O que é
Historiografia é o campo de estudo dedicado à forma como a História é pesquisada, interpretada e escrita pelos historiadores ao longo do tempo. Ela analisa os métodos, as fontes, os conceitos e as diferentes interpretações utilizadas para compreender o passado, considerando que um mesmo acontecimento histórico pode receber explicações distintas conforme a corrente historiográfica, o contexto histórico e as questões formuladas pelo pesquisador. Dessa forma, a historiografia não estuda apenas os acontecimentos do passado, mas também como o conhecimento histórico sobre esses acontecimentos foi produzido e transformado.
Origem e evolução
A origem da historiografia remonta à Antiguidade, especialmente à Grécia do século V a.C., quando autores passaram a registrar e investigar acontecimentos humanos de maneira mais sistemática. Heródoto de Halicarnasso (c. 484–425 a.C.), tradicionalmente chamado de “pai da História”, procurou explicar as Guerras Greco-Persas reunindo relatos, observações e informações sobre diferentes povos. Pouco depois, Tucídides (c. 460–400 a.C.), ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso, adotou uma postura mais crítica em relação às fontes e buscou explicar os acontecimentos por causas políticas e humanas, evitando explicações mitológicas. Por isso, Heródoto e Tucídides são considerados fundamentais para o nascimento da historiografia ocidental.
Antes dos gregos, entretanto, várias civilizações já produziam registros do passado. Egípcios, mesopotâmicos, chineses e outros povos registravam reinados, guerras, genealogias, cerimônias religiosas e acontecimentos importantes. Esses documentos tinham geralmente funções políticas, religiosas ou administrativas e não correspondiam ainda à historiografia no sentido moderno, embora sejam fundamentais para o conhecimento histórico dessas sociedades.
Durante a Idade Média, entre os séculos V e XV, grande parte da historiografia europeia foi produzida por religiosos. Crônicas, biografias de santos e relatos sobre reis e guerras frequentemente interpretavam os acontecimentos a partir da fé cristã e da ideia de ação divina na História. Autores como Beda, o Venerável (c. 673–735), contribuíram para a preservação e organização de informações históricas desse período.
Entre os séculos XV e XVIII, o Renascimento, o Humanismo e posteriormente o Iluminismo favoreceram uma abordagem mais crítica dos documentos históricos. Historiadores passaram a examinar textos antigos, comparar fontes e buscar explicações políticas, sociais e humanas para os acontecimentos. No século XIX, a historiografia consolidou-se como atividade acadêmica profissional, especialmente com o desenvolvimento dos estudos históricos nas universidades europeias. Leopold von Ranke (1795–1886) foi um dos principais nomes desse processo ao defender o uso rigoroso de documentos e fontes primárias.
A historiografia contemporânea desenvolveu-se sobretudo a partir do século XX, quando novas correntes ampliaram os temas e métodos da pesquisa histórica. O marxismo, a Escola dos Annales, a História Social, a História Cultural, a micro-história e outras abordagens passaram a estudar não apenas governos, guerras e grandes personagens, mas também economia, trabalhadores, cotidiano, mentalidades, cultura, relações sociais e grupos anteriormente pouco presentes nas narrativas históricas. Assim, a historiografia passou de registros predominantemente políticos e religiosos para um campo amplo de investigação sobre diferentes aspectos das sociedades humanas.
Principais correntes da historiografia:
Positivismo
O positivismo exerceu forte influência sobre a historiografia do século XIX, sobretudo por meio da valorização dos documentos escritos, da pesquisa rigorosa das fontes e da tentativa de construir um conhecimento histórico objetivo. Inspirados pelo ambiente intelectual marcado pelo pensamento de Auguste Comte, muitos historiadores procuraram aproximar a História dos métodos das ciências. Na prática historiográfica, porém, é mais adequado falar também em historiografia metódica, que privilegiava documentos oficiais, acontecimentos políticos, guerras, tratados, governos e grandes personagens. Atualmente, a ideia de que o historiador possa simplesmente reproduzir os fatos de maneira totalmente neutra é amplamente questionada.
Historicismo
Desenvolvido principalmente na Alemanha durante o século XIX, o historicismo defende que cada sociedade, instituição ou acontecimento deve ser compreendido dentro de seu próprio contexto histórico. Leopold von Ranke (1795–1886) tornou-se um de seus principais representantes. Ranke valorizava intensamente a pesquisa documental e procurava reconstruir os acontecimentos com base em fontes primárias. Essa corrente teve grande importância para a profissionalização da História como disciplina acadêmica e para o desenvolvimento da crítica documental.
Materialismo histórico
O materialismo histórico está relacionado principalmente às ideias de Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895). Essa perspectiva interpreta as sociedades a partir das relações entre produção econômica, organização social, propriedade, trabalho e conflitos entre grupos e classes sociais. Entretanto, não considera que somente a economia determina automaticamente todos os acontecimentos históricos. Para os historiadores marxistas, as relações econômicas interagem com instituições políticas, ideias, culturas e conflitos sociais. Conceitos como modo de produção, luta de classes e relações de produção são fundamentais nessa abordagem.
Escola dos Annales
A Escola dos Annales surgiu na França em 1929, quando Marc Bloch (1886–1944) e Lucien Febvre (1878–1956) fundaram a revista "Annales d'histoire économique et sociale". Seus representantes criticavam uma História excessivamente concentrada em acontecimentos políticos, guerras e grandes líderes. Propuseram ampliar o campo de investigação histórica, incorporando temas econômicos, sociais, geográficos, culturais e relacionados ao cotidiano.
Uma das principais características dos Annales foi o diálogo da História com outras áreas, como Geografia, Sociologia, Economia, Antropologia e Psicologia. Fernand Braudel (1902–1985), importante representante da segunda geração, desenvolveu a ideia de diferentes durações do tempo histórico, destacando especialmente a longa duração das estruturas econômicas, sociais e geográficas. Portanto, não é correto identificar toda a Escola dos Annales simplesmente como "Escola das Mentalidades". A História das Mentalidades desenvolveu-se posteriormente e recebeu forte influência dos Annales.
História das Mentalidades
A História das Mentalidades ganhou força principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, relacionada à terceira geração dos Annales. Seu objetivo era estudar maneiras coletivas de pensar, sentir e interpretar o mundo em diferentes sociedades. Temas como morte, medo, religiosidade, infância, família, sexualidade e imaginário passaram a ocupar maior espaço nas pesquisas. Jacques Le Goff (1924–2014), Georges Duby (1919–1996) e Philippe Ariès (1914–1984) estão entre os historiadores associados a essa tendência.
História Social
Essa escola dedica atenção às relações entre diferentes grupos que compõem uma sociedade. Trabalhadores, camponeses, mulheres, pessoas escravizadas, movimentos sociais e grupos anteriormente pouco presentes nas narrativas tradicionais passaram a ser importantes objetos de pesquisa. A História Social recebeu influência tanto do marxismo quanto dos Annales. Entre seus representantes destaca-se o historiador britânico E. P. Thompson (1924–1993), autor de "A Formação da Classe Operária Inglesa".
História vista de baixo
A chamada História vista de baixo procura analisar acontecimentos e processos históricos a partir da experiência das pessoas comuns, e não somente das elites políticas, econômicas ou militares. Trabalhadores, camponeses, soldados, artesãos, pessoas escravizadas e outros grupos populares tornam-se protagonistas da investigação histórica. Essa perspectiva ganhou força no século XX e teve historiadores como E. P. Thompson e Eric Hobsbawm (1917–2012) entre suas principais referências.
Nova História Cultural
Essa escola ganhou grande projeção a partir das últimas décadas do século XX. Essa corrente investiga representações, símbolos, práticas culturais, discursos, costumes, formas de leitura, festas, crenças e maneiras pelas quais as sociedades atribuem significado ao mundo. Roger Chartier, Peter Burke e Robert Darnton estão entre os historiadores que contribuíram significativamente para essa abordagem. Ela ampliou consideravelmente as fontes utilizadas pelo historiador, incluindo imagens, literatura, imprensa, correspondências e manifestações da cultura popular.
Micro-história
Desenvolvida principalmente na Itália durante as décadas de 1970 e 1980, a micro-história concentra sua investigação em casos específicos, pequenas comunidades ou indivíduos para compreender questões históricas mais amplas. Em vez de trabalhar somente com grandes estruturas sociais, o historiador reduz a escala de observação e examina detalhadamente documentos e experiências particulares. Carlo Ginzburg tornou-se um de seus principais representantes com a obra "O Queijo e os Vermes", publicada em 1976.
História quantitativa e cliometria
Essas abordagens utilizam dados estatísticos, séries econômicas, demográficas e outros métodos quantitativos para estudar processos históricos. A cliometria ganhou força especialmente nos Estados Unidos a partir das décadas de 1950 e 1960 e passou a empregar modelos econômicos e técnicas estatísticas na análise histórica. Estudos sobre preços, comércio, população, salários, produção agrícola e crescimento econômico são exemplos de campos nos quais esses métodos podem ser empregados.
História das Mulheres e História de Gênero
A partir principalmente das décadas de 1960 e 1970, historiadoras passaram a questionar a reduzida presença das mulheres nas narrativas históricas tradicionais. Posteriormente, a História de Gênero ampliou essa perspectiva, estudando como diferentes sociedades construíram historicamente papéis, comportamentos e relações associados ao masculino e ao feminino. Joan Scott tornou-se uma importante referência teórica dessa abordagem.
História Pós-colonial
Os estudos pós-coloniais ganharam força durante a segunda metade do século XX ao analisar as consequências políticas, sociais e culturais do colonialismo. Essa perspectiva questiona interpretações históricas centradas exclusivamente na experiência europeia e procura compreender como povos colonizados participaram da construção de suas próprias histórias. Edward Said (1935–2003), autor de "Orientalismo", publicado em 1978, tornou-se uma das principais referências intelectuais desse campo.
Historiografia decolonial
Relacionada aos debates latino-americanos do final do século XX e início do XXI, a perspectiva decolonial investiga a permanência de estruturas de poder, conhecimento e hierarquização construídas durante o colonialismo mesmo após as independências políticas. Autores como Aníbal Quijano (1928–2018) e Walter Mignolo contribuíram para esses debates. Na História, essa abordagem tem incentivado pesquisas sobre povos indígenas, populações africanas e afrodescendentes e outras experiências historicamente interpretadas a partir de perspectivas predominantemente europeias.
História Global
A História Global ganhou maior projeção a partir do final do século XX e procura compreender fenômenos históricos considerando conexões entre diferentes regiões do planeta. Migrações, circulação de mercadorias, epidemias, impérios, religiões, tecnologias e intercâmbios culturais são analisados para além das fronteiras nacionais. Seu objetivo não é escrever uma única história de toda a humanidade, mas estudar conexões e processos que atravessaram sociedades distintas.
É importante observar que essas correntes não formam escolas completamente isoladas. Um mesmo historiador pode empregar contribuições da História Social, da História Cultural, do marxismo ou da micro-história em uma única pesquisa. A historiografia contemporânea caracteriza-se justamente pela multiplicidade de métodos, fontes e problemas utilizados para compreender as sociedades do passado.
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Lucien Febvre (1878-1956): um dos grandes nomes da corrente historiográfica conhecida como Escola dos Annales. |
Importância da Historiografia para o estudo da História:
• Análise crítica: a historiografia incentiva o pensamento crítico ao examinar como as narrativas históricas são formadas. Ela destaca a natureza subjetiva da escrita histórica e a influência do contexto, dos vieses e dos propósitos do historiador.
• Evolução das interpretações: ela traça como as interpretações e os enfoques históricos mudam ao longo do tempo, refletindo mudanças nos valores sociais, tendências acadêmicas e acesso às fontes históricas. Isso ajuda a entender a natureza dinâmica da história como disciplina.
• Visão metodológica: ao estudar as abordagens e metodologias de diferentes historiadores, a historiografia oferece uma visão sobre como os historiadores coletam, analisam e interpretam evidências. Isso pode levar a pesquisas históricas mais robustas e matizadas.
• Debates e controvérsias: a historiografia expõe os alunos a debates e controvérsias em andamento dentro do campo, demonstrando que a história não é apenas sobre fatos, mas também sobre interpretação e argumentação.
• Perspectivas diversas: ela introduz a influência de várias perspectivas, incluindo fatores econômicos, sociais, políticos e culturais, na interpretação histórica. Isso promove um entendimento mais abrangente do passado ao incluir múltiplos pontos de vista.
Você sabia?
- O historiógrafo é o profissional que se dedica ao estudo da historiografia.
- A palavra tem origem no grego historiographia que significa "trabalho de historiador".
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/08/2026
Fontes de referência do texto:
https://es.wikipedia.org/wiki/Historiograf%C3%ADa
BRAICK, Patrícia Ramos. Estudar História. São Paulo: Editora Moderna, 2018.
Vídeo indicado no YouTube:
Correntes Historiográficas - "História da História" - Prof. Basilio Historiando