Ares - deus grego


 

Quem foi Ares na mitologia grega?



Ares era o deus grego da guerra, especialmente associado ao combate violento, ao sangue derramado, à fúria guerreira e ao impulso destrutivo dos conflitos. Filho de Zeus e Hera, ele fazia parte do grupo dos deuses olímpicos, as principais divindades da religião grega antiga, cultuada sobretudo entre os séculos VIII a.C. e IV a.C., embora suas tradições míticas tenham raízes ainda mais antigas.

Diferentemente de Atena, que representava a guerra estratégica, racional e defensiva, Ares simbolizava o lado brutal e impulsivo da batalha. Sua imagem estava ligada ao tumulto dos campos de guerra, ao medo, à agressividade e à coragem física. Por isso, ele era respeitado como uma divindade poderosa, mas nem sempre era admirado pelos próprios gregos, que muitas vezes o retratavam como instável, violento e pouco racional.



Origem e família


Na mitologia grega, Ares era filho de Zeus, rei dos deuses, e Hera, deusa do casamento e da família. Como membro da geração olímpica, pertencia à ordem divina que se consolidou após a vitória de Zeus sobre os Titãs, em um conjunto de mitos que explicava a organização do cosmos e da autoridade divina.

Ares tinha vários irmãos e meio-irmãos importantes, entre eles Atena, Apolo, Ártemis, Hermes, Dioniso e Hefesto. Sua relação com os demais deuses, porém, era frequentemente marcada por conflitos. Nos poemas atribuídos a Homero, especialmente na "Ilíada", composta provavelmente no século VIII a.C., Ares aparece como uma divindade temida, mas também criticada por sua violência excessiva e por sua falta de autocontrole.



Representação e símbolos


Ares era geralmente representado como um guerreiro jovem, forte e armado. Seus principais símbolos eram o capacete, a lança, a espada, o escudo e a armadura. Esses elementos indicavam sua ligação direta com o combate corpo a corpo e com a presença física no campo de batalha.

Entre os animais associados a Ares estavam o javali, o cão e o abutre. O javali simbolizava força agressiva e ferocidade; o cão podia representar tanto a lealdade guerreira quanto a violência; o abutre estava ligado aos mortos deixados após as batalhas. Esses símbolos reforçavam a imagem de Ares como uma divindade próxima da destruição e das consequências mais sombrias da guerra.



Ares e a guerra


Ares não representava qualquer tipo de guerra. Ele estava ligado principalmente à guerra desordenada, violenta e sangrenta. Sua presença significava o avanço da cólera, do medo e da brutalidade. Por essa razão, sua atuação era diferente da de Atena, que também era deusa guerreira, mas associada à inteligência militar, à disciplina, à defesa das cidades e ao planejamento estratégico.

Essa oposição entre Ares e Atena revela um aspecto importante da cultura grega: os gregos reconheciam a existência da guerra, mas valorizavam mais a razão, a medida e a estratégia do que a violência descontrolada. Ares era necessário dentro do universo mítico, pois expressava uma força real da experiência humana, mas sua figura servia também como advertência contra os perigos da agressividade sem controle.

 

Escultura de Ares, deus da guerra na mitologia grega

Ares: deus da guerra na mitologia grega.




Ares na "Ilíada"


Na "Ilíada", Ares participa da Guerra de Troia, conflito mítico que teria ocorrido em uma tradição situada aproximadamente entre os séculos XIII a.C. e XII a.C., embora sua narrativa literária tenha sido organizada muito depois. No poema, Ares apoia os troianos em alguns momentos, mas sua atuação é marcada por instabilidade e violência.

Um episódio importante ocorre quando Ares é ferido por Diomedes, guerreiro grego auxiliado por Atena. A cena mostra que Ares, apesar de ser um deus, podia sofrer humilhações dentro da narrativa mítica. Após ser atingido, ele retorna ao Olimpo e se queixa a Zeus. O próprio Zeus, porém, demonstra desprezo pelo comportamento de Ares, chamando-o de divindade inclinada ao conflito.

Esse episódio é significativo porque mostra que Ares não era apresentado como um modelo ideal de heroísmo. Ao contrário, ele encarnava uma dimensão temida da guerra, mas nem sempre admirada. Sua força era grande, porém sua conduta era vista como desmedida.



Ares e Afrodite


Um dos mitos mais conhecidos envolvendo Ares é sua relação amorosa com Afrodite, deusa do amor e da beleza. Embora Afrodite fosse casada com Hefesto, deus do fogo e da metalurgia, ela manteve um relacionamento com Ares. Esse episódio é narrado em diferentes tradições da mitologia grega e aparece de forma célebre na "Odisseia", também atribuída a Homero.

Hefesto, ao descobrir a traição, preparou uma armadilha: uma rede invisível prendeu Ares e Afrodite durante o encontro amoroso. Em seguida, os demais deuses foram chamados para presenciar a cena, expondo os amantes ao ridículo. O mito revela o contraste entre a força impulsiva de Ares, a sedução de Afrodite e a inteligência técnica de Hefesto.

Da união entre Ares e Afrodite nasceram algumas figuras importantes, como Fobos e Deimos, personificações do medo e do terror, frequentemente associados ao campo de batalha. Também são mencionados Harmonia e, em algumas tradições, Eros. Essa descendência mostra a ligação simbólica entre amor, violência, desejo, medo e conflito, temas recorrentes na mitologia grega.



Culto a Ares


Apesar de ser um deus olímpico, Ares não teve na Grécia um culto tão amplo quanto divindades como Zeus, Atena, Apolo, Ártemis ou Deméter. Seu culto existia, mas era mais restrito. Isso se explica, em parte, pela forma ambígua como os gregos viam a guerra: ela podia ser necessária para defender a cidade, mas sua violência extrema era temida.

Esparta, cidade-Estado marcada por forte organização militar entre os séculos VII a.C. e IV a.C., tinha uma relação mais favorável com divindades guerreiras. Ainda assim, Atena e Ártemis também eram muito importantes no universo religioso espartano. Ares podia receber veneração em contextos ligados à coragem, à disciplina militar e à preparação para o combate.

Em Atenas, havia o Areópago, cujo nome significa aproximadamente "colina de Ares". Segundo a tradição mítica, esse local teria relação com um julgamento envolvendo Ares. Historicamente, o Areópago tornou-se um importante conselho aristocrático ateniense, com funções políticas e judiciais, especialmente no período arcaico e clássico.



Ares e Marte


Na mitologia romana, Ares foi identificado com Marte. No entanto, essa associação não significa que os dois deuses fossem exatamente iguais. Marte ocupava uma posição muito mais elevada na religião romana do que Ares na religião grega. Para os romanos, Marte não era apenas o deus da guerra, mas também uma divindade ligada à proteção do Estado, à ordem militar, à agricultura e à ancestralidade de Roma.

Segundo a tradição romana, Marte era pai de Rômulo e Remo, os fundadores míticos de Roma, cuja fundação é tradicionalmente datada de 753 a.C. Por isso, Marte tinha enorme importância política e religiosa. Já Ares, entre os gregos, era mais frequentemente visto como a personificação da violência guerreira do que como um protetor ideal da cidade.



Características principais de Ares:


Violência guerreira: Ares representava o combate em sua forma mais brutal, marcada por sangue, gritos, destruição e morte. Ele simbolizava a guerra como experiência física e emocional extrema.

Impulsividade: suas ações eram frequentemente guiadas pela cólera e pelo desejo de confronto. Por isso, era retratado como uma divindade de pouca moderação.

Coragem física: apesar de seus aspectos negativos, Ares também expressava bravura, força e disposição para enfrentar o perigo. Ele era a energia agressiva presente no guerreiro em combate.

Conflito e desordem: sua presença nos mitos indicava tumulto, instabilidade e ruptura da harmonia. Ares não representava a paz conquistada pela justiça, mas a tensão permanente da luta.

Relação com o medo: seus filhos Fobos e Deimos reforçam a ligação entre guerra, pânico e terror. No campo de batalha, Ares não atuava sozinho, mas acompanhado por forças que desorganizavam emocionalmente os combatentes.



Importância simbólica


A importância de Ares está em representar uma dimensão inevitável e perigosa da vida humana: o conflito violento. Os gregos antigos não o transformaram em um modelo moral perfeito, mas em uma figura que expressava o lado destrutivo da guerra. Sua existência no panteão mostrava que a religião grega não tratava apenas de virtudes idealizadas, mas também de paixões, medos e forças difíceis de controlar.

Ares também permite compreender como os gregos diferenciavam tipos de guerra. A guerra estratégica, organizada e ligada à defesa coletiva era representada por Atena. A guerra impulsiva, sangrenta e movida pela fúria era representada por Ares. Essa distinção revela uma reflexão profunda sobre os limites da violência e sobre a necessidade de controlar os impulsos destrutivos.

 

Ilustração representando o deus grego Ares com espada e escudo

Ilustração representando o deus grego Ares com seus principais símbolos: espada e escudo.

 

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 21/05/2026




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fontes:

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ares

 

https://www.britannica.com/topic/Ares-Greek-mythology



Vídeo indicado no YouTube:

 

Ares: O Deus da Guerra (Marte) Mitologia Grega - Foca na História


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