Quem foi
Cassiano Ricardo foi um escritor, poeta, jornalista e ensaísta brasileiro, nascido em 26 de julho de 1895, em São José dos Campos, no estado de São Paulo, e falecido em 14 de janeiro de 1974, no Rio de Janeiro. Ele é considerado uma das figuras importantes do Modernismo brasileiro, especialmente por sua participação em correntes nacionalistas da literatura modernista.
Sua produção literária passou por diferentes fases, desde uma poesia de inspiração parnasiana e simbolista até uma escrita modernista, nacionalista e experimental. Cassiano Ricardo também teve atuação relevante na imprensa, na política cultural e em instituições literárias, como a Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1937.
Biografia
Cassiano Ricardo Leite nasceu no interior paulista, em uma época marcada pela expansão da economia cafeeira, pela urbanização gradual de São Paulo e pelas transformações sociais da Primeira República, período que se estendeu de 1889 a 1930. Esse contexto histórico influenciou parte de sua visão sobre o Brasil, especialmente sua preocupação com a formação nacional, o território, o povo e os símbolos culturais brasileiros.
Ainda jovem, iniciou sua formação intelectual em São Paulo e depois estudou Direito. Sua trajetória profissional esteve ligada à escrita, ao jornalismo, à literatura e à vida pública. Trabalhou em jornais e revistas, participando ativamente dos debates culturais de sua época. Como muitos escritores modernistas, viu na imprensa um espaço importante para divulgar ideias literárias, defender posições estéticas e participar das discussões políticas e culturais do país.
No início de sua carreira, Cassiano Ricardo escreveu poemas com forte influência do Parnasianismo e do Simbolismo, movimentos literários ainda muito presentes no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Com o avanço do Modernismo, especialmente após a Semana de Arte Moderna de 1922, aproximou-se das propostas de renovação da linguagem literária e de valorização dos temas nacionais.
Durante a década de 1920, envolveu-se com o movimento Verde-Amarelo, ao lado de autores como Menotti Del Picchia e Plínio Salgado. Esse grupo defendia uma literatura nacionalista, voltada para a valorização do Brasil, de sua paisagem, de sua história e de seus elementos culturais. Posteriormente, parte desse pensamento se desdobrou no grupo da Anta, que buscava símbolos considerados representativos da identidade brasileira.
Uma de suas obras mais conhecidas, "Martim Cererê", publicada em 1928, tornou-se exemplo de sua fase nacionalista. Nela, o autor procurou construir uma espécie de poema sobre a formação do Brasil, misturando elementos indígenas, africanos e europeus. A obra revela o interesse de Cassiano Ricardo por mitos de origem, imagens da natureza brasileira e interpretações poéticas da identidade nacional.
Na vida pessoal, Cassiano Ricardo manteve-se profundamente ligado ao ambiente intelectual brasileiro do século XX. Sua atuação não se limitou à poesia, pois também escreveu ensaios, textos jornalísticos e obras de reflexão sobre literatura e cultura. Em 1937, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 31, o que reforçou seu reconhecimento no cenário literário nacional.
Ao longo de sua carreira, sua poesia passou por mudanças significativas. Depois da fase nacionalista, aproximou-se de formas mais sintéticas, reflexivas e experimentais. Obras posteriores revelam maior preocupação com a linguagem, com a condição humana, com o tempo e com os limites da existência. Essa variedade de fases faz de Cassiano Ricardo um autor de trajetória ampla dentro da literatura brasileira.
Características de sua poesia:
• Nacionalismo literário: Cassiano Ricardo valorizou temas ligados à formação do Brasil, à paisagem nacional, ao povo brasileiro e aos símbolos culturais do país. Esse nacionalismo apareceu de modo marcante em sua fase modernista, sobretudo em obras que buscavam interpretar poeticamente a origem e a identidade da nação.
• Valorização da natureza brasileira: sua poesia recorreu frequentemente a imagens de rios, florestas, animais, terras, cores e paisagens tropicais. Esses elementos não aparecem apenas como cenário, mas como parte da construção simbólica do Brasil.
• Interesse pela formação do povo brasileiro: em obras como "Martim Cererê", o autor explorou a mistura de matrizes indígenas, africanas e europeias. Sua poesia procurou representar o Brasil como resultado de encontros culturais, embora dentro de uma visão típica do nacionalismo modernista de sua época.
• Linguagem modernista: Cassiano Ricardo abandonou gradualmente os modelos mais rígidos da poesia tradicional. Passou a empregar versos mais livres, ritmo mais dinâmico, imagens inesperadas e maior liberdade formal, acompanhando as transformações literárias do Modernismo brasileiro.
• Uso de símbolos e mitos nacionais: sua poesia trabalhou com figuras simbólicas associadas ao território brasileiro, à origem da nação e à cultura popular. O autor buscou construir uma mitologia literária do Brasil, usando personagens, lendas e imagens da natureza como elementos poéticos.
• Tom épico e coletivo: em parte de sua produção, especialmente na fase nacionalista, sua poesia apresenta uma dimensão épica, voltada não apenas para sentimentos individuais, mas para a representação de uma coletividade. O Brasil, o povo e a história nacional tornam-se personagens centrais.
• Experimentalismo formal: em sua fase madura, Cassiano Ricardo demonstrou interesse por poemas mais curtos, linguagem condensada e maior exploração dos recursos expressivos da palavra. Essa característica aproximou parte de sua produção de tendências mais modernas da poesia brasileira do século XX.
• Reflexão sobre o tempo e a existência: nas obras posteriores, sua poesia passou a tratar com mais intensidade de temas universais, como a passagem do tempo, a solidão, a morte, a memória e a condição humana. Nesse momento, o nacionalismo deixa de ser o eixo dominante e dá lugar a uma poesia mais filosófica e introspectiva.
Principais obras:
"Dentro da noite": publicada em 1915, é uma obra de início de carreira, marcada por influências simbolistas e parnasianas. Nela, percebe-se uma linguagem mais tradicional, ligada ao gosto literário anterior ao Modernismo. A obra é importante para compreender a fase inicial do autor e sua posterior transformação estética.
"A flauta de Pã": publicada em 1917, também pertence à fase inicial de Cassiano Ricardo. O título faz referência à tradição clássica, indicando a presença de elementos herdados da cultura literária europeia. A obra mostra um poeta ainda distante das propostas modernistas que marcariam sua produção posterior.
"Vamos caçar papagaios": publicada em 1926, representa uma aproximação mais clara com o Modernismo e com o nacionalismo literário. A obra revela maior interesse por temas brasileiros, linguagem mais livre e imagens ligadas à natureza e à cultura nacional.
"Martim Cererê": publicada em 1928, é sua obra mais conhecida e uma das mais importantes de sua trajetória. O livro apresenta uma interpretação poética da formação do Brasil, trabalhando com elementos indígenas, africanos e europeus. A obra combina nacionalismo, mito, ritmo e imagens da paisagem brasileira, tornando-se uma referência do Modernismo de orientação verde-amarela.
"Deixa estar, jacaré": publicada em 1931, dá continuidade ao interesse de Cassiano Ricardo por imagens brasileiras e por uma linguagem ligada à oralidade, ao ritmo e à cultura nacional. A obra revela sua tentativa de aproximar poesia e brasilidade, dentro do espírito modernista da época.
"O sangue das horas": publicada em 1943, marca uma fase de amadurecimento poético. A obra indica uma transição para temas mais reflexivos, nos quais o tempo, a existência e a experiência humana ganham maior destaque.
"A face perdida": publicada em 1950, aprofunda a dimensão existencial de sua poesia. O livro mostra um autor menos ligado ao nacionalismo direto e mais preocupado com questões humanas, filosóficas e subjetivas.
"Jeremias sem-chorar": publicada em 1964, é uma das obras mais representativas de sua fase final. O livro apresenta linguagem mais sintética e reflexiva, com forte preocupação formal. Nele, Cassiano Ricardo explora a angústia, a lucidez, a solidão e a condição do homem moderno.
Legado literário
O legado literário de Cassiano Ricardo está associado principalmente à sua participação no Modernismo brasileiro e à construção de uma poesia voltada para a interpretação simbólica do Brasil. Sua obra ajudou a consolidar uma vertente nacionalista dentro do Modernismo, especialmente nas décadas de 1920 e 1930, período em que muitos escritores buscavam romper com modelos europeus e criar uma literatura mais identificada com a realidade nacional.
Sua importância também está na diversidade de sua trajetória. Cassiano Ricardo não permaneceu preso a uma única fase estética. Iniciou sua produção sob influência de correntes tradicionais, aderiu ao Modernismo nacionalista e, posteriormente, desenvolveu uma poesia mais reflexiva, condensada e experimental. Essa mudança revela um escritor atento às transformações da literatura brasileira ao longo do século XX.
"Martim Cererê" permanece como sua obra mais emblemática, pois sintetiza o projeto de representar poeticamente a formação do Brasil. Ainda que sua visão nacionalista pertença a um contexto histórico específico e possa ser analisada criticamente hoje, o livro ocupa lugar relevante na história do Modernismo por seu esforço de criar uma linguagem poética baseada em símbolos nacionais.
Cassiano Ricardo também deixou contribuição importante como intelectual público. Sua atuação no jornalismo, na crítica, no ensaio e na Academia Brasileira de Letras ampliou sua presença na vida cultural brasileira. Ele participou de debates sobre identidade nacional, literatura e modernização cultural, temas centrais para os escritores brasileiros do século XX.
Assim, Cassiano Ricardo deve ser compreendido como um autor de transição e renovação. Sua obra percorre caminhos diversos, indo da tradição formal à experimentação moderna, do nacionalismo poético à reflexão existencial. Por essa amplitude, ocupa um lugar significativo na literatura brasileira, especialmente no estudo do Modernismo e das diferentes formas pelas quais os escritores tentaram interpretar o Brasil.
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| Cassiano Ricardo: grande poeta e jornalista brasileiro do século XX. |
Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Atualizado em 09/05/2026
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