Introdução
O Dia das Mães é uma das datas comemorativas mais celebradas no mundo, presente no calendário de dezenas de países com diferentes formas e datas de observância. Por trás da tradição de flores, cartões e almoços em família existe uma história rica, marcada por ativismo, luto, política e, eventualmente, pela tensão entre o sentimento genuíno e a lógica comercial. Este artigo percorre essa trajetória desde as celebrações da Antiguidade até a realidade brasileira contemporânea.
As Raízes Antigas: Grécia, Roma e o Mundo Medieval
A ideia de homenagear a figura materna não nasceu no século XX. Suas raízes se encontram na Antiguidade Clássica. Na Grécia Antiga, havia celebrações em honra de Reia, considerada a mãe de todos os deuses do panteão grego. Em Roma, a deusa Cibele, conhecida como Magna Mater (Grande Mãe), era cultuada em festividades primaverais com procissões, oferendas e rituais coletivos.
Com a cristianização do Império Romano e a expansão da Igreja Católica pela Europa, essas tradições foram gradualmente reinterpretadas em chave cristã. Na Inglaterra do século XVII, consolidou-se o chamado Mothering Sunday, celebrado no quarto domingo da Quaresma. Nessa data, jovens trabalhadores e criados domésticos que viviam longe de casa recebiam autorização para visitar suas mães, frequentemente trazendo flores silvestres colhidas no caminho. Era também o dia de retornar à "igreja-mãe", a paróquia onde haviam sido batizados. Com a Revolução Industrial e as transformações nas relações de trabalho, essa tradição foi perdendo força ao longo do século XIX.
A Mãe por Trás da Fundadora: Ann Reeves Jarvis
A história da versão moderna do Dia das Mães começa com Ann Maria Reeves Jarvis (1832–1905), uma ativista comunitária do interior da Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos. Mulher de enorme determinação, ela enfrentou uma realidade brutal: de seus doze ou treze filhos, a maioria morreu ainda na infância, vítima das péssimas condições sanitárias da região dos Apalaches.
Decidida a agir, Ann Jarvis organizou os chamados Mothers' Day Work Clubs a partir da década de 1850, grupos de mulheres que trabalhavam para melhorar as condições de higiene, reduzir a mortalidade infantil e educar as famílias sobre saúde básica. Quando a Guerra Civil Americana eclodiu, em 1861, ela pediu que os grupos se mantivessem neutros e prestassem assistência a soldados dos dois lados do conflito, tanto da União quanto da Confederação. Em 1868, três anos após o fim da guerra, organizou o Mother's Friendship Day, um encontro para promover a reconciliação entre famílias que haviam sido divididas pelo conflito.
Foi nesse ambiente de ativismo e amor filial que cresceu sua filha Anna.
Anna Jarvis e a Criação do Dia das Mães Moderno
Anna Maria Jarvis (1864–1948) foi a fundadora do Dia das Mães no sentido que conhecemos hoje. Nascida em Webster, Virgínia Ocidental, ela cresceu profundamente ligada à mãe e ao seu trabalho. Em 1876, ainda criança, ouviu Ann Jarvis dizer uma oração que nunca esqueceu: "Espero e rezo para que alguém, um dia, funde um Dia das Mães em memória e em homenagem às mães, pelo incomparável serviço que elas prestam à humanidade."
Quando Ann Jarvis faleceu em 9 de maio de 1905, Anna mergulhou em luto e decidiu transformar a dor em ação. Ela passou os anos seguintes numa campanha incessante por correspondência, escrevendo a políticos, jornalistas, líderes religiosos e empresários para que apoiassem a criação de um feriado nacional dedicado às mães.
A primeira celebração oficial ocorreu em 10 de maio de 1908, na Igreja Metodista Andrews, em Grafton, Virgínia Ocidental, a mesma onde sua mãe havia ensinado na escola dominical. Anna não compareceu pessoalmente, pois vivia na Filadélfia, mas enviou 500 cravos brancos, a flor favorita de sua mãe, para serem distribuídos aos presentes. No mesmo dia, uma cerimônia maior foi realizada em Filadélfia, no auditório da loja de departamentos de John Wanamaker.
A partir daí, o movimento cresceu com rapidez. Dentro de poucos anos, praticamente todos os estados americanos já realizavam celebrações do Dia das Mães. Em 1912, Anna fundou a Mother's Day International Association para coordenar e proteger a data. Em 1914, seu esforço foi coroado: o presidente Woodrow Wilson assinou o decreto que transformou o segundo domingo de maio em feriado nacional nos Estados Unidos.
A Virada Amarga: Anna Contra a Comercialização
O que parecia um triunfo logo se tornou uma fonte de profunda angústia para Anna Jarvis. Ela havia concebido o Dia das Mães como uma ocasião pessoal e íntima, em que cada filho ou filha honraria a própria mãe com uma visita, uma carta escrita à mão ou um simples gesto de amor. Para isso, ela sempre insistia no singular possessivo: não "Mothers' Day" (o dia de todas as mães), mas "Mother's Day" (o dia da sua mãe).
O que aconteceu foi o oposto. A data foi rapidamente apropriada pelo comércio. Floriculturas, confeitarias, lojas de cartões e grandes varejistas transformaram o feriado em uma máquina de vendas. Anna ficou furiosa. Ela passou a combater abertamente a comercialização, movendo processos judiciais contra empresas que usavam o nome da data, protestando publicamente em eventos comerciais e denunciando o que via como uma traição ao espírito original da celebração.
A campanha a arruinou financeiramente. Gastou boa parte de sua herança em honorários advocatícios. Na década de 1940, chegou a organizar uma petição para revogar legalmente o feriado. Antes que pudesse concluir esse esforço, foi internada em um sanatório em West Chester, Pensilvânia, em 1943. Ironia cruel: há relatos de que parte das suas despesas médicas foi paga por representantes da indústria floricultura, exatamente o setor que ela mais combatia. Anna Jarvis morreu em 24 de novembro de 1948, sem filhos, praticamente sem dinheiro, e com profundo arrependimento pela data que havia criado.
Julia Ward Howe e a Visão Pacifista
É importante mencionar outra precursora: Julia Ward Howe (1819–1910), poeta, abolicionista e ativista pelos direitos das mulheres, famosa por ter escrito o "Hino de Batalha da República". Em 1870, horrorizada com a devastação da Guerra Civil e preocupada com a Guerra Franco-Prussiana que se iniciava na Europa, Howe lançou o que ficou conhecido como a Proclamação do Dia das Mães. No documento, ela convocava as mulheres do mundo a se unir em prol da paz e a pressionar seus governos a evitar guerras.
Howe chegou a promover um Mother's Day for Peace (Dia das Mães pela Paz) em junho, que foi realizado em algumas cidades americanas por cerca de três décadas, mas acabou se extinguindo antes da Primeira Guerra Mundial. Sua versão da data tinha um caráter político e pacifista que diferia bastante da visão de Anna Jarvis, mais voltada ao âmbito doméstico e familiar.
A Chegada ao Brasil
O Dia das Mães chegou ao Brasil por meio da influência religiosa protestante norte-americana. A primeira celebração no país ocorreu em 12 de maio de 1918, em Porto Alegre, por iniciativa da Associação Cristã de Moços do Rio Grande do Sul (ACM-RS). O responsável por trazer a data foi o pastor metodista Frank Long, então secretário-geral da instituição.
Aos poucos, a festividade se espalhou por outros estados e ganhou adesão de diferentes igrejas e comunidades. Em 1932, o presidente Getúlio Vargas oficializou o Dia das Mães no Brasil por meio do Decreto nº 21.366, de 5 de maio, fixando o segundo domingo de maio como a data nacional. A iniciativa contou com o apoio da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização feminista liderada por Bertha Lutz, que via na celebração uma oportunidade de valorizar publicamente o papel da mulher na sociedade. O contexto não era casual: o decreto foi assinado no mesmo ano em que as brasileiras conquistaram o direito ao voto, em fevereiro de 1932.
Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, determinou que a data fosse incluída no calendário oficial da Igreja Católica no Brasil, consolidando ainda mais sua presença no cotidiano do país.
O Dia das Mães no Mundo: datas diferentes, mesma intenção
A data não é celebrada no mesmo dia em todos os países. O segundo domingo de maio, adotado pelo Brasil e pelos Estados Unidos, foi seguido por nações como Alemanha, Itália, Japão, Finlândia, Dinamarca, Canadá, Chile e África do Sul. Portugal e vários países lusófonos celebram no primeiro domingo de maio, seguindo a tradição católica do mês de Maria. Na Argentina, a data é comemorada no terceiro domingo de outubro. Na Rússia, no último domingo de novembro. No Líbano e na Palestina, no primeiro dia da primavera. A pluralidade de datas reflete como o significado central da celebração, a valorização da maternidade, foi adaptado às tradições culturais e religiosas de cada sociedade.
O Dia das Mães e o Comércio no Brasil Contemporâneo
No Brasil, o Dia das Mães tornou-se a segunda data mais importante do comércio varejista, superada apenas pelo Natal. Flores, perfumes, roupas, eletrônicos, restaurantes e viagens movimentam bilhões de reais todos os anos. Essa dimensão comercial é exatamente o fenômeno que Anna Jarvis combateu ao longo de toda a sua vida, com a diferença de que hoje é amplamente aceito e naturalizado como parte da celebração.
Essa tensão entre o afeto genuíno e a lógica do consumo é uma das reflexões mais pertinentes que a história do Dia das Mães nos convida a fazer: o que significa honrar alguém? Uma visita, uma ligação, uma carta escrita à mão ou um presente caro expressam a mesma coisa? A pergunta, que Anna Jarvis fazia com amargura no início do século XX, continua atual.
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Dia das Mães, uma data muito especial no Brasil. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 20/03/2026
Fonte:
https://www.nationalgeographic.com/culture/article/mothers-day-history-holidays-anna-jarvis
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