Quem foi
Walter Benjamin foi um filósofo, ensaísta, crítico literário, tradutor e pensador da cultura alemão, nascido em Berlim, em 15 de julho de 1892, e morto em Portbou, na Espanha, em 26 de setembro de 1940. Sua obra ocupa uma posição singular no pensamento do século XX, pois combina Filosofia, Crítica Literária, Teoria da História, Estética, Política, Teologia Judaica e análise da modernidade urbana.
Benjamin não construiu um sistema filosófico fechado, como fizeram outros pensadores da tradição alemã. Seu pensamento aparece em ensaios, fragmentos, comentários, teses, resenhas e estudos sobre literatura, arte, linguagem, história e sociedade. Essa forma de escrita corresponde ao próprio modo como ele compreendia o conhecimento: não como uma explicação total e definitiva do mundo, mas como uma constelação de ideias, imagens, ruínas e interpretações capazes de revelar tensões escondidas da vida moderna.
Sua importância está ligada, principalmente, à crítica da cultura moderna, à análise das transformações técnicas da arte, à reflexão sobre a experiência histórica e à tentativa de compreender como o capitalismo, a mercadoria, a vida urbana e os meios de comunicação alteraram a percepção humana. Benjamin tornou-se uma referência central para a Filosofia Contemporânea, a Teoria Crítica, os Estudos Culturais, a Estética, a História, a Sociologia da Cultura e a Comunicação.
Biografia
Walter Bendix Schönflies Benjamin nasceu em uma família judaica burguesa de Berlim, em 1892, durante o período do Império Alemão, que existiu entre 1871 e 1918. Seu pai, Emil Benjamin, atuava no ramo comercial e de antiguidades, enquanto sua mãe, Pauline Schönflies, vinha de uma família economicamente confortável. Esse ambiente permitiu que Benjamin tivesse acesso a uma educação refinada, marcada pelo estudo de línguas, literatura, filosofia e cultura clássica.
Durante a juventude, Benjamin estudou em instituições alemãs e envolveu-se com movimentos estudantis voltados à reforma da educação. Nesse período, aproximou-se das ideias de Gustav Wyneken, pedagogo que defendia uma renovação da vida escolar e da cultura juvenil. Essa experiência foi importante para sua formação inicial, embora Benjamin posteriormente se afastasse de algumas posições do movimento estudantil.
Entre 1912 e 1917, estudou Filosofia, Literatura Alemã e História da Arte em universidades como Freiburg, Berlim, Munique e Berna. Durante esses anos, entrou em contato com diferentes correntes intelectuais, incluindo o neokantismo, o romantismo alemão, a filosofia da linguagem e a tradição judaica. Em 1917, mudou-se para a Suíça, país neutro durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), em parte para evitar o serviço militar alemão.
Em 1919, Benjamin concluiu seu doutorado na Universidade de Berna com a tese "O conceito de crítica de arte no romantismo alemão". Nesse estudo, analisou autores como Friedrich Schlegel e Novalis, mostrando interesse pela relação entre crítica, reflexão e obra de arte. Sua formação acadêmica, portanto, esteve profundamente ligada à literatura e à filosofia alemãs dos séculos XVIII e XIX.
Na década de 1920, Benjamin tentou ingressar na carreira universitária alemã. Seu projeto de habilitação, "Origem do drama barroco alemão", foi apresentado à Universidade de Frankfurt, mas não foi aceito. Esse episódio marcou sua trajetória profissional, pois impediu sua estabilidade como professor universitário. A partir daí, Benjamin passou a viver de trabalhos como ensaísta, tradutor, crítico literário e colaborador de jornais e revistas.
Nesse período, aproximou-se de intelectuais importantes, como Theodor W. Adorno, Gershom Scholem, Bertolt Brecht e Ernst Bloch. Cada uma dessas relações influenciou aspectos distintos de sua obra. Scholem aproximou Benjamin da tradição mística judaica; Adorno o vinculou ao ambiente da Teoria Crítica; Brecht contribuiu para sua reflexão sobre marxismo, teatro, técnica e política; Bloch dialogou com ele sobre utopia, história e esperança.
Benjamin também atuou como tradutor, especialmente de obras francesas. Traduziu textos de Charles Baudelaire e Marcel Proust para o alemão. Seu contato com a literatura francesa, sobretudo com Baudelaire, foi decisivo para sua interpretação da modernidade urbana, da multidão, da mercadoria, do choque sensorial e da experiência nas grandes cidades do século XIX.
Com a ascensão do nazismo na Alemanha, em 1933, Benjamin deixou o país e passou a viver no exílio, principalmente em Paris. Sua condição de intelectual judeu, crítico do fascismo e ligado a círculos marxistas tornou sua permanência na Alemanha extremamente perigosa. O exílio agravou suas dificuldades financeiras e pessoais, tornando sua vida cada vez mais instável.
Em Paris, Benjamin trabalhou no grande projeto inacabado conhecido como "Passagens", dedicado à análise da Paris do século XIX, das galerias comerciais, da mercadoria, da moda, da arquitetura de ferro e vidro, da publicidade e das transformações da vida urbana capitalista. Esse projeto ocupou grande parte de seus últimos anos e reúne fragmentos, citações e reflexões sobre a modernidade.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), após a ocupação alemã da França em 1940, Benjamin tentou fugir para os Estados Unidos, onde esperava se reunir a outros intelectuais exilados. Com dificuldades para atravessar a fronteira entre a França e a Espanha, chegou à cidade espanhola de Portbou. Diante da ameaça de ser entregue às autoridades nazistas, morreu em 26 de setembro de 1940, em circunstâncias geralmente interpretadas como suicídio.
Principais ideias filosóficas:
Aura: Benjamin utilizou o conceito de aura para se referir à singularidade, à distância simbólica e à presença única de uma obra de arte em determinado tempo e espaço. Para ele, a obra tradicional possuía uma autoridade ligada à sua autenticidade, ao seu valor ritual e à sua existência irrepetível. Com o desenvolvimento da fotografia, do cinema e das técnicas de reprodução, essa aura teria sido abalada, pois a obra passou a circular em múltiplas cópias e a ser consumida por públicos ampliados.
Reprodutibilidade técnica: uma das ideias mais conhecidas de Benjamin está relacionada ao impacto das técnicas modernas de reprodução sobre a arte. A fotografia e o cinema modificaram a maneira como as pessoas percebiam, produziam e consumiam imagens. A arte deixou de depender exclusivamente de espaços tradicionais, como igrejas, palácios e museus, e passou a circular em jornais, cartazes, salas de cinema e meios de comunicação de massa. Essa transformação tinha um sentido ambíguo: por um lado, democratizava o acesso à arte; por outro, podia ser apropriada por regimes autoritários e pela indústria cultural.
Crítica da noção linear de progresso: Benjamin rejeitou a ideia de que a história caminha naturalmente em direção ao aperfeiçoamento moral, político e social. Para ele, a história da civilização também é a história da violência, da dominação e da destruição. Essa crítica aparece de modo intenso em suas reflexões sobre o século XX, especialmente diante do fascismo, da guerra e da crise da democracia europeia. O progresso técnico, em sua visão, não garantia emancipação humana.
História como memória dos vencidos: Benjamin defendia que a história não deveria ser contada apenas a partir dos vencedores, dos Estados, dos grandes líderes ou das classes dominantes. O historiador materialista deveria recuperar as experiências dos vencidos, dos oprimidos e daqueles que foram apagados pelas narrativas oficiais. Essa perspectiva transforma a escrita da história em uma prática crítica, voltada para revelar conflitos, derrotas e possibilidades interrompidas.
Tempo histórico descontínuo: Benjamin não via o tempo histórico como uma sequência homogênea de fatos encadeados. Para ele, determinados momentos do passado podem ser ativados no presente como imagens carregadas de sentido político. O passado não é apenas algo encerrado; ele pode reaparecer como lembrança, denúncia ou possibilidade de transformação. Essa concepção rompe com a ideia de uma história neutra, contínua e acumulativa.
Imagem dialética: a imagem dialética é uma forma de pensar o encontro entre passado e presente. Benjamin acreditava que certos objetos, ruínas, textos, cidades, mercadorias e imagens podiam condensar contradições históricas. Ao serem interpretados criticamente, revelavam estruturas sociais ocultas. A imagem dialética não é apenas uma figura visual, mas uma operação filosófica que permite compreender a modernidade por meio de seus vestígios.
Experiência e empobrecimento da experiência: Benjamin analisou a crise da experiência no mundo moderno. Para ele, a modernidade capitalista, as guerras, a urbanização acelerada, a técnica e a vida fragmentada reduziram a capacidade humana de transmitir experiências profundas entre gerações. A experiência tradicional, ligada à memória, à narração e à sabedoria acumulada, foi sendo substituída por informações rápidas, choques sensoriais e vivências isoladas.
Narrativa e transmissão da memória: em seus estudos sobre o narrador, Benjamin valorizou a narrativa como forma de transmissão de experiência. A figura do narrador tradicional, presente em sociedades marcadas pela oralidade e pela convivência comunitária, estaria em declínio no mundo moderno. A informação jornalística e a comunicação acelerada teriam enfraquecido a capacidade de contar histórias dotadas de profundidade, conselho e memória coletiva.
Crítica da mercadoria: influenciado pelo marxismo, Benjamin analisou o modo como o capitalismo transforma objetos, imagens, espaços urbanos e relações sociais em mercadorias. Seu estudo sobre Paris no século XIX mostra como vitrines, galerias comerciais, publicidade e consumo criaram novas formas de desejo e percepção. A mercadoria não é vista apenas como objeto econômico, mas como fenômeno cultural e simbólico.
Modernidade urbana: Benjamin interpretou a cidade moderna como espaço de circulação, choque, consumo, multidão e fragmentação da experiência. Paris, especialmente no século XIX, tornou-se para ele um laboratório da modernidade. A figura do flâneur, o observador que caminha pela cidade e interpreta seus sinais, expressa essa nova relação entre indivíduo, multidão e espaço urbano.
Linguagem e tradução: Benjamin atribuiu grande importância filosófica à linguagem. Para ele, a linguagem não era apenas um instrumento de comunicação prática, mas um campo de revelação, nomeação e relação com o mundo. Em sua reflexão sobre a tradução, defendeu que traduzir não significa simplesmente copiar um conteúdo de uma língua para outra, mas participar da vida histórica das línguas e revelar afinidades profundas entre elas.
Teologia e materialismo histórico: uma das características mais originais de Benjamin é a combinação entre referências teológicas judaicas e marxismo. Ele utilizou imagens messiânicas para pensar a interrupção da história dominante e a possibilidade de redenção dos vencidos. Essa dimensão não significa defesa de uma filosofia religiosa convencional, mas uso de categorias teológicas para criticar a ideia de progresso e repensar a emancipação histórica.
Crítica ao fascismo: Benjamin compreendeu o fascismo como uma forma de mobilização das massas sem transformação das estruturas sociais. Em vez de garantir direitos e emancipação, o fascismo estetizava a política, transformando a guerra, o líder, os símbolos e os espetáculos de massa em instrumentos de dominação. Sua crítica ao fascismo foi formulada em um contexto histórico marcado pela ascensão de Mussolini na Itália, em 1922, e de Hitler na Alemanha, em 1933.
Politização da arte: em oposição à estetização fascista da política, Benjamin propôs a politização da arte. Isso significa compreender a arte como campo de disputa social e política. A arte moderna, especialmente por meio do cinema, poderia colaborar para a formação crítica das massas, desde que não fosse reduzida à propaganda autoritária ou ao entretenimento alienante.
Escolas e tradições filosóficas filosóficas relacionados a ele:
Teoria Crítica: Benjamin manteve relação intelectual com pensadores ligados ao Instituto de Pesquisa Social, fundado em Frankfurt em 1923, como Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Embora sua posição fosse independente, sua obra foi incorporada ao horizonte da Teoria Crítica, especialmente pela análise da cultura, da mercadoria, da técnica, do fascismo e da modernidade capitalista.
Marxismo ocidental: Benjamin dialogou com o marxismo, mas não de modo ortodoxo. Seu interesse não se limitou à economia política ou à luta de classes em sentido estrito. Ele procurou compreender como o capitalismo atua também na cultura, na percepção, na memória, na arte e na vida cotidiana. Por isso, é frequentemente associado ao marxismo ocidental, corrente marcada pela leitura filosófica, cultural e crítica de Marx.
Romantismo alemão: o romantismo alemão foi fundamental em sua formação acadêmica. Seu doutorado sobre a crítica de arte no romantismo mostra a importância de autores como Friedrich Schlegel e Novalis. Benjamin recuperou do romantismo a valorização da crítica, da reflexão, do fragmento e da relação entre linguagem, arte e conhecimento.
Messianismo judaico: Benjamin foi profundamente influenciado por elementos da tradição judaica, especialmente por meio de sua amizade com Gershom Scholem. Essa influência aparece em sua concepção de tempo, memória, redenção e interrupção da história. O messianismo em Benjamin não deve ser entendido como doutrina religiosa simples, mas como uma forma filosófica de pensar a possibilidade de ruptura com a ordem histórica da opressão.
Materialismo histórico: Benjamin reelaborou o materialismo histórico ao criticar a visão determinista e progressiva da história. Para ele, o materialismo não deveria aceitar a ideia de que o avanço das forças produtivas levaria automaticamente à emancipação. Era necessário interromper a continuidade da dominação e recuperar a memória dos oprimidos.
Modernismo: Benjamin dialogou com as transformações estéticas e culturais do modernismo europeu. Seu interesse pela cidade, pela montagem, pelo cinema, pela fotografia, pela fragmentação da experiência e pela crise da tradição o aproxima das inquietações modernistas do início do século XX.
Surrealismo: Benjamin escreveu sobre o surrealismo e percebeu nesse movimento uma tentativa de revelar dimensões ocultas da vida cotidiana. O surrealismo interessava a Benjamin porque aproximava sonho, mercadoria, desejo, cidade e crítica social. Ele via nesse movimento um potencial de ruptura com a percepção burguesa convencional.
Crítica cultural: sua obra é uma das bases da crítica cultural contemporânea. Benjamin analisou objetos aparentemente menores, como brinquedos, fotografias, passagens comerciais, anúncios, livros infantis, coleções e cenas urbanas, mostrando que esses elementos podiam revelar estruturas profundas da sociedade moderna.
Estética contemporânea: Benjamin transformou o modo de pensar a arte ao relacioná-la com técnica, política, reprodução, recepção pública e cultura de massa. Sua estética não se limita à beleza ou à forma artística, mas envolve as condições históricas de produção, circulação e percepção das obras.
Principais obras:
"O conceito de crítica de arte no romantismo alemão": obra derivada de sua tese de doutorado, concluída em 1919. Nela, Benjamin examina a concepção romântica de crítica, especialmente em Friedrich Schlegel e Novalis. O texto mostra como a crítica pode ser compreendida como continuação reflexiva da própria obra de arte, e não apenas como julgamento externo.
"Origem do drama barroco alemão": escrita na década de 1920, essa obra foi apresentada como trabalho de habilitação universitária, mas não foi aceita pela Universidade de Frankfurt. O livro analisa o drama barroco alemão dos séculos XVI e XVII, diferenciando-o da tragédia clássica. A obra é importante por desenvolver temas como alegoria, ruína, melancolia, soberania e história.
"Rua de mão única": publicada em 1928, essa obra reúne fragmentos, aforismos, observações urbanas e reflexões sobre a vida moderna. Seu formato fragmentário revela o interesse de Benjamin por novas formas de escrita filosófica, mais próximas da montagem, da publicidade, da experiência urbana e dos sinais da modernidade.
"Infância em Berlim por volta de 1900": escrita principalmente nos anos 1930, essa obra reúne lembranças da infância de Benjamin na Berlim do início do século XX. Não se trata de simples autobiografia, mas de uma reconstrução filosófica da memória, da cidade, dos objetos, dos espaços domésticos e da formação da percepção infantil.
"A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica": escrito em versões durante a década de 1930, é um de seus ensaios mais conhecidos. Nele, Benjamin analisa como fotografia e cinema transformaram a arte, modificando conceitos como autenticidade, aura, recepção, tradição e função social da produção artística. O texto também discute a relação entre arte, política e fascismo.
"O narrador": publicado em 1936, esse ensaio discute o declínio da arte de narrar na modernidade. Benjamin relaciona esse processo à crise da experiência, à expansão da informação, à transformação das formas de comunicação e ao enfraquecimento da transmissão coletiva da sabedoria. O texto é uma referência central para os estudos sobre literatura, memória e modernidade.
"Sobre alguns temas em Baudelaire": escrito em 1939, esse ensaio analisa a poesia de Charles Baudelaire em relação à modernidade urbana, ao choque, à multidão e à experiência na cidade. Benjamin interpreta Baudelaire como poeta da Paris moderna, marcada pela mercadoria, pela circulação, pela solidão urbana e pela sensibilidade fragmentada.
"Teses sobre o conceito de história": redigidas em 1940, pouco antes de sua morte, essas teses condensam sua crítica à ideia de progresso e sua defesa de uma história voltada à memória dos vencidos. O texto apresenta algumas das imagens mais fortes de sua filosofia, como a crítica ao historicismo e a figura do anjo da história.
"Passagens": projeto inacabado desenvolvido principalmente entre 1927 e 1940. A obra reúne fragmentos, citações e comentários sobre Paris no século XIX. Benjamin investiga galerias comerciais, moda, mercadoria, arquitetura, publicidade, flânerie, colecionismo e transformações da vida urbana. Embora incompleto, tornou-se uma das obras mais influentes para a compreensão filosófica da modernidade.
"A tarefa do tradutor": publicado originalmente em 1923 como prefácio à tradução de poemas de Baudelaire, esse ensaio apresenta sua concepção filosófica da tradução. Benjamin argumenta que a tradução não deve ser reduzida à transmissão literal de sentido, pois participa da sobrevivência histórica das obras e da relação entre as línguas.
Áreas de interesse de Walter Benjamin:
Teoria Literária: Walter Benjamin dedicou grande parte de sua produção intelectual ao estudo da literatura, especialmente da crítica literária, da tradução, da narrativa e das formas modernas de escrita. Para ele, a literatura não era apenas uma expressão artística, mas também uma forma de conhecimento histórico e filosófico. Seus estudos sobre autores como Charles Baudelaire, Franz Kafka, Marcel Proust e os românticos alemães mostram seu interesse em compreender como os textos literários revelam transformações da sensibilidade, da linguagem e da sociedade.
Filosofia da História: Benjamin questionou a ideia de que a história avança de maneira contínua e progressiva. Em sua visão, a história não deveria ser narrada apenas do ponto de vista dos vencedores, dos Estados ou das classes dominantes, mas também a partir da memória dos vencidos e oprimidos. Essa preocupação aparece especialmente em suas reflexões de 1940 sobre o conceito de história, nas quais ele critica o progresso automático e defende uma interpretação histórica voltada para as rupturas, as catástrofes e as possibilidades interrompidas do passado.
Estética: a Estética foi uma das áreas centrais de sua obra, principalmente por meio da análise da arte, da percepção e da experiência sensível. Benjamin estudou como a obra de arte se transforma de acordo com as condições históricas de produção e recepção. Seu conceito de aura, por exemplo, procura explicar a singularidade da obra de arte tradicional, enquanto sua reflexão sobre fotografia e cinema mostra como as técnicas modernas alteraram a forma de ver, sentir e interpretar as imagens.
Filosofia da Tecnologia: Benjamin se interessou pelos efeitos da técnica sobre a cultura, a arte e a percepção humana. Ele não via a tecnologia apenas como instrumento neutro, mas como uma força capaz de modificar relações sociais e formas de experiência. Ao analisar a fotografia, o cinema, a imprensa, a reprodução técnica e os meios de comunicação de massa, Benjamin mostrou que a tecnologia poderia ampliar o acesso à cultura, mas também poderia ser usada para propaganda, controle político e manipulação das massas.
Filosofia da Linguagem: Benjamin atribuiu grande importância à linguagem como forma de relação entre o ser humano e o mundo. Para ele, a linguagem não era apenas um meio prático de comunicação, mas também um campo de expressão, nomeação e revelação de sentido. Em textos sobre tradução e linguagem, defendeu que cada língua possui uma relação própria com a realidade, e que a tradução não consiste apenas em substituir palavras, mas em aproximar diferentes formas históricas de significação.
Cultura de Massa: Benjamin foi um dos primeiros pensadores a analisar profundamente a cultura produzida para grandes públicos, especialmente no contexto do cinema, da fotografia e das artes plásticas. Ele percebeu que a reprodução técnica das imagens modificava a relação entre público e obra de arte. O cinema, por exemplo, permitia uma nova experiência coletiva e poderia ter função crítica e educativa, mas também poderia ser usado por regimes autoritários para produzir espetáculos políticos e mobilizar emocionalmente as massas.
Epistemologia: embora Benjamin não tenha elaborado uma teoria sistemática do conhecimento, sua obra apresenta reflexões importantes sobre como o conhecimento é produzido. Ele valorizava formas fragmentárias, ensaísticas e não lineares de pensamento, recusando a ideia de que conhecer significa apenas organizar conceitos de modo rígido e abstrato. Para ele, objetos, imagens, ruínas, textos, lembranças e detalhes aparentemente secundários podiam revelar estruturas profundas da realidade histórica.
Materialismo Histórico: Benjamin dialogou com o Materialismo Histórico marxista, mas de forma original e crítica. Ele compartilhou a preocupação com as relações entre capitalismo, dominação social, mercadoria e luta histórica, porém rejeitou interpretações deterministas que viam a emancipação como resultado inevitável do progresso econômico. Em sua leitura, o Materialismo Histórico deveria recuperar a memória dos oprimidos, criticar a ideia de progresso automático e interpretar a cultura como parte fundamental das relações de poder.
Legado filosófico
O legado filosófico de Walter Benjamin está na originalidade com que articulou Filosofia, História, Literatura, Arte, Política e Teologia. Seu pensamento não se enquadra facilmente em uma única escola, pois combina elementos do marxismo, do romantismo alemão, da crítica cultural, da mística judaica e da análise da modernidade. Essa combinação tornou sua obra uma das mais influentes e difíceis do século XX.
Na Filosofia da História, Benjamin deixou uma crítica decisiva à ideia de progresso contínuo. Ao afirmar que a história deve considerar os vencidos e não apenas os vencedores, ele contribuiu para novas formas de pensar a memória, a violência, a opressão e a responsabilidade do presente diante do passado. Essa perspectiva influenciou historiadores, filósofos políticos, teóricos da memória e estudiosos das catástrofes modernas.
Na Estética, sua reflexão sobre a reprodutibilidade técnica transformou a compreensão da arte moderna. Benjamin percebeu que fotografia e cinema não eram apenas novos instrumentos artísticos, mas forças capazes de alterar a percepção humana, a circulação das imagens e a relação entre arte e sociedade. Por isso, sua obra continua central para estudos sobre cinema, fotografia, mídia, publicidade, cultura de massa e tecnologias digitais.
Na crítica da modernidade, Benjamin mostrou que os objetos cotidianos podem revelar estruturas históricas profundas. Galerias comerciais, vitrines, brinquedos, passagens urbanas, livros infantis, ruínas, fotografias e anúncios tornam-se, em sua obra, documentos filosóficos da sociedade capitalista. Essa atenção ao detalhe influenciou os Estudos Culturais, a Sociologia Urbana e a Antropologia da Vida Cotidiana.
Na Teoria Crítica, Benjamin ocupa uma posição particular. Ele compartilhou com Adorno e Horkheimer a preocupação com dominação, cultura e capitalismo, mas manteve uma escrita mais fragmentária, imagética e experimental. Seu pensamento ampliou o campo da crítica social ao incluir memória, experiência, linguagem, técnica, literatura e percepção como dimensões fundamentais da vida histórica.
Seu legado também está ligado ao modo de escrever filosofia. Benjamin demonstrou que o pensamento filosófico pode aparecer em fragmentos, ensaios, citações, montagens e imagens conceituais. Essa forma de escrita não é simples recurso estilístico, mas parte essencial de sua concepção de conhecimento. Para ele, compreender a modernidade exigia uma forma de pensamento capaz de reunir restos, sinais, objetos e contradições.
Walter Benjamin tornou-se, portanto, um dos intérpretes mais importantes da modernidade. Sua obra permite compreender como o século XIX e o século XX transformaram a arte, a cidade, a memória, a experiência, a política e a percepção humana. Mesmo tendo vivido em condições de exílio, instabilidade e perseguição, deixou uma produção intelectual decisiva para a Filosofia Contemporânea e para as Ciências Humanas.
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Walter Benjamin: importante filósofo do século XX. |
Publicado em 13/08/2021 e atualizado em 01/06/2026
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Fontes:
https://fr.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
https://www.britannica.com/biography/Walter-Benjamin
MISSAC, Pierre. Passagem de Walter Benjamim. São Paulo: Iluminuras, 2013.
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