ocidental
A permanência de Afrodite na cultura ocidental é um dos exemplos mais claros de como a mitologia grega ultrapassou seu contexto histórico original e continuou a moldar símbolos, narrativas e valores ao longo dos séculos. Sua imagem foi reinterpretada em diferentes épocas, mantendo-se associada ao amor, à beleza, ao desejo, à feminilidade e à sedução.
No mundo romano, Afrodite foi identificada com Vênus, deusa que herdou grande parte de seus atributos. A partir dessa assimilação, sua presença se fortaleceu ainda mais no imaginário europeu. Durante o Renascimento, artistas e intelectuais retomaram a figura de Afrodite/Vênus como símbolo de perfeição estética, harmonia clássica e inspiração artística. Obras célebres da pintura e da escultura europeia foram profundamente influenciadas por esse modelo.
Na literatura e na filosofia, Afrodite também permaneceu como referência importante. O amor, o desejo e a beleza continuaram sendo temas centrais do pensamento ocidental, e a deusa passou a funcionar como arquétipo dessas experiências. Em alguns contextos, sua imagem foi reinterpretada de forma espiritualizada; em outros, foi vinculada ao erotismo, à psicologia ou à subjetividade moderna.
A psicanálise, por exemplo, ao estudar o desejo, a atração e os impulsos afetivos, dialogou indiretamente com um repertório simbólico que já havia sido moldado por figuras como Afrodite e Eros. Na cultura contemporânea, sua imagem segue presente em filmes, livros, pinturas, moda, publicidade e produções audiovisuais. Mesmo quando seu nome não é citado explicitamente, muitos padrões estéticos e narrativos ainda remetem ao universo que ela ajudou a construir.
Esse percurso demonstra que Afrodite não foi apenas uma deusa da Antiguidade, mas uma figura simbólica de longa duração histórica. Sua permanência revela como certos temas, como beleza, paixão, desejo e fascínio, continuam sendo centrais na experiência humana e nas formas de representação cultural.
Curiosidades
Afrodite possuía vários epítetos, isto é, nomes e títulos que destacavam aspectos específicos de sua atuação. Entre eles, destacam-se Afrodite Urania e Afrodite Pandemos. O primeiro estava mais associado a uma dimensão elevada, espiritual ou idealizada do amor, enquanto o segundo se relacionava a uma forma mais coletiva, cotidiana e terrena da experiência amorosa. Esses títulos mostram que os gregos não concebiam o amor como algo simples ou único, mas como uma realidade múltipla e complexa.
Embora seja lembrada principalmente como deusa da beleza e do amor, Afrodite também possuía vínculos com o mar, a fertilidade, a navegação e a renovação da vida. Isso reforça a ideia de que sua atuação simbólica era mais ampla do que normalmente se imagina. Em algumas regiões, ela podia ser venerada com características que a aproximavam de antigas deusas orientais da fecundidade e da sexualidade.
Sua relação com a Guerra de Troia é outro aspecto curioso. Apesar de não ser uma deusa guerreira, sua influência foi decisiva para o desencadeamento do conflito por meio do Julgamento de Páris. Isso mostra como, na mitologia grega, a beleza e o desejo podiam ter consequências tão profundas quanto as decisões políticas ou militares.
Afrodite também permaneceu como uma das figuras femininas mais representadas da história da arte. Poucas divindades tiveram uma trajetória iconográfica tão longa e tão diversa. Desde esculturas antigas até pinturas renascentistas e representações modernas, sua imagem continuou a ser reinterpretada de acordo com os valores estéticos e culturais de cada época.
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| Estátua da deusa Afrodite |
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Ruínas do templo de Afrodite na Turquia. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 03/04/2026
Fontes de referência:
https://www.britannica.com/topic/Aphrodite-Greek-mythology
https://en.wikipedia.org/wiki/Aphrodite
- EYLER, Flávia Maria Schlee. História Antiga – Grécia e Roma: a formação do Ocidente. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
- PILETTI, Nelson. História e Vida Integrada. São Paulo: Editora Ática, 1998.
Vídeo indicado no YouTube:
Afrodite: A Deusa da Beleza e do Amor - Os Olimpianos - Mitologia Grega - Foca na História