O que foi a Intentona Comunista
A Intentona Comunista foi uma série de levantes militares ocorridos no Brasil em novembro de 1935, organizados por grupos ligados ao movimento comunista brasileiro e a setores militares que se opunham ao governo de Getúlio Vargas. Esses levantes ocorreram principalmente nas cidades de Natal (23 de novembro de 1935), Recife (24 de novembro de 1935) e Rio de Janeiro (27 de novembro de 1935).
O movimento foi articulado por integrantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização política criada em 1935 que reunia comunistas, militares de esquerda, intelectuais e setores da classe trabalhadora. O objetivo central era derrubar o governo de Vargas e instaurar um governo revolucionário inspirado nas ideias socialistas e comunistas.
O termo “intentona” foi utilizado pelos adversários do movimento para caracterizar a tentativa como uma ação irresponsável e precipitada. Com o passar do tempo, essa denominação permaneceu no vocabulário histórico brasileiro para se referir à tentativa de revolta liderada por militantes ligados ao Partido Comunista do Brasil.
Contexto histórico
A Intentona Comunista ocorreu durante um período de grande instabilidade política no Brasil. Após a Revolução de 1930, que derrubou o presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder, o país passou por uma fase de reorganização institucional e intensos conflitos políticos.
Entre 1930 e 1934, Vargas governou de forma provisória, centralizando o poder e promovendo reformas administrativas e políticas. Em 1934 foi promulgada uma nova Constituição e Vargas foi eleito presidente de forma indireta pela Assembleia Nacional Constituinte.
No entanto, a década de 1930 foi marcada pela polarização ideológica em diversos países. O avanço do fascismo na Europa, representado pelos regimes de Benito Mussolini na Itália e Adolf Hitler na Alemanha, gerava preocupação entre setores democráticos e de esquerda. Ao mesmo tempo, a União Soviética representava para muitos militantes uma alternativa política baseada no socialismo.
No Brasil, esse ambiente internacional estimulou o surgimento de movimentos políticos ideologicamente definidos. De um lado estava a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado e inspirada em ideias nacionalistas e autoritárias. De outro lado, formou-se a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que defendia reformas sociais e políticas mais profundas.
A ANL foi oficialmente criada em março de 1935 e rapidamente ganhou grande apoio popular, organizando manifestações e atraindo milhares de simpatizantes em diferentes regiões do país.
Causas da Intentona Comunista
Diversos fatores contribuíram para a eclosão da Intentona Comunista em 1935. Entre eles destacam-se a crise política do período, o crescimento da oposição ao governo Vargas e a influência das ideias revolucionárias que circulavam no cenário internacional.
Um dos fatores importantes foi o fortalecimento da Aliança Nacional Libertadora. A organização reunia setores descontentes com a situação política e social do país, incluindo trabalhadores urbanos, estudantes, intelectuais e militares que defendiam mudanças estruturais.
Outro elemento relevante foi a atuação do Partido Comunista do Brasil, que via na ANL uma oportunidade para ampliar sua influência política. Inspirado pela Revolução Russa de 1917, o partido defendia a mobilização popular e a transformação radical da sociedade.
A presença de Luiz Carlos Prestes também teve grande impacto no movimento. Prestes era um militar que havia se tornado conhecido durante a década de 1920 como líder da Coluna Prestes (1925–1927), movimento de caráter tenentista que percorreu diversas regiões do Brasil criticando o sistema político da Primeira República. Nos anos 1930, Prestes aproximou-se do comunismo e tornou-se uma das principais lideranças da ANL.
Além disso, o governo de Vargas enfrentava críticas relacionadas às condições sociais e econômicas do país. Muitos trabalhadores e setores urbanos reivindicavam melhores condições de trabalho, reformas agrárias e maior participação política.
Em julho de 1935, o governo decidiu colocar a ANL na ilegalidade, alegando que suas atividades representavam uma ameaça à ordem política. Essa decisão contribuiu para radicalizar parte do movimento, que passou a considerar a possibilidade de uma ação armada contra o governo.
Objetivos do movimento
Os participantes da Intentona Comunista pretendiam provocar uma insurreição nacional que derrubasse o governo de Getúlio Vargas e instaurasse um governo revolucionário.
Entre os objetivos defendidos pela Aliança Nacional Libertadora estavam a suspensão do pagamento da dívida externa, a realização de reformas sociais profundas e a implementação de um governo popular com forte participação das classes trabalhadoras.
O movimento também buscava combater o avanço de correntes políticas autoritárias e nacionalistas que estavam ganhando espaço no Brasil e em outros países. Para seus participantes, a revolução seria uma forma de impedir o crescimento de regimes considerados antidemocráticos.
No plano militar, os líderes do movimento acreditavam que a revolta poderia se espalhar rapidamente entre quartéis do Exército e da Marinha, provocando uma mobilização mais ampla em diversas regiões do país.
Entretanto, essa expectativa não se confirmou. Os levantes ocorreram de forma isolada e não conseguiram mobilizar o apoio necessário para sustentar uma revolução de maior escala.
Os levantes de 1935
O primeiro levante ocorreu em Natal, capital do Rio Grande do Norte, em 23 de novembro de 1935. Militares e civis ligados ao movimento tomaram o controle da cidade por alguns dias e proclamaram um governo revolucionário local.
Em seguida, ocorreu uma revolta em Recife, em 24 de novembro de 1935. Apesar de alguns confrontos, o movimento foi rapidamente controlado pelas forças governamentais.
O episódio mais conhecido aconteceu no Rio de Janeiro, então capital federal, em 27 de novembro de 1935. A revolta ocorreu principalmente em quartéis militares, mas foi rapidamente reprimida pelo governo.
A falta de coordenação entre os diferentes focos de rebelião e a ausência de apoio amplo entre os militares contribuíram para o fracasso do movimento.
Consequências da Intentona Comunista
O fracasso da Intentona Comunista teve importantes consequências políticas para o Brasil. O governo utilizou o episódio como justificativa para intensificar a repressão contra opositores e ampliar o controle sobre a sociedade.
Após a revolta, milhares de pessoas foram presas sob acusação de envolvimento com atividades subversivas. Militantes políticos, sindicalistas e intelectuais foram perseguidos e encarcerados.
Luiz Carlos Prestes foi preso em 1936 e permaneceu detido por vários anos. Sua companheira, Olga Benário Prestes, militante comunista de origem alemã, também foi presa e posteriormente entregue ao governo da Alemanha nazista.
O episódio também contribuiu para fortalecer o discurso de que o país enfrentava uma ameaça comunista. Essa narrativa foi utilizada pelo governo Vargas para justificar medidas autoritárias.
Em 1937, dois anos após a Intentona Comunista, Getúlio Vargas realizou um golpe de Estado que instaurou o Estado Novo (1937–1945), regime caracterizado pela centralização do poder, censura à imprensa e repressão política.
Assim, embora tenha sido um movimento de curta duração e rapidamente derrotado, a Intentona Comunista teve grande impacto na história política brasileira. O episódio reforçou o clima de tensão ideológica da década de 1930 e contribuiu para o fortalecimento de práticas autoritárias no período seguinte.
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| Infográfico didático e resumido sobre a Intentona Comunista de 1935 |
RESUMO
- Intentona Comunista: episódio de levante político-militar ocorrido no Brasil em 1935, articulado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e influenciado pela Internacional Comunista.
- Lideranças: contou com a atuação de Luís Carlos Prestes como figura simbólica da ANL, após seu retorno ao Brasil em 1934.
- Orientação ideológica: fundamentada no ideário comunista e no objetivo de derrubar o governo de Getúlio Vargas.
Contexto histórico (1930-1935):
- Cenário político nacional: período pós-Revolução de 1930, marcado pela centralização de poder por Getúlio Vargas e pela reorganização das forças políticas brasileiras.
- Instabilidade política: presença de grupos opositores ao governo, entre eles integralistas, tenentistas e setores da esquerda.
- Repressão à ANL: fechamento da organização em julho de 1935, por meio da Lei de Segurança Nacional.
- Radicalização: crescente perseguição política levou parte dos militantes ao apoio a soluções armadas.
Objetivos:
- Derrubar o governo federal: tentativa de instaurar um governo revolucionário de inspiração comunista no país.
- Estabelecimento de reformas: defesa de reformas sociais, econômicas e políticas, como nacionalizações e direitos trabalhistas ampliados.
- Ampliação da influência comunista: intenção de alinhar o Brasil ao movimento comunista internacional.
- Ruptura com o autoritarismo: rejeição ao fortalecimento do Estado varguista, considerado antidemocrático.
Desenvolvimento dos levantes (novembro de 1935):
- Eclosão em Natal: primeira insurreição ocorreu em 23 de novembro de 1935, culminando na tomada temporária do governo local.
- Aderência militar limitada: participação concentrada em setores específicos da guarnição militar.
- Levante em Recife: ocorrido em 24 de novembro, enfrentou resistência imediata de forças legalistas.
- Combates urbanos: conflitos se intensificaram em regiões militares da cidade.
- Levante no Rio de Janeiro: última tentativa, em 27 de novembro, no então Distrito Federal, rapidamente sufocada.
- Derrota definitiva: repressão severa encerrou as insurreições em poucos dias.
Consequências (1935-1937):
- Repressão ampliada: governo Vargas adotou medidas de endurecimento político, com prisões e perseguições a opositores.
- Fortalecimento do Estado: o episódio contribuiu para justificar maior centralização do poder.
- Caminho para o Estado Novo (1937): Intentona foi utilizada como justificativa para o aumento do controle estatal e para o golpe que instaurou o regime autoritário.
- Consolidação da narrativa oficial: governo classificou o movimento como ameaça à ordem e à segurança nacional.
Dicas do professor: Como esse tema costuma ser cobrado em Vestibulares e ENEM?
1. Contexto político do Brasil na década de 1930
A Intentona Comunista costuma ser cobrada dentro do cenário político da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. As questões exigem compreender o ambiente de polarização ideológica, marcado por disputas entre movimentos de direita e de esquerda no período.
2. Influência do comunismo e da Internacional Comunista
Os vestibulares e o ENEM frequentemente exploram a influência de ideias socialistas e comunistas no Brasil. As questões avaliam compreender o papel da Internacional Comunista (Comintern) e sua tentativa de estimular movimentos revolucionários em diversos países.
3. Atuação da Aliança Nacional Libertadora (ANL)
É comum a cobrança da participação da ANL no movimento. As provas exigem reconhecer que a organização reunia diversos setores de oposição ao governo Vargas e defendia reformas políticas, sociais e econômicas.
4. Liderança de Luís Carlos Prestes
As questões frequentemente abordam o papel de Luís Carlos Prestes como principal liderança do movimento. Avaliam compreender sua trajetória política e sua adesão ao comunismo após o período do movimento tenentista.
5. Levantes militares de 1935
Os vestibulares e o ENEM exploram as revoltas ocorridas em novembro de 1935. As questões exigem identificar os levantes em cidades como Natal, Recife e Rio de Janeiro, organizados por militares e militantes ligados ao movimento.
6. Repressão do governo Vargas
As provas costumam cobrar a reação do governo diante da tentativa de revolta. Avaliam compreender a repressão imediata, as prisões de líderes e o fortalecimento de medidas de controle político.
7. Uso político do episódio para ampliar o autoritarismo
As questões frequentemente pedem análise das consequências políticas do episódio. Exigem compreender que o governo Vargas utilizou a ameaça comunista como argumento para reforçar o controle estatal e justificar medidas repressivas.
8. Relação com a implantação do Estado Novo em 1937
Os vestibulares e o ENEM relacionam a Intentona Comunista ao processo que culminou na ditadura do Estado Novo. As questões exigem compreender que o episódio contribuiu para intensificar o discurso de ameaça interna usado para legitimar o regime autoritário instaurado em 1937.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 11/03/2026
Fontes de referência do texto:
SILVA, Hélio. O Ciclo de Vargas - Volume VIII. 1935 - A Revolta Vermelha. Civilização Brasileira, 1969
Maud Chirio. A política nos quartéis: Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira. São Paulo: Zahar, 2012.
Vídeo indicado no YouTube:
- A INTENTONA COMUNISTA | EDUARDO BUENO - Canal Buenas Ideias