O que são as escolas de samba?
As escolas de samba são associações culturais, musicais, comunitárias e carnavalescas que se organizaram no Brasil a partir das primeiras décadas do século XX. Elas surgiram como expressão coletiva de grupos populares urbanos, especialmente ligados à população negra, aos trabalhadores pobres, aos moradores de bairros periféricos, aos sambistas e às comunidades que preservavam tradições musicais de origem africana e afro-brasileira.
Embora sejam conhecidas principalmente pelos desfiles de Carnaval, as escolas de samba não se limitam à apresentação anual na avenida. Elas envolvem música, dança, artes visuais, costura, marcenaria, escultura, pesquisa histórica, organização comunitária, transmissão de saberes e criação de identidades coletivas. Cada escola reúne componentes, ritmistas, passistas, compositores, carnavalescos, artesãos, dirigentes e moradores que participam de um processo cultural contínuo.
Origens do samba urbano no Brasil
A história das escolas de samba está diretamente ligada à formação do samba urbano no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e o início do século XX. Após a abolição da escravidão, em 1888, milhares de negros libertos e seus descendentes passaram a viver em condições sociais precárias, enfrentando exclusão econômica, racismo e falta de acesso pleno à cidadania.
No Rio de Janeiro, então capital federal, muitas comunidades negras se concentraram em cortiços, morros e bairros populares. Um dos espaços mais importantes foi a região conhecida como Pequena África, localizada nas áreas da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e Praça Onze. Ali viviam muitos migrantes baianos, trabalhadores portuários, músicos, religiosos de matriz africana e famílias que preservavam práticas culturais como o jongo, o batuque, o maxixe, o candomblé e as rodas de samba.
Nesse ambiente, o samba se desenvolveu como música urbana, combinando elementos africanos, afro-brasileiros e populares. As festas nas casas das chamadas tias baianas, como Tia Ciata, tiveram papel essencial na circulação de músicos, compositores e ritmos. No começo do século XX, o samba ainda era muitas vezes perseguido pelas autoridades policiais, pois era associado às camadas pobres, à boemia e às práticas culturais negras marginalizadas.
A Pequena África e a Praça Onze
A Pequena África foi um dos principais berços do samba carioca. No início do século XX, a região reunia tradições religiosas, festas populares, blocos carnavalescos, ranchos e rodas musicais. A Praça Onze, em particular, tornou-se um centro simbólico da cultura negra e popular no Rio de Janeiro. Era um espaço de encontro, circulação cultural e sociabilidade.
Ali se desenvolveu uma importante vida carnavalesca. Antes da consolidação das escolas de samba, o Carnaval carioca era marcado por diferentes formas de organização: os cordões, os ranchos, os blocos, os grupos de foliões e as grandes sociedades carnavalescas. Esses grupos tinham estilos distintos, com fantasias, músicas, instrumentos e formas próprias de desfilar.
Os ranchos carnavalescos, muito populares no final do século XIX e início do século XX, influenciaram diretamente as escolas de samba. Eles costumavam apresentar cortejos organizados, com porta-estandarte, enredo, personagens e preocupação estética. As escolas de samba herdaram parte dessa estrutura, mas deram a ela uma identidade própria, centrada no samba, na bateria, no canto coletivo e na presença das comunidades populares.
O contexto social da Primeira República
As primeiras escolas de samba surgiram durante a Primeira República, período que se estendeu de 1889 a 1930. Esse contexto foi marcado por profundas desigualdades sociais, concentração de poder nas elites agrárias, reformas urbanas excludentes e forte repressão aos grupos populares. No Rio de Janeiro, as reformas realizadas no início do século XX, especialmente durante a gestão do prefeito Pereira Passos, entre 1902 e 1906, expulsaram muitos moradores pobres do centro da cidade.
A demolição de cortiços e a modernização urbana inspirada em modelos europeus contribuíram para a ocupação de morros e subúrbios. Esses espaços passaram a concentrar parte importante da população trabalhadora e negra. Foi nesses territórios, muitas vezes marginalizados pelo poder público, que se fortaleceram laços comunitários e práticas culturais que dariam origem às escolas de samba.
As escolas de samba nasceram, portanto, em meio à exclusão social. Elas representavam uma forma de afirmação cultural diante de uma sociedade que negava espaço político, econômico e simbólico aos setores populares. Ao organizar um desfile, compor sambas e representar sua comunidade, os sambistas criavam uma forma própria de participação na vida pública da cidade.
O surgimento da Deixa Falar
A primeira escola de samba reconhecida pela tradição carnavalesca foi a Deixa Falar, fundada em 12 de agosto de 1928, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. O grupo foi formado por sambistas como Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide, Brancura e outros nomes ligados ao samba urbano carioca. A Deixa Falar é considerada fundamental porque ajudou a consolidar um novo tipo de samba, mais adequado ao desfile em cortejo.
O samba do Estácio tinha marcação rítmica mais cadenciada e favorecia o deslocamento dos foliões pelas ruas. Diferia do samba mais próximo do maxixe, comum em décadas anteriores, pois apresentava maior regularidade para acompanhar o passo coletivo. Esse novo padrão rítmico tornou-se decisivo para o desenvolvimento dos desfiles das escolas de samba.
O nome “escola de samba” teria ligação com o fato de a Deixa Falar se reunir perto de uma escola normal no Estácio. A expressão indicava, de forma simbólica, que ali se “ensinava” samba. Com o tempo, o termo passou a designar as agremiações carnavalescas organizadas em torno do samba, da bateria, do enredo e da comunidade.
As primeiras agremiações
Na década de 1920 e no início da década de 1930, surgiram algumas das escolas de samba mais importantes da história brasileira. Entre elas, destacam-se a Estação Primeira de Mangueira, fundada em 1928, a Portela, cujas origens remontam ao bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz e à década de 1920, e a Unidos da Tijuca, fundada em 1931. Também se consolidaram outras agremiações que ajudaram a formar a tradição dos desfiles cariocas.
A Mangueira tornou-se uma das mais emblemáticas escolas de samba do Brasil. Ligada ao Morro da Mangueira, construiu uma identidade marcada por suas cores verde e rosa, por sua forte tradição comunitária e por compositores como Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho. Desde cedo, a escola estabeleceu uma relação profunda entre samba, território e memória coletiva.
A Portela, ligada a Oswaldo Cruz e Madureira, também desempenhou papel central. A escola ficou conhecida por sua elegância, por seus sambas de grande qualidade e por nomes como Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Monarco, Candeia e Paulinho da Viola. Sua trajetória demonstra a importância dos subúrbios cariocas na formação do samba e do Carnaval brasileiro.
Os primeiros concursos oficiais
Os desfiles das escolas de samba começaram a ganhar formato competitivo nos anos 1930. Em 1932, ocorreu um dos primeiros concursos de escolas de samba no Rio de Janeiro, organizado pelo jornal “Mundo Sportivo”, dirigido por Mário Filho. Esse evento foi importante porque ajudou a transformar os desfiles em espetáculo público reconhecido e avaliado por critérios específicos.
A partir de 1935, durante o governo de Getúlio Vargas, a Prefeitura do Rio de Janeiro passou a reconhecer oficialmente os desfiles das escolas de samba. Esse reconhecimento teve grande importância para a institucionalização das agremiações. As escolas passaram a dialogar com o Estado, receber apoio financeiro e obedecer a normas mais definidas.
Esse processo trouxe benefícios e tensões. Por um lado, deu maior visibilidade às escolas de samba e garantiu condições mínimas para a realização dos desfiles. Por outro, aumentou o controle institucional sobre manifestações culturais populares que antes tinham maior espontaneidade. As escolas precisaram adaptar seus temas, sua organização e sua linguagem às expectativas oficiais.
O Estado Novo e a valorização do nacional
Durante o Estado Novo, entre 1937 e 1945, o governo de Getúlio Vargas buscou construir uma identidade nacional centralizada, valorizando símbolos populares considerados representativos do Brasil. O samba passou a ser incorporado ao discurso oficial de brasilidade, embora sua origem negra e popular muitas vezes fosse suavizada ou reinterpretada pelas instituições do Estado.
Nesse período, as escolas de samba foram estimuladas a apresentar enredos ligados à história nacional, aos heróis oficiais, às datas cívicas e à ideia de unidade brasileira. Temas considerados inadequados ou críticos podiam sofrer restrições. A cultura popular, portanto, foi valorizada, mas dentro de limites definidos pelo poder público.
A relação entre samba e nacionalismo foi contraditória. O reconhecimento do samba contribuiu para sua expansão como símbolo brasileiro. Contudo, também houve tentativas de controlar suas formas de expressão e de enquadrar as escolas em uma narrativa oficial. Mesmo assim, os sambistas preservaram espaços de criatividade, crítica indireta e afirmação comunitária.
A estrutura tradicional das escolas de samba
Ao longo das décadas de 1930, 1940 e 1950, as escolas de samba consolidaram elementos que se tornaram tradicionais nos desfiles. Entre eles estavam a bateria, o samba-enredo, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, a comissão de frente, as alas, as fantasias, os carros alegóricos e a apresentação de um enredo.
A bateria tornou-se o coração rítmico da escola. Formada por instrumentos como surdo, caixa, repinique, tamborim, cuíca, agogô, chocalho e pandeiro, ela marca o andamento do desfile e sustenta o canto dos componentes. Cada escola desenvolveu uma identidade própria de bateria, com bossas, paradinhas e formas específicas de condução rítmica.
O samba-enredo passou a ser a composição musical feita especialmente para narrar ou sintetizar o tema escolhido pela escola. Ele deveria ser cantado durante todo o desfile, mobilizando componentes e público. Com o tempo, o samba-enredo tornou-se um gênero musical importante, reunindo poesia, narrativa histórica, exaltação cultural e linguagem popular.
A importância do mestre-sala e da porta-bandeira
O casal de mestre-sala e porta-bandeira é uma das figuras mais tradicionais das escolas de samba. A porta-bandeira conduz o pavilhão da escola, símbolo máximo da agremiação. O mestre-sala a acompanha em movimentos de proteção, elegância e reverência. Essa dupla tem origem em tradições carnavalescas anteriores, especialmente nos ranchos.
Nos desfiles, o casal representa a honra e a identidade da escola. Sua apresentação exige técnica, postura, leveza e respeito ao pavilhão. Ao contrário de outros componentes, o mestre-sala e a porta-bandeira não sambam de maneira comum, mas executam uma dança cerimonial própria.
A presença do casal demonstra que as escolas de samba são mais do que grupos musicais. Elas possuem símbolos, rituais e códigos de pertencimento. O pavilhão não é apenas uma bandeira decorativa, mas um emblema de memória, orgulho e continuidade histórica.
As escolas de samba e as comunidades
Desde sua origem, as escolas de samba estiveram ligadas às comunidades. Muitas nasceram em morros, subúrbios e bairros populares, funcionando como espaços de sociabilidade, lazer, solidariedade e organização coletiva. A quadra da escola tornou-se um local de encontro, ensaio, festa, decisão política interna e transmissão cultural.
As escolas de samba também ofereceram reconhecimento social a grupos que eram frequentemente marginalizados. Compositores, ritmistas, costureiras, carpinteiros, passistas e moradores comuns encontravam nelas uma forma de pertencimento e prestígio. A participação em uma escola permitia afirmar identidades locais, familiares e culturais.
Essa dimensão comunitária é uma das características mais importantes da história das escolas de samba. Mesmo quando os desfiles se tornaram grandes espetáculos, a base comunitária permaneceu como elemento fundamental. As escolas dependem do trabalho de muitas pessoas que, ao longo do ano, participam da construção simbólica e material do Carnaval.
A expansão dos desfiles no pós-guerra
Após a Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945, os desfiles das escolas de samba ganharam maior popularidade. O crescimento urbano, a expansão do rádio, a circulação de discos e o fortalecimento da indústria cultural ampliaram a presença do samba na vida brasileira. As escolas passaram a ser mais conhecidas fora de suas comunidades de origem.
Nas décadas de 1940 e 1950, a Praça Onze continuou a ter grande valor simbólico, mas transformações urbanas alteraram o espaço dos desfiles. A abertura da Avenida Presidente Vargas, durante a década de 1940, modificou profundamente a região. A destruição de parte da antiga Praça Onze foi sentida como perda importante para a memória do samba.
Mesmo com essas mudanças, as escolas de samba se adaptaram. Os desfiles passaram por diferentes espaços até se consolidarem em grandes avenidas. A capacidade de adaptação foi uma marca constante das agremiações: elas sobreviveram à repressão, às reformas urbanas, às mudanças políticas e à crescente profissionalização do Carnaval.
A ascensão dos carnavalescos
A partir da segunda metade do século XX, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960, cresceu a importância dos carnavalescos. Esses profissionais passaram a organizar visualmente o desfile, articulando enredo, fantasias, alegorias, cores, cenografia e linguagem estética. O desfile tornou-se cada vez mais elaborado do ponto de vista artístico.
Antes da ascensão dos carnavalescos, muitos elementos eram feitos de maneira mais coletiva e artesanal, com forte improvisação comunitária. Com o aumento da competição e da visibilidade, tornou-se necessário planejar o desfile com maior unidade visual e narrativa. O carnavalesco passou a atuar como criador artístico responsável por dar forma ao enredo.
Entre os nomes mais importantes desse processo está Fernando Pamplona, ligado ao Salgueiro. Ele ajudou a renovar os enredos e a estética dos desfiles, valorizando temas afro-brasileiros e personagens negros da história. Seu trabalho influenciou gerações de artistas e contribuiu para transformar o desfile em uma linguagem visual sofisticada.
A televisão e a transformação do espetáculo
A partir das décadas de 1960 e 1970, a televisão passou a ter grande influência sobre os desfiles das escolas de samba. A transmissão televisiva ampliou enormemente o público do Carnaval, levando as imagens das escolas para diferentes regiões do Brasil. Com isso, os desfiles se tornaram eventos nacionais, acompanhados por milhões de pessoas.
A presença da televisão modificou a estética e a organização dos desfiles. Fantasias, carros alegóricos e coreografias passaram a ser pensados também para a imagem transmitida. A preocupação com impacto visual aumentou, e as escolas investiram cada vez mais em grandiosidade, cores, movimento e efeitos cênicos.
Essa transformação gerou debates. Para alguns sambistas, a televisão ajudou a valorizar e divulgar as escolas. Para outros, contribuiu para afastar o desfile de suas bases populares, criando exigências financeiras cada vez maiores. A tensão entre tradição comunitária e espetáculo midiático tornou-se uma questão permanente na história das escolas de samba.
A construção do Sambódromo
Um dos momentos mais importantes da história dos desfiles foi a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em 1984. Projetado por Oscar Niemeyer durante o governo de Leonel Brizola no estado do Rio de Janeiro, o Sambódromo criou um espaço fixo para os desfiles das escolas de samba.
Antes disso, os desfiles ocorriam em estruturas montadas temporariamente. Com o Sambódromo, o Carnaval carioca passou a contar com uma passarela permanente, arquibancadas e áreas específicas para jurados, imprensa e público. A construção simbolizou o reconhecimento institucional do desfile como grande espetáculo cultural.
Ao mesmo tempo, o Sambódromo alterou a relação entre escola, cidade e público. O desfile tornou-se mais controlado, delimitado e organizado. A avenida passou a impor padrões de tempo, deslocamento, dimensão visual e competição. A partir de então, as escolas precisaram adaptar sua produção ao espaço da Marquês de Sapucaí.
As escolas de samba em São Paulo
Embora o Rio de Janeiro tenha sido o principal centro de formação das escolas de samba, São Paulo também desenvolveu uma tradição importante. O samba paulista tem raízes em práticas afro-brasileiras do interior, em festas religiosas, no samba de bumbo, nas comunidades negras urbanas e nos bairros populares da capital.
As escolas de samba paulistanas começaram a se organizar com mais força na primeira metade do século XX. A Lavapés, fundada em 1937, é frequentemente lembrada como uma das mais antigas escolas de samba de São Paulo. Depois surgiram agremiações como Nenê de Vila Matilde, Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, Unidos do Peruche, Mocidade Alegre, Rosas de Ouro, Gaviões da Fiel, Mancha Verde e muitas outras.
O Carnaval paulistano tem características próprias. Durante muito tempo, enfrentou menor apoio oficial e menor visibilidade nacional em comparação ao Rio de Janeiro. Mesmo assim, consolidou-se como uma das maiores manifestações carnavalescas do país. O Sambódromo do Anhembi, inaugurado em 1991, contribuiu para a organização e projeção dos desfiles de São Paulo.
As escolas de samba em outras regiões do Brasil
As escolas de samba também se espalharam por outras regiões do Brasil. Em cidades como Porto Alegre, Florianópolis, Vitória, Belo Horizonte, Manaus, Belém, Recife, Santos e Curitiba, surgiram agremiações que adaptaram a tradição das escolas de samba às realidades locais. Cada cidade desenvolveu formas próprias de organização, influência musical e relação com o Carnaval.
Em Porto Alegre, por exemplo, o Carnaval de escolas de samba tem forte presença comunitária e trajetória ligada aos bairros populares. Em Florianópolis, as escolas dialogam com tradições locais e com a cultura das comunidades urbanas. Em Vitória, os desfiles se consolidaram como importante manifestação cultural capixaba.
A expansão nacional das escolas de samba mostra que elas não são fenômeno exclusivamente carioca, embora tenham origem e maior projeção no Rio de Janeiro. Elas se tornaram uma forma brasileira de organização cultural, capaz de incorporar histórias regionais, identidades locais e diferentes expressões da cultura popular.
Samba-enredo e narrativa histórica
O samba-enredo é um dos elementos centrais das escolas de samba. Ele funciona como síntese poética e musical do tema apresentado no desfile. Por meio dele, a escola narra acontecimentos, exalta personagens, apresenta críticas sociais, celebra culturas e organiza a memória coletiva.
Muitos sambas-enredo tiveram papel importante na divulgação de temas históricos. Ao longo do século XX, as escolas apresentaram enredos sobre a Independência do Brasil de 1822, a abolição da escravidão de 1888, a chegada da Corte portuguesa em 1808, a formação do povo brasileiro, a cultura indígena, as civilizações africanas, as religiões afro-brasileiras, a literatura, a ciência e as lutas populares.
Essa dimensão narrativa fez das escolas de samba uma espécie de espaço público de história cantada. Nem sempre os enredos seguem rigor acadêmico, pois trabalham com metáforas, símbolos e escolhas poéticas. Ainda assim, eles têm grande capacidade de despertar interesse por temas históricos e de disputar interpretações sobre o passado.
As escolas de samba e a memória afro-brasileira
A contribuição das escolas de samba para a valorização da memória afro-brasileira é profunda. Desde suas origens, elas foram espaços de criação cultural negra, ainda que nem sempre reconhecidas oficialmente dessa forma. Ritmos, danças, religiosidades, formas de organização comunitária e referências africanas estão presentes em sua formação.
Ao longo do tempo, muitas escolas trouxeram para a avenida temas ligados à África, à diáspora africana, aos quilombos, aos orixás, à capoeira, ao candomblé, à umbanda, à resistência negra e à denúncia do racismo. Essas representações ajudaram a questionar narrativas históricas que silenciavam a participação dos negros na formação do Brasil.
A avenida tornou-se, em muitos momentos, um espaço de reparação simbólica. Personagens antes marginalizados foram transformados em protagonistas de grandes desfiles. Comunidades historicamente excluídas passaram a ocupar o centro da cena cultural nacional, ainda que essa visibilidade não tenha eliminado as desigualdades sociais e raciais.
A profissionalização do Carnaval
A partir das décadas de 1970, 1980 e 1990, o Carnaval das escolas de samba passou por forte profissionalização. A produção dos desfiles tornou-se mais complexa, cara e técnica. Barracões passaram a empregar escultores, ferreiros, pintores, aderecistas, costureiras, iluminadores, coreógrafos e especialistas em efeitos visuais.
A figura do carnavalesco ganhou ainda mais destaque. Nomes como Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães, Renato Lage, Max Lopes, Maria Augusta, Laíla, Paulo Barros e outros ajudaram a transformar os desfiles em espetáculos de grande impacto artístico. O Carnaval passou a dialogar com teatro, ópera, artes plásticas, arquitetura efêmera e cultura de massa.
A profissionalização aumentou a qualidade técnica dos desfiles, mas também elevou os custos. Muitas escolas passaram a depender de patrocínios, contratos, apoio público, direitos de transmissão e receitas comerciais. Essa mudança criou desafios para agremiações menores e intensificou desigualdades dentro do próprio universo carnavalesco.
As escolas de samba durante a ditadura militar
Durante a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, as escolas de samba conviveram com censura, controle político e ambiguidades. Alguns enredos adotaram temas históricos ou patrióticos, em sintonia com o discurso oficial. Outros, porém, utilizaram metáforas, alegorias e referências indiretas para expressar críticas sociais e políticas.
O Carnaval não foi um espaço completamente livre, mas também não foi apenas instrumento de propaganda. As escolas desenvolveram formas próprias de linguagem simbólica. Por meio de fantasias, sambas e alegorias, podiam sugerir tensões sociais, desigualdades, violência, opressão e desejo de liberdade.
A partir do final da década de 1970 e início da década de 1980, com o processo de abertura política, cresceram os enredos de crítica social. As escolas passaram a abordar com mais força temas como pobreza, exclusão, autoritarismo, desigualdade e direitos populares. O Carnaval acompanhou, à sua maneira, a redemocratização do país.
As ligas e a organização dos desfiles
Com o crescimento dos desfiles, tornou-se necessária a criação de entidades organizadoras. No Rio de Janeiro, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, conhecida como LIESA, foi fundada em 1984. Ela passou a organizar os desfiles do Grupo Especial, negociando contratos, regras, julgamentos e aspectos comerciais.
Em São Paulo, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo passou a exercer função semelhante. Essas entidades profissionalizaram a administração dos desfiles e fortaleceram o diálogo com o poder público, emissoras de televisão e patrocinadores.
A existência das ligas também gerou debates sobre poder, transparência, critérios de julgamento e concentração de recursos. Como o Carnaval envolve competição, prestígio e dinheiro, as decisões administrativas têm grande impacto sobre o destino das escolas.
O sistema de julgamento
Os desfiles das escolas de samba são avaliados por quesitos específicos, que podem variar conforme o regulamento de cada cidade e período. No Rio de Janeiro, os quesitos tradicionais incluem bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira.
O julgamento busca avaliar a qualidade técnica e artística do desfile. A bateria é observada pela precisão rítmica e sustentação musical. A harmonia avalia o canto coletivo e a integração entre escola e samba. A evolução considera o deslocamento dos componentes. O enredo observa a clareza da narrativa. Alegorias, fantasias e comissão de frente são avaliadas por sua realização estética e adequação ao tema.
Esse sistema transformou o desfile em competição rigorosa. Pequenos erros podem alterar resultados. Por isso, as escolas trabalham durante meses para reduzir falhas, treinar componentes e garantir que cada setor cumpra sua função na avenida.
A relação entre tradição e inovação
A história das escolas de samba é marcada pela tensão entre tradição e inovação. Elementos como bateria, samba-enredo, pavilhão, baianas, mestre-sala e porta-bandeira são vistos como pilares da tradição. Ao mesmo tempo, as escolas precisam inovar para surpreender jurados e público.
Nas últimas décadas, cresceram as comissões de frente teatralizadas, os carros alegóricos com movimentos complexos, os efeitos especiais, as coreografias e as soluções cenográficas. Essas inovações ampliaram o impacto visual dos desfiles, mas também provocaram críticas de setores que temem a perda da centralidade do samba.
Essa tensão não é necessariamente negativa. As escolas de samba sempre foram espaços de mudança. Desde suas origens, incorporaram influências dos ranchos, dos blocos, do teatro, das artes visuais e da tecnologia. O desafio está em equilibrar experimentação estética com respeito aos fundamentos culturais que dão sentido à escola.
Compositores e velha guarda
Os compositores ocupam lugar central na história das escolas de samba. São eles que criam os sambas-enredo, sambas de terreiro, partido-alto e outras formas musicais associadas às agremiações. Muitos compositores tornaram-se referências da música brasileira, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Silas de Oliveira, Candeia, Monarco, Dona Ivone Lara, Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
A velha guarda das escolas também tem papel essencial. Ela reúne sambistas antigos, fundadores, compositores, pastoras, ritmistas e componentes que preservam a memória da agremiação. A velha guarda representa continuidade, experiência e respeito à história.
Em muitas escolas, a velha guarda funciona como referência moral e cultural. Sua presença lembra que a escola não é apenas uma instituição competitiva, mas uma comunidade com passado, símbolos e vínculos afetivos. Sem os compositores e a velha guarda, a escola perderia parte fundamental de sua identidade.
Enredos de crítica social
Os enredos de crítica social ganharam grande destaque especialmente a partir das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Escolas passaram a abordar temas como fome, corrupção, racismo, intolerância religiosa, destruição ambiental, violência urbana e desigualdade. Esses temas ampliaram o papel das escolas como intérpretes da sociedade brasileira.
Desfiles como “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, da Beija-Flor, em 1989, tornaram-se referências de crítica social. Em 2018, a Paraíso do Tuiuti apresentou “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, discutindo os limites da abolição de 1888 e a permanência de formas de exploração no Brasil. Em 2019, a Estação Primeira de Mangueira apresentou “História pra ninar gente grande”, questionando a história oficial e valorizando sujeitos populares.
Esses enredos demonstram que as escolas de samba não apenas celebram o passado. Elas também reinterpretam a história, denunciam injustiças e propõem novas formas de olhar para o Brasil. A avenida torna-se, nesses casos, uma arena de memória e crítica.
As escolas de samba no século XXI
No século XXI, as escolas de samba continuam a ocupar lugar central na cultura brasileira, mas enfrentam novos desafios. A competição por recursos, a pressão por espetáculos cada vez mais grandiosos, as mudanças nos meios de comunicação e as transformações sociais das comunidades alteram o cotidiano das agremiações.
A internet e as redes sociais ampliaram a divulgação dos desfiles, dos ensaios, das disputas de samba-enredo e dos bastidores. Torcedores acompanham decisões, comentam fantasias, defendem escolas e participam de debates em tempo real. O Carnaval tornou-se também um fenômeno digital.
Ao mesmo tempo, as escolas têm retomado com força temas ligados à identidade, à memória e à crítica social. Enredos sobre população negra, povos indígenas, mulheres, religiosidade afro-brasileira, periferias e desigualdades têm marcado desfiles recentes. Essa tendência mostra que as escolas seguem atentas às disputas culturais do Brasil contemporâneo.
Patrimônio cultural e reconhecimento
As escolas de samba são reconhecidas como parte essencial do patrimônio cultural brasileiro. Elas reúnem saberes musicais, visuais, corporais e comunitários transmitidos entre gerações. Seu valor não está apenas no espetáculo final, mas em todo o processo de criação e participação coletiva.
O samba, como gênero musical e prática cultural, recebeu reconhecimento patrimonial em diferentes instâncias. Em 2007, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconheceu as matrizes do samba no Rio de Janeiro como patrimônio cultural do Brasil, incluindo o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo.
Esse reconhecimento reforça a importância histórica das escolas de samba. Elas preservam e renovam tradições populares, valorizam memórias negras e constroem formas de arte coletiva que combinam música, dança, narrativa, religiosidade, artesanato e crítica social.
Importância histórica das escolas de samba
As escolas de samba são uma das maiores criações culturais do Brasil. Elas nasceram da experiência histórica de populações negras e pobres que, mesmo marginalizadas, construíram uma forma poderosa de expressão coletiva. Sua história revela a capacidade dos grupos populares de transformar exclusão em arte, memória e identidade.
Ao longo do século XX e início do século XXI, as escolas passaram de manifestações perseguidas e pouco reconhecidas a símbolos nacionais e internacionais da cultura brasileira. Essa trajetória não eliminou contradições, mas demonstrou a força política e estética do samba.
A história das escolas de samba é também a história das cidades brasileiras, das desigualdades sociais, da resistência negra, da criatividade popular e das disputas pela memória nacional. Na avenida, o Brasil canta, dança, encena suas contradições e apresenta, em forma de festa, parte profunda de sua formação histórica.
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| Batuque (1825) pintura de Rugendas. Raízes históricas das escolas de samba do Brasil. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 04/05/2026
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_samba
CUNHA, Milton. Carnaval e Cultura - poética e técnica no fazer escola de samba. São Paulo: Senac, 2015.
Vídeo indicado no YouTube:
TIA CIATA E A PRAÇA ONZE: COMO SURGIRAM AS ESCOLAS DE SAMBA - EDUARDO BUENO - Buenas Ideias