Realismo na Literatura


 

O que foi e origem


Na Literatura, o Realismo foi um movimento que começou em meados do século XIX, aproximadamente por volta de 1850, e continuou até o início do século XX. Surgiu como uma reação contra o Romantismo, enfatizando uma representação mais precisa, detalhada e sem adornos da vida cotidiana. Este movimento focava nas vidas das pessoas comuns e nas condições sociais que as influenciavam, visando representar a realidade sem a idealização e o exotismo, característicos da literatura romântica.



Contexto histórico

 

O Realismo Literário emergiu na Europa em meados do século XIX, um período marcado por mudanças sociais, políticas e econômicas significativas. A Revolução Industrial transformou a paisagem europeia, levando à rápida urbanização, ao surgimento da classe trabalhadora e a contrastes marcantes entre riqueza e pobreza. Esta era também viu as revoluções de 1848, que refletiam um descontentamento generalizado com os sistemas políticos e uma demanda por reformas sociais. A transição de economias agrárias para sociedades industrializadas trouxe novos desafios e realidades que a literatura buscou capturar com maior fidelidade. O Realismo surgiu como uma reação contra as narrativas idealizadas e frequentemente fantásticas do Romantismo, focando-se em retratar a vida cotidiana e as experiências de pessoas comuns, com ênfase na autenticidade e no detalhe.


O desenvolvimento do Realismo Literário também foi influenciado por avanços na ciência e na filosofia, particularmente pela ascensão do Positivismo, que enfatizava a observação e a evidência empírica. Escritores como Honoré de Balzac na França, Charles Dickens na Inglaterra e Dostoiévski na Rússia estavam na vanguarda deste movimento, usando suas obras para explorar questões sociais complexas, comportamento humano e dilemas morais.



Principais características:



• Descrições detalhadas da vida cotidiana: os escritores realistas descreviam meticulosamente as atividades diárias, os ambientes e as condições sociais de seus personagens, muitas vezes focando nas classes média e baixa.


• Personagens complexos: os personagens na literatura realista são complexos e multidimensionais, muitas vezes lidando com dilemas morais e conflitos pessoais. Esses personagens são retratados com uma profundidade psicológica que revela seus pensamentos e motivações internas.


• Foco em questões sociais: a literatura realista frequentemente aborda questões sociais, econômicas e políticas, destacando as lutas e injustiças enfrentadas pelos indivíduos na sociedade. Temas como disparidade de classe, industrialização e mobilidade social são comuns.


• Narração objetiva: a voz narrativa na literatura realista é tipicamente objetiva e imparcial, apresentando eventos e personagens sem intervenção ou moralização ostensiva do autor.


• Tramas plausíveis: as tramas na literatura realista são plausíveis e fundamentadas na realidade. Elas evitam o sensacionalismo e, em vez disso, apresentam eventos que poderiam logicamente acontecer na vida cotidiana.


• Uso do vernáculo: os escritores realistas utilizam frequentemente a linguagem vernacular (idioma falado pelo povo comum em uma região específica) de seus personagens, incluindo dialetos regionais e gírias, para aumentar a autenticidade e a credibilidade de suas narrativas.

 

Temas abordados


No Realismo, a literatura passa a privilegiar o cotidiano urbano como objeto central de representação, especialmente a partir da segunda metade do século XIX. Com o crescimento das cidades impulsionado pela Revolução Industrial, os escritores voltam sua atenção para a vida nas metrópoles, retratando hábitos, costumes e relações sociais típicas desse novo ambiente. Nesse contexto, surgem descrições minuciosas da rotina burguesa, do trabalho, das interações sociais e das transformações que marcam a modernidade.

As relações sociais são analisadas sob uma perspectiva crítica, evidenciando interesses econômicos e estratégias de ascensão social. O casamento, por exemplo, deixa de ser idealizado e passa a ser retratado como uma instituição muitas vezes baseada em conveniências, ambição e status. Os autores realistas demonstram como os vínculos afetivos podem estar subordinados a interesses materiais, revelando tensões e contradições presentes na sociedade burguesa.

Outro aspecto fundamental é a crítica à hipocrisia social, especialmente entre as camadas dominantes. A literatura realista expõe o contraste entre os valores morais proclamados publicamente e as práticas privadas, muitas vezes marcadas por egoísmo, traição e corrupção. Ao evidenciar essas incoerências, os escritores denunciam a superficialidade de uma moral que serve mais à aparência do que à ética genuína.

A condição humana também ocupa lugar central nas obras realistas, com ênfase na análise de comportamentos e motivações individuais. Os personagens são apresentados como seres complexos, marcados por conflitos internos, desejos contraditórios e limitações morais. Temas como egoísmo, interesse pessoal e traição são explorados de maneira aprofundada, revelando uma visão mais pessimista e analítica do ser humano.

Ocorreu também o questionamento das instituições sociais, como a Igreja, a família e o Estado. Os autores realistas não aceitam essas estruturas como verdades absolutas, mas as examinam criticamente, apontando suas falhas, contradições e, em muitos casos, sua função na manutenção de desigualdades. Essa postura contribui para uma literatura engajada com a análise social e com a problematização das bases da sociedade.



Narrador e construção narrativa


No que diz respeito à construção narrativa, o Realismo se caracteriza pelo uso frequente do narrador onisciente, que possui amplo conhecimento sobre os acontecimentos e, sobretudo, sobre os pensamentos e sentimentos das personagens. Esse tipo de narrador permite uma análise detalhada das ações humanas, oferecendo ao leitor uma visão abrangente da trama e de seus conflitos.

A análise psicológica é um dos elementos mais marcantes desse movimento, evidenciando o interesse dos escritores pela interioridade das personagens. Em vez de ações grandiosas ou idealizadas, a narrativa se volta para os dilemas internos, as motivações ocultas e os processos mentais que orientam o comportamento humano. Essa abordagem aproxima a literatura de uma investigação quase científica da mente.

O tempo narrativo, em geral, segue uma estrutura linear, organizada cronologicamente, o que contribui para a clareza e a objetividade da narrativa. Ainda que possam ocorrer eventuais digressões, a sequência dos acontecimentos tende a respeitar uma lógica temporal contínua, reforçando o compromisso com a verossimilhança e a organização racional do enredo.

Destaca-se a descrição detalhada como um recurso fundamental na construção das obras realistas. Os ambientes, os objetos e as características físicas e sociais das personagens são apresentados com precisão, contribuindo para a criação de um cenário convincente e fiel à realidade. Essas descrições não são meramente decorativas, mas desempenham papel essencial na caracterização social e psicológica dos indivíduos retratados.

 




Exemplos de escritores realistas estrangeiros:



Gustave Flaubert (1821-1880)

Um romancista francês mais conhecido por sua obra "Madame Bovary" (1857). A atenção meticulosa de Flaubert aos detalhes e seu retrato implacável da vida burguesa exemplificam as características realistas. Sua prosa é marcada por um compromisso com a narração objetiva e a profundidade psicológica.



Liev Tolstói (1828-1910)

Um autor russo conhecido por "Guerra e Paz" (1869) e "Anna Karenina" (1877). As obras de Tolstói apresentam personagens complexos e descrições detalhadas da sociedade russa. Sua exploração de questões morais e existenciais no contexto da vida cotidiana representam de forma exemplar o Realismo.



Henry James (1843-1916)

Um autor americano-britânico reconhecido por romances como "Retrato de uma Senhora" (1881) e "Os Embaixadores" (1903). James é conhecido por seu desenvolvimento intricado de personagens e exploração de temas sociais e psicológicos, muitas vezes focando no confronto entre o Velho e o Novo Mundo.



Émile Zola (1840-1902)

Um romancista e dramaturgo francês, Zola é famoso por sua série "Les Rougon-Macquart" (1871-1893), que inclui "Germinal" (1885). Suas obras são marcadas por uma abordagem naturalista, intimamente relacionada ao Realismo, que busca apresentar um retrato objetivo e muitas vezes sombrio da vida.



Mark Twain (1835-1910)

Um autor americano conhecido por "As Aventuras de Huckleberry Finn" (1884) e "As Aventuras de Tom Sawyer" (1876). O uso de Twain da linguagem vernacular e suas vívidas descrições da vida americana ao longo do rio Mississippi incorporam a tradição realista.



George Eliot (1819-1880)

O pseudônimo de Mary Ann Evans, uma romancista inglesa conhecida por "Middlemarch" (1871-1872) e "O Moinho à Beira do Floss" (1860). As obras de Eliot são caracterizadas por suas descrições detalhadas da vida rural e provincial, personagens complexos e exploração de questões sociais e morais.

 

Retrato pintado da escritora George Eliot

George Eliot: importante escritora britânica do Realismo Literário.

 



Exemplos de escritores realistas brasileiros:

 


Machado de Assis (1839-1908)


Machado de Assis é amplamente considerado um dos maiores escritores brasileiros. Suas obras mais famosas incluem "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) e "Dom Casmurro" (1899). As principais características do estilo literário de Machado de Assis incluem: ironia e sarcasmo; personagens complexos e narrador não confiável.



Aluísio Azevedo (1857-1913)


Aluísio Azevedo foi um escritor e jornalista brasileiro, conhecido por suas obras naturalistas, que são um subgênero do Realismo. Suas obras mais notáveis incluem "O Mulato" (1881) e "O Cortiço" (1890). Suas obras são caracterizadas por: presença de retratos sociais detalhados; determinismo social e denúncia de injustiças e problemas sociais.


Raul Pompeia (1863-1895)

Raul Pompeia foi um escritor e jornalista brasileiro, conhecido por seu romance "O Ateneu" (1888). As principais características de seu estilo literário incluem: autobiografismo, detalhismo e crítica social.

 

 

Foto de Machado de Assis

Machado de Assis: a segunda fase de sua obra literária é marcada pelo realismo.

 

 

 


 

 

RESUMO

Realismo na literatura (segunda metade do século XIX)


Contexto histórico e surgimento

• Período: consolidação na Europa a partir de 1850, com expansão ao longo da segunda metade do século XIX.
• Transformações sociais: avanço da Revolução Industrial, crescimento das cidades e fortalecimento da burguesia.
• Influências intelectuais: desenvolvimento do Positivismo (Auguste Comte), do Determinismo e das ideias científicas.
• Reação ao Romantismo: crítica ao sentimentalismo, à idealização e ao subjetivismo presentes no movimento anterior.


Características gerais do Realismo:

• Objetividade: busca por representar a realidade de forma direta, sem idealizações.
• Racionalismo: valorização da razão e da análise crítica dos comportamentos humanos.
• Crítica social: exposição das desigualdades sociais, da hipocrisia burguesa e das instituições.
• Linguagem clara: uso de uma linguagem simples, direta e descritiva.
• Personagens complexos: indivíduos com conflitos psicológicos e morais, inseridos em contextos sociais específicos.


Temas abordados:

• Cotidiano urbano: descrição da vida nas cidades e das relações sociais modernas.
• Relações sociais: análise de casamentos por interesse, ambição e mobilidade social.
• Hipocrisia social: crítica aos valores morais aparentes da burguesia.
• Condição humana: reflexão sobre egoísmo, interesse, traição e conflitos internos.
• Instituições sociais: questionamento da Igreja, da família e do Estado.


Narrador e construção narrativa:

• Narrador onisciente: conhecimento amplo dos pensamentos e ações das personagens.
• Análise psicológica: aprofundamento na mente das personagens e em seus conflitos internos.
• Tempo linear: predominância de narrativas organizadas cronologicamente.
• Descrição detalhada: atenção aos ambientes e às características sociais dos personagens.


Principais autores e obras:


França:

- Honoré de Balzac: autor de "A Comédia Humana", conjunto de obras que retrata a sociedade francesa do século XIX.
- Gustave Flaubert: autor de "Madame Bovary" (1857), obra que critica o romantismo e a vida burguesa.

Inglaterra:

- Charles Dickens: autor de "Oliver Twist" e "David Copperfield", com forte crítica social.

Rússia:

- Fiódor Dostoiévski: autor de "Crime e Castigo", com análise profunda da psicologia humana.
- Liev Tolstói: autor de "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", retratando a sociedade russa.


Brasil:

- Machado de Assis: principal nome do Realismo brasileiro, autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) e "Dom Casmurro".


Realismo no Brasil

• Marco inicial: publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" em 1881.
• Contexto histórico: crise do Segundo Reinado (1840-1889), debates sobre abolição da escravidão (Lei Áurea, 1888) e transformações sociais.

Características específicas:

- Ironia e crítica social sofisticada.
- Narrador subjetivo e irônico, especialmente em Machado de Assis.
- Análise psicológica aprofundada das personagens.


Importância do Realismo

• Renovação literária: introdução de uma abordagem mais científica e crítica na literatura.
• Influência posterior: base para movimentos como o Naturalismo e o Modernismo.
• Registro histórico: representação fiel das transformações sociais do século XIX.
• Ampliação temática: inclusão de temas sociais, psicológicos e econômicos na literatura.

 


 


Publicado em 31/05/2024 e atualizado em 24/03/2026

Por Elaine Barbosa de Souza
Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).




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Bibliografia e vídeos indicados:

 

Fontes de referências do artigo:

 

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira - I. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

 

MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Tradução de Roberto Leal Ferreira e Álvaro Cabral. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Literary_realism


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