O que foi o Concretismo
O Concretismo nas artes plásticas foi um movimento artístico ligado à arte abstrata geométrica, desenvolvido a partir da década de 1930 e fortalecido no período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Sua proposta central era produzir uma arte baseada em formas visuais autônomas, isto é, formas que não dependessem da representação da natureza, de figuras humanas, de paisagens ou de cenas narrativas. A obra concreta deveria existir por si mesma, como uma construção organizada por linhas, cores, planos, ritmos e relações geométricas.
Diferentemente da arte figurativa, que representa objetos reconhecíveis do mundo exterior, o Concretismo defendia que a pintura, a escultura e outras manifestações visuais poderiam ser compostas apenas por elementos próprios da linguagem artística. A linha, o quadrado, o círculo, o triângulo, a cor pura e a composição equilibrada não eram vistos como meios para imitar a realidade, mas como a própria realidade da obra de arte.
O termo “arte concreta” foi associado ao artista holandês Theo van Doesburg, que, em 1930, publicou o manifesto “Art Concret”. Nesse texto, a obra de arte era compreendida como uma construção racional, precisa e objetiva. Para os concretistas, a pintura não deveria ser uma expressão sentimental ou uma cópia do mundo, mas uma organização visual planejada, construída com rigor e clareza.
Contexto histórico e origem
O Concretismo surgiu em um contexto marcado pelas transformações da arte moderna europeia nas primeiras décadas do século XX. Desde o final do século XIX e o início do século XX, muitos artistas passaram a questionar a tradição acadêmica, que valorizava a representação fiel da natureza, a perspectiva clássica e os temas históricos ou religiosos. Movimentos como o Cubismo, o Futurismo, o Suprematismo, o Construtivismo Russo, o Neoplasticismo e a Bauhaus contribuíram para modificar profundamente a concepção de arte.
Na década de 1930, a Europa vivia um período de tensões políticas, econômicas e sociais. A crise econômica de 1929, a ascensão de regimes autoritários e a instabilidade do período entre guerras influenciaram muitos artistas a buscar novas formas de organização estética. Nesse cenário, a arte concreta surgiu como uma proposta de ordem, racionalidade e universalidade diante de um mundo marcado por conflitos e incertezas.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o Concretismo ganhou força em diferentes países, especialmente porque dialogava com o ambiente de reconstrução, modernização urbana, expansão industrial e valorização do planejamento técnico. A ideia de uma arte racional, objetiva e próxima da matemática combinava com o desejo de construir uma sociedade moderna, funcional e orientada pelo progresso científico.
Principais características do Concretismo
O Concretismo possui como característica central a rejeição da representação figurativa. Suas obras não procuram mostrar pessoas, animais, paisagens, objetos cotidianos ou acontecimentos históricos. Em vez disso, apresentam formas geométricas, cores e estruturas visuais organizadas de modo racional. A obra concreta não quer parecer uma janela para o mundo exterior, mas uma realidade visual independente.
Outra característica importante é o uso da geometria. Quadrados, retângulos, círculos, linhas retas, diagonais e planos coloridos aparecem com frequência nas composições concretistas. Esses elementos são organizados de acordo com critérios de equilíbrio, proporção, repetição, simetria ou assimetria controlada. A geometria permitia aos artistas afastar a obra da emoção subjetiva e aproximá-la de uma construção planejada.
A cor também ocupa papel fundamental. Os concretistas costumavam utilizar cores puras, contrastes bem definidos e combinações cromáticas calculadas. A cor não era usada para imitar a aparência de objetos reais, mas para criar relações visuais dentro da própria obra. Vermelho, azul, amarelo, preto, branco e outras cores podiam ser aplicados de maneira precisa para produzir ritmo, tensão, equilíbrio ou movimento visual.
O rigor compositivo é outro elemento essencial. A obra concreta não deveria parecer espontânea ou improvisada. Cada linha, forma e cor precisava ocupar um lugar definido dentro do conjunto. A composição era pensada quase como um projeto, aproximando o artista do arquiteto, do designer ou do engenheiro. Por isso, muitos concretistas valorizavam a clareza, a precisão técnica e a ausência de gestos expressivos excessivos.
Influências artísticas e teóricas
O Concretismo recebeu influência de diferentes movimentos de vanguarda do século XX. O Cubismo, desenvolvido por Pablo Picasso e Georges Braque a partir de 1907, contribuiu para a fragmentação das formas e para o questionamento da representação tradicional. Embora o Cubismo ainda mantivesse vínculos com objetos reconhecíveis, abriu caminho para uma arte mais intelectualizada e estruturada.
O Neoplasticismo, associado a Piet Mondrian e ao grupo De Stijl, teve grande importância para a formação da arte concreta. Mondrian defendia uma arte baseada em linhas retas, ângulos retos, cores primárias e equilíbrio entre elementos horizontais e verticais. Essa busca por uma linguagem visual universal aproximou-se diretamente das propostas concretistas.
O Suprematismo, criado por Kazimir Malevich na Rússia a partir de 1915, também foi uma referência importante. Ao apresentar formas geométricas simples, como quadrados e círculos, Malevich defendia uma arte livre da representação do mundo material. O Construtivismo Russo, por sua vez, contribuiu com a ideia de arte como construção e com a aproximação entre arte, técnica, arquitetura e sociedade.
A Bauhaus, escola fundada na Alemanha em 1919, exerceu influência decisiva ao propor a integração entre arte, design, arquitetura e produção industrial. A valorização da funcionalidade, da geometria e da clareza formal tornou-se uma referência para muitos artistas concretistas. A Bauhaus ajudou a consolidar a ideia de que a arte moderna poderia dialogar com a vida urbana, com os objetos de uso cotidiano e com a organização racional do espaço.
Concretismo no Brasil
No Brasil, o Concretismo ganhou força principalmente na década de 1950, em um contexto de industrialização, urbanização e modernização cultural. O país passava por profundas transformações econômicas e sociais, especialmente com o crescimento das cidades, a expansão da indústria e o fortalecimento de uma cultura visual ligada ao design, à arquitetura e aos meios de comunicação.
São Paulo teve papel central nesse processo. A cidade se consolidava como grande centro industrial e urbano, criando um ambiente favorável para propostas artísticas associadas à racionalidade, à técnica e à modernidade. A criação do Museu de Arte de São Paulo, em 1947, do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1948, e da Bienal de São Paulo, em 1951, contribuiu para ampliar o contato dos artistas brasileiros com as vanguardas internacionais.
O Concretismo brasileiro foi marcado pela defesa de uma arte objetiva, planejada e alinhada ao espírito moderno. Muitos artistas passaram a rejeitar a pintura figurativa tradicional e também formas de abstração consideradas excessivamente emotivas. Para eles, a arte deveria abandonar o subjetivismo e construir uma linguagem visual clara, universal e rigorosa.
A primeira Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em 1956 em São Paulo e em 1957 no Rio de Janeiro, foi um marco importante para a consolidação do movimento no Brasil. Ela reuniu artistas e poetas ligados ao Concretismo, revelando a força do movimento tanto nas artes plásticas quanto na poesia visual. Esse evento também evidenciou diferenças entre os grupos de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Grupos concretistas brasileiros
O Grupo Ruptura foi fundado em São Paulo em 1952 e teve como uma de suas figuras centrais Waldemar Cordeiro. O grupo defendia uma arte racional, objetiva e contrária ao lirismo e à expressão individualista. Para seus integrantes, a arte deveria romper com a tradição figurativa e com a abstração informal, adotando uma linguagem baseada na geometria, na clareza formal e na construção intelectual.
Entre os artistas associados ao Grupo Ruptura estavam Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto, Kazmer Féjer, Anatol Wladyslaw e Leopold Haar. Suas obras demonstravam forte interesse por formas geométricas, relações ópticas, estruturas seriadas e organização racional do espaço. O grupo também se aproximava de debates sobre design, comunicação visual e produção industrial.
No Rio de Janeiro, o Grupo Frente foi criado em 1954 e reuniu artistas como Ivan Serpa, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Aluísio Carvão, Franz Weissmann e Abraham Palatnik. Embora também dialogasse com a abstração geométrica, o Grupo Frente apresentava maior abertura à experimentação sensível, à cor, ao espaço e à participação do observador.
A diferença entre os grupos tornou-se importante para a história da arte brasileira. Enquanto o núcleo paulista tendia a valorizar com maior intensidade a racionalidade formal e o rigor construtivo, o núcleo carioca aproximou-se de experiências que, posteriormente, deram origem ao Neoconcretismo. Essa diferença não deve ser entendida como uma oposição absoluta, mas como uma diversidade interna no desenvolvimento da arte abstrata geométrica no Brasil.
Principais artistas do Concretismo
Theo van Doesburg é uma referência fundamental para o surgimento da arte concreta. Em seu manifesto de 1930, ele defendeu que a pintura deveria ser construída com elementos puramente plásticos, sem dependência de formas naturais. Sua atuação ajudou a estabelecer as bases teóricas do movimento e a consolidar o termo “arte concreta”.
Max Bill, artista, arquiteto e designer suíço, foi uma das figuras mais importantes para a difusão internacional do Concretismo. Sua obra valorizava a precisão matemática, a clareza geométrica e a integração entre arte, design e arquitetura. Max Bill teve grande influência no Brasil, especialmente após receber reconhecimento na primeira Bienal de São Paulo, em 1951.
Waldemar Cordeiro foi um dos principais nomes do Concretismo brasileiro. Atuou como artista, crítico e teórico, defendendo uma arte voltada para a objetividade, a comunicação visual e a construção racional. Sua liderança no Grupo Ruptura foi decisiva para a afirmação do Concretismo em São Paulo.
Geraldo de Barros também foi figura relevante no movimento. Sua produção transitou pela fotografia, pintura, design e artes gráficas. Em suas obras, explorou estruturas geométricas, relações visuais e soluções formais associadas à modernidade. Sua atuação demonstra como o Concretismo dialogou com diferentes linguagens visuais.
Luiz Sacilotto destacou-se pelo uso de formas geométricas, efeitos ópticos e composições rigorosas. Suas obras exploraram relações entre figura e fundo, repetição, simetria e movimento visual. Ele é considerado um dos artistas que melhor expressaram a precisão formal da arte concreta no Brasil.
No Rio de Janeiro, artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape partiram da abstração geométrica, mas avançaram em direção a experiências que ultrapassaram os limites do Concretismo. Suas trajetórias mostram como a arte concreta abriu caminho para investigações mais amplas sobre corpo, espaço, participação e sensibilidade.
Técnicas e materiais utilizados
Nas artes plásticas, o Concretismo utilizou principalmente pintura, desenho, escultura, relevo, serigrafia, objetos e projetos gráficos. A pintura concreta costumava apresentar superfícies planas, contornos definidos e ausência de pinceladas expressivas. A técnica deveria reforçar a impessoalidade e a clareza da composição, evitando marcas muito evidentes da emoção do artista.
O uso de materiais industriais ou de acabamento preciso também se relacionava ao ideal concretista. Em vez de valorizar a aparência artesanal ou improvisada, muitos artistas buscavam uma execução limpa, controlada e objetiva. Essa postura aproximava a arte concreta do design, da arquitetura e da produção moderna.
Nas esculturas e relevos, o Concretismo explorou volumes geométricos, estruturas modulares e relações entre espaço, luz e forma. A obra podia ser pensada como um objeto autônomo, sem função narrativa ou simbólica tradicional. O interesse estava na organização visual, na proporção e na relação entre as partes.
A seriação também foi frequente. Muitos artistas organizaram formas repetidas em sequências, criando ritmos visuais e efeitos ópticos. Essa repetição planejada indicava a proximidade entre arte e pensamento matemático, pois a obra era construída a partir de regras, variações e combinações calculadas.
Concretismo e relação com ciência e matemática
A aproximação entre Concretismo, ciência e matemática foi uma das marcas mais importantes do movimento. Os artistas concretistas defendiam que a obra deveria ser construída com base em relações precisas, evitando o acaso e o sentimentalismo. A matemática oferecia modelos de proporção, simetria, progressão, repetição e equilíbrio.
Essa relação não significava que toda obra concreta fosse uma demonstração matemática. O objetivo não era transformar a arte em cálculo puro, mas utilizar princípios racionais para organizar a forma visual. A obra concreta buscava uma ordem perceptível, capaz de ser compreendida por meio da visão e da estrutura.
A ciência moderna também influenciou a valorização da objetividade. Em um mundo marcado pela tecnologia, pela industrialização e pelo urbanismo, a arte concreta procurava dialogar com uma nova sensibilidade visual. A precisão das formas, a limpeza da composição e o uso de cores planejadas estavam ligados à ideia de modernidade.
Vale destacar também que essa relação com a matemática ajudou a aproximar o Concretismo do design gráfico, da comunicação visual e da arquitetura moderna. Cartazes, capas de livros, projetos urbanos, móveis e edifícios passaram a compartilhar princípios semelhantes de clareza, funcionalidade e organização geométrica.
Críticas e surgimento do Neoconcretismo
Apesar de sua importância, o Concretismo recebeu críticas, especialmente por seu excesso de racionalismo. Alguns artistas consideravam que a arte concreta, ao buscar objetividade e rigor formal, poderia tornar-se fria, mecânica e distante da experiência sensível do espectador. Essa crítica foi particularmente importante no Brasil, no final da década de 1950.
Em 1959, o Manifesto Neoconcreto marcou o surgimento do Neoconcretismo no Rio de Janeiro. Artistas como Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica e outros passaram a defender uma arte mais aberta à subjetividade, ao corpo, ao tempo e à participação do público. O Neoconcretismo não negava totalmente a experiência geométrica, mas procurava superar sua rigidez.
O Neoconcretismo valorizou a obra como experiência viva. A arte deixou de ser apenas objeto visual para ser também relação, participação e vivência. Essa mudança foi decisiva para a arte brasileira, pois contribuiu para experiências inovadoras nas décadas seguintes, especialmente na arte participativa, ambiental e conceitual.
A crítica neoconcreta não eliminou a importância do Concretismo. Ao contrário, mostrou que o Concretismo foi um ponto de partida fundamental para novas pesquisas artísticas. Sem a ruptura concreta com a figuração tradicional, dificilmente a arte brasileira teria desenvolvido experiências tão radicais nas décadas de 1960 e 1970.
Importância e legado do Concretismo
O Concretismo teve grande importância para a arte moderna porque consolidou uma linguagem visual baseada na autonomia da forma. Ao rejeitar a representação figurativa e valorizar a construção geométrica, o movimento ampliou as possibilidades da pintura, da escultura e do objeto artístico. A obra de arte passou a ser entendida como uma estrutura visual independente.
No Brasil, o Concretismo foi decisivo para a modernização das artes plásticas na década de 1950. Ele aproximou a produção artística brasileira dos debates internacionais e fortaleceu instituições, exposições e grupos dedicados à arte abstrata. Também contribuiu para inserir o país em discussões sobre modernidade, urbanização, indústria e comunicação visual.
Seu legado pode ser percebido no design gráfico, na arquitetura, na arte óptica, na arte cinética, na poesia concreta e em várias vertentes da arte contemporânea. A valorização da geometria, da síntese visual e da organização racional continua presente em projetos visuais, obras públicas, exposições e linguagens digitais.
O Concretismo também deixou como herança uma reflexão importante sobre a função da arte. Ao afirmar que a obra não precisava representar o mundo exterior, mas podia construir uma realidade própria, o movimento contribuiu para redefinir o papel do artista. O artista concreto não era apenas um imitador da natureza, mas um construtor de formas, relações e sistemas visuais.
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| Double pilier 23/70: escultura concretista de Erich Hauser. |
RESUMO SOBRE O CONCRETISMO
Introdução
- Movimento artístico surgido na década de 1950.
- Influência das vanguardas europeias, especialmente o construtivismo russo e o neoplasticismo holandês.
Características Gerais:
- Enfoque na forma e estrutura das obras.
- Valorização da objetividade e precisão.
- Uso de cores puras e formas geométricas.
- Rejeição do sentimentalismo e subjetividade.
Concretismo nas Artes Plásticas:
- Abstração geométrica: ênfase em formas geométricas básicas.
- Influência de artistas como Max Bill e Theo van Doesburg.
- Uso de materiais industriais e técnicas de produção em série.
- Obras tridimensionais: esculturas e instalações.
- Artistas notáveis: Lygia Clark, Hélio Oiticica, Waldemar Cordeiro.
Concretismo na Literatura:
- Poesia concreta: exploração visual e sonora da linguagem.
- Quebra da linearidade tradicional do verso.
- Uso de recursos tipográficos e disposição espacial das palavras.
- Influência do concretismo visual nas composições literárias.
- Autores notáveis: Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos.
Importância e Impacto:
- Influência significativa na arte e literatura contemporânea.
- Desdobramentos em movimentos subsequentes, como o Neoconcretismo.
- Contribuição para a experimentação e inovação artística.
Conclusão
- O Concretismo como marco na história da arte e literatura.
- Continuidade de sua influência em práticas artísticas atuais.
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| Infográfico com resumo didático sobre o Concretismo nas Artes Plásticas |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 27/04/2026
Fontes de referência do texto:
https://en.wikipedia.org/wiki/Concrete_art
FARTHING, Stephen e CORK, Richard. Tudo sobre Arte. São Paulo: Editora Sextante, 2018.
HODGE, Susie. Breve História da Arte. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2018.
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