Ditadura Salazarista em Portugal


 

O que foi

A Ditadura Salazarista em Portugal foi um regime autoritário que marcou profundamente a história do país durante grande parte do século XX, sobretudo entre 1933 e 1974, período em que vigorou o Estado Novo, liderado inicialmente por António de Oliveira Salazar. Caracterizada pela concentração de poder, pela censura à imprensa, pela repressão política e pela defesa de valores conservadores, essa ditadura buscava manter a ordem social, o nacionalismo e a influência do Estado sobre a vida econômica, política e cultural da população. Ao mesmo tempo em que prometia estabilidade em meio às crises políticas da Primeira República Portuguesa (1910–1926), o regime limitou liberdades fundamentais e impediu a participação democrática, tornando-se um dos mais longos governos autoritários da Europa contemporânea.

 

Contexto histórico

 

A crise econômica mundial, gerada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929, fortaleceu e possibilitou a subida ao poder de governos ditatoriais e fascistas em vários países. Com propostas populistas, defendiam a ideia de que somente um governo forte e centralizador poderia tirar a nação da grave crise (desemprego, inflação alta e carestia) que enfrentavam. Foi assim na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini e na Espanha de Franco.

 

Portugal entrou num caminho muito parecido, quando António de Oliveira Salazar assumiu o poder, em 1932, como chefe de governo (Primeiro Ministro), implantando a ditadura salazarista. Seu governo durou até o ano de 1968.



As principais características do governo Salazar foram:

 

• Adoção de programas econômicos, que foram bem-sucedidos, visando à estabilização financeira do país, geração de empregos e crescimento da economia.

 

• Adoção de medidas econômicas nacionalistas.

 

• Governo de caráter fascista, através da consolidação do Estado Novo.

 

• Implantação de um forte sistema de censura, que atingiu várias áreas da sociedade (cultura, religião, comportamento, imprensa, política e etc.).

 

• Adoção de medidas antidemocráticas.

 

• Criação de instituições autoritárias, visando o cerceamento das liberdades democráticas.

 

• Repressão e perseguição política aos opositores.

 

• Controle dos meios de comunicação.



Movimentos de resistência

 

Oposição republicana e democrática: desde os primeiros anos da ditadura, antigos republicanos, liberais, socialistas e outros setores contrários ao autoritarismo organizaram críticas, manifestos e tentativas de enfraquecer o regime. Esses grupos denunciavam a falta de eleições livres, a censura e a concentração de poder nas mãos do governo.

Resistência estudantil: estudantes universitários e secundaristas tiveram papel importante na contestação ao salazarismo, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960. Em universidades como a de Coimbra e a de Lisboa, ocorreram greves, manifestações e protestos contra a repressão, a censura e a falta de liberdade política.

Movimento operário e greves: trabalhadores urbanos e rurais também resistiram ao regime por meio de greves, paralisações e reivindicações por melhores condições de vida e trabalho. Embora o Estado Novo controlasse rigidamente os sindicatos, muitos trabalhadores organizaram formas clandestinas de luta, sobretudo em setores industriais e agrícolas.

Partido Comunista Português (PCP): foi uma das principais forças de oposição organizada à ditadura. Atuando na clandestinidade durante décadas, o PCP organizou redes de resistência, imprensa ilegal, mobilização operária e ações políticas contra o regime, mesmo enfrentando forte perseguição da polícia política.

Imprensa clandestina: como a censura impedia a circulação de ideias contrárias ao governo, grupos opositores passaram a produzir jornais, panfletos e boletins clandestinos. Esses materiais ajudavam a divulgar denúncias sobre a repressão, informar a população e fortalecer a articulação entre os opositores.

Resistência intelectual e cultural: escritores, professores, artistas, jornalistas e intelectuais também desafiaram a ditadura por meio da produção cultural e crítica. Muitos utilizaram a literatura, o teatro, a música e o cinema como formas indiretas de questionar a opressão e estimular a reflexão política.

Candidaturas oposicionistas: em alguns momentos, a oposição tentou utilizar os limitados espaços eleitorais permitidos pelo regime para denunciar sua falta de democracia. Um caso marcante foi a candidatura do general Humberto Delgado à presidência, em 1958, que mobilizou grande apoio popular e expôs o caráter manipulador do sistema político salazarista.

Resistência armada e ações revolucionárias: embora menos ampla que outras formas de oposição, também houve grupos que recorreram à luta armada contra a ditadura. Entre eles, destacaram-se organizações que realizaram atentados, sabotagens e ações de enfrentamento direto ao regime, especialmente nas décadas finais do Estado Novo.

Luta anticolonial: as guerras coloniais travadas por Portugal na África, entre 1961 e 1974, também enfraqueceram a ditadura. Os movimentos de independência em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau desgastaram o regime militar, econômica e politicamente, além de aumentarem a insatisfação dentro das Forças Armadas portuguesas.

Movimento das Forças Armadas (MFA): foi o grupo militar responsável por derrubar a ditadura na Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. Formado principalmente por oficiais descontentes com a guerra colonial e com o autoritarismo do regime, o MFA conduziu o processo que encerrou décadas de ditadura em Portugal.

Resistência popular cotidiana: além das grandes organizações, houve também formas silenciosas de resistência no dia a dia, como críticas em círculos privados, apoio a perseguidos políticos, circulação de ideias proibidas e pequenas atitudes de desobediência. Essas práticas mostram que a oposição ao salazarismo não ocorreu apenas em grandes movimentos, mas também no cotidiano da sociedade portuguesa.



Como terminou o governo Salazar e da ditadura em Portugal

 

O governo de Salazar durou até o ano de 1968. Com problemas de saúde, passou o poder para outro ditador, Marcelo Caetano, que deu continuidade a ditadura salazarista até 1974. Neste ano, um movimento democrático e popular em Portugal, a Revolução dos Cravos, colocou fim a 42 anos de ditadura no país, colocando Portugal novamente na direção da democracia.

Portugueses nas ruas na comemoração da Revolução dos Cravos

Portugueses nas ruas, da cidade do Porto em 1983, na comemoração da Revolução dos Cravos.

 

 

 


 

RESUMO

 


Origem e ascensão ao poder

- António de Oliveira Salazar era professor de economia em Coimbra quando foi convidado a assumir o Ministério das Finanças em 1928, após o golpe militar de 1926 que derrubou a Primeira República.

- Em 1932 tornou-se Presidente do Conselho (equivalente a primeiro-ministro), consolidando um poder que exerceria por 36 anos.

- A Constituição de 1933 formalizou o regime autoritário denominado Estado Novo.


Características do regime:

- Regime de partido único: a União Nacional era o partido oficial, e outros partidos eram proibidos ou esvaziados.

- Forte censura à imprensa, literatura, teatro e demais expressões culturais, exercida pelo organismo conhecido como "lápis azul".

- Polícia política secreta: a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), criada em 1945, era responsável por perseguir, prender e torturar opositores.

- Corporativismo econômico inspirado em doutrinas fascistas europeias, embora Salazar mantivesse distância formal do fascismo italiano e do nazismo alemão.

- Forte influência da Igreja Católica na vida social e nas políticas públicas, especialmente na educação.


Ideologia

- O regime se sustentava em três pilares ideológicos resumidos na fórmula "Deus, Pátria e Família".

- Conservadorismo profundo, anticomunismo declarado e antiiberalismo político.

- Exaltação do mundo rural e dos valores tradicionais em contraposição à modernização urbana e industrial.

- Culto discreto da personalidade de Salazar, apresentado como um líder austero, sábio e dedicado ao interesse nacional.


Repressão e oposição

- Milhares de opositores foram presos, exilados ou submetidos a trabalhos forçados na colônia de Tarrafal, em Cabo Verde.

- Figuras como o general Humberto Delgado, que desafiou Salazar nas eleições de 1958, foram perseguidas, e Delgado acabou assassinado pela PIDE em 1965.

- O Partido Comunista Português, liderado por Álvaro Cunhal, foi a principal força de resistência organizada, atuando na clandestinidade.


As guerras coloniais

- A partir de 1961, Portugal enfrentou guerras simultâneas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, em resposta aos movimentos de libertação nacional.

- O regime recusava-se a negociar a independência das colônias, definindo-as como "províncias ultramarinas" e parte integrante do território português.

- O esforço de guerra consumia cerca de 40% do orçamento nacional e gerou enorme desgaste social e militar.


Declínio e fim

- Em 1968, Salazar sofreu um acidente vascular grave e foi substituído por Marcelo Caetano, que tentou uma abertura limitada chamada "Primavera Marcelista", sem alterar o essencial do regime.

- Em 25 de abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) realizou a Revolução dos Cravos, derrubando o Estado Novo de forma praticamente pacífica.

- Salazar morreu em 1970, dois anos após ser afastado do poder, sem nunca ter tomado conhecimento de que havia sido destituído, pois seus médicos e colaboradores ocultaram a realidade.


Legado

- O regime durou 41 anos no total (1933-1974), tornando-se uma das ditaduras mais longevas da Europa ocidental no século XX.

- Portugal chegou à democracia com atraso significativo em relação à maioria dos países europeus, herdando índices elevados de analfabetismo, subdesenvolvimento econômico e isolamento internacional.

- A memória do salazarismo permanece controversa em Portugal, com debates historiográficos e políticos que persistem até hoje.

 

 


 

DICAS DO PROFESSOR DE HISTÓRIA

 

Como este tema pode cair em questões do ENEM e vestibulares?

 

O tema da Ditadura Salazarista aparece nos exames principalmente de forma indireta e comparativa. Veja como ele costuma ser cobrado:



Abordagens mais frequentes:

- Comparação entre ditaduras do século XX: Salazar é frequentemente associado a Franco na Espanha, Mussolini na Itália e Vargas no Brasil, pedindo ao candidato que identifique semelhanças e diferenças entre regimes autoritários.
- Contexto da Guerra Fria: o regime português pode aparecer como exemplo de ditadura anticomunista tolerada pelo Ocidente durante o confronto entre EUA e URSS.
- Descolonização africana: as guerras coloniais portuguesas são um tema recorrente quando o exame aborda os processos de independência em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau nos anos 1970.
- Relação entre Igreja e Estado em regimes autoritários.


Conexões com o Brasil que os exames adoram explorar:

- Paralelismo entre o Estado Novo de Salazar (1933) e o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945): ambos usaram o mesmo nome, tinham base corporativista e anticomunista, e são um prato cheio para questões comparativas.
- A imigração portuguesa no Brasil e o impacto cultural lusitano.
- O exílio de opositores: muitos dissidentes portugueses vieram para o Brasil, assim como brasileiros foram para Portugal em diferentes períodos.


Habilidades que o ENEM costuma acionar:

- Análise de fontes primárias: charges, cartazes de propaganda, trechos de discursos ou de leis do regime, pedindo que o candidato identifique a ideologia por trás do documento.
- Interpretação de texto historiográfico sobre autoritarismo europeu.
- Relacionar o fim do salazarismo com a onda de redemocratização que também atingiu a América Latina nos anos 1970 e 1980.


Temas transversais que podem puxar Salazar

- Censura e controle da informação (conecta com liberdade de imprensa e direitos humanos).
- Papel da mulher em regimes conservadores.
- Nacionalismo e identidade nacional como instrumentos de dominação política.
- Colonialismo e neocolonialismo no século XX.


O que estudar para se sair bem:

- Saber situar o salazarismo no tempo e no espaço com precisão (1933-1974, Portugal).
- Conhecer os conceitos de corporativismo, Estado autoritário e censura política.
- Dominar o vocabulário do período: Estado Novo, PIDE, União Nacional, Revolução dos Cravos.
- Entender a Revolução dos Cravos de 1974 como parte de um movimento mais amplo de redemocratização no sul da Europa, junto com a queda da ditadura franquista na Espanha.
- Relacionar as guerras coloniais portuguesas com o contexto global da descolonização afro-asiática do pós-Segunda Guerra Mundial.


Dica geral

O ENEM raramente cobra Salazar de forma isolada. Ele quase sempre aparece como parte de uma questão maior sobre autoritarismo, fascismo, descolonização ou comparação com o Brasil. Portanto, o mais eficiente é estudar o salazarismo dentro dessas redes temáticas, e não como um bloco separado.

 

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/03/2026




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fontes:

 

https://www4.pucsp.br/neils/revista/vol.32/waldir_jose_rampinelli.pdf

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Oliveira_Salazar

 

Vídeo indicado no YouTube:


SALAZAR e a Revolução dos Cravos! - Canal reVisão


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